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PME. Elas têm o mundo na palma da mão

Foto: Miguel Pereira/Global Imagens
Foto: Miguel Pereira/Global Imagens

São pequenas e médias mas têm ambição de gigantes. As empresas portuguesas arriscam cada vez mais na hora de dar o salto para o estrangeiro.

Há uma vida antes e depois do Pokemon Go para Eduardo Vieitas. Apesar de nunca terem cruzado caminhos, o CEO da tecnológica portuguesa IT People reconhece que sem o jogo que há um ano virou febre mundial, hoje seria mais difícil conquistar clientes no estrangeiro.

“Foi a partir do fenómeno Pokemon Go que as pessoas começaram a perceber o que é a realidade aumentada. Antes achavam giro mas não sabiam como incluir o conceito no negócio da empresa. O jogo veio mudar essa perceção e abriu portas” conta Eduardo Vieitas ao Dinheiro Vivo, dias depois da inauguração do novo escritório no Peru.

Nascida em 2008 em Lisboa, foi só em 2013 que a tecnológica decidiu que estava na hora de dar o salto lá para fora. O Brasil foi o primeiro destino de Eduardo Vieitas, mas a travessia não correu como esperava. “É um mercado surpresa. Está sempre de braços abertos e acolhe bem os portugueses, mas depois os negócios não avançam, porque não há uma negociação formal. Criam-se amizades, mas na semana seguinte esquecem-se do que combinaram e as coisas arrastam-se até arrefecerem completamente. Acabámos por sair e é um mercado em stand-by”, admite.

CEO da IT People, Eduardo Vieitas. Foto: PAULO SPRANGER/Global Imagens

O futuro da empresa na América Latina passa pelo Peru, mas até ao primeiro semestre de 2018 os projetos ficarão no segredo dos deuses.

A fatia de leão dos negócios da IT People ainda está em Portugal. Nem com todas as ferramentas que o mundo digital trouxe, internacionalizar deixou de ser caro para uma PME. “É possível ir ao mercado e fazer reuniões por valores baixos, os custos vêm depois. Quando passamos a ter de ir várias vezes por ano ao de destino e trabalhar lá”, explica Eduardo Vieitas.

Que o diga Ilídio de Ayala Serôdio, que já perdeu a conta às milhas que acumulou nos últimos 40 anos. Hoje mesmo vai a caminho da Indonésia. Todos os anos faz pelo menos 18 viagens de trabalho, afirma o CEO da Profabril que, tal como a IT People, foi uma das 873 empresas que no início do ano responderam ao primeiro inquérito do Observatório InSight sobre a internacionalização das PME, numa iniciativa da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP).

A ponte é uma passagem
A investida da consultora de engenharia no estrangeiro começou quando Portugal ainda era um país “orgulhosamente só”. Há 40 anos chegou a Macau para participar na construção do aeroporto e de lá nunca mais saiu. Hoje a máquina está bem oleada, mas muito mudou.

“Os clientes já não querem as coisas feitas à distância, querem discutir os problemas no momento. Isso obriga-nos a ter equipas permanentes no local, o que significa mais despesa e mais investimento”, conta o CEO da Profabril, que apesar das parcerias que estabelece nos mercados onde entra, tem sempre trabalhadores portugueses no centro das operações. Dos mais de 550 colaboradores da empresa, menos de 30% estão em Portugal.

Ilídio de Ayala Serôdio, CEO da Profabril. Foto: Orlando Almeida / Global Imagens

Criar laços com os clientes é, para Ilídio Serôdio, o passo mais importante da internacionalização de uma PME. “É preciso ter uma vantagem comparativa e pelo preço é impossível. Não conseguimos ser mais baratos, mas podemos bater a concorrência na qualidade do trabalho”, defende.

A história da Profabril faz-se das pontes construídas com os clientes. Mas há outra ponte na lista de desejos de Ilídio Serôdio. Liga as ilhas de Java e Sumatra, na Indonésia, e tem um custo estimado de 20 mil milhões de dólares. Há mais de 50 anos que não passa de um projeto, mas a Profabril quer estar na linha da frente. “Comprámos uma empresa na Indonésia no ano passado que está a fazer projetos para pontes suspensas. Caso essa grande ponte seja construída, esperamos estar lá a trabalhar”, conta o CEO da consultora, um fã assumido do “enorme potencial” do país do sudeste asiático.

Portugal à sobremesa
Foi aqui bem mais perto que João Pires encontrou as maiores barreiras. O presidente da Condi viu no mercado francês a oportunidade para expandir a empresa especializada em sobremesas. Mas sofreu uma desilusão quando percebeu que os franceses não consomem gelatina. Ainda assim, não baixou os braços até descobrir uma brecha. Hoje, os supermercados gauleses vendem as sobremesas da Condi no corredor dos produtos étnicos. “É um segmento que não vende tanto mas França é um país muito grande. E, retirando a gelatina, os hábitos não são assim tão diferentes dos nossos”, explica João Pires.

João Pires, CEO da Condi. Foto: Filipe Amorim/Global Imagens

A lista de peculiaridades dos mercados vizinhos não fica por aqui. Ao paladar dos franceses junta-se o nacionalismo dos espanhóis. “Nos produtos em Espanha está bem escondido o facto de sermos portugueses. Até temos um site com domínio espanhol”, conta o CEO da Condi. E nos próximos anos, os espanhóis não poderão mesmo fugir ao doce português: ao fim de anos a partir pedra, a Condi conseguiu fechar negócio com a Mercadona, a maior cadeia de retalho espanhola. “Dentro de pouco tempo poderá ser o nosso principal mercado”, acredita João Pires.

É também do outro lado da fronteira que a Ecoibéria mais fatura. Nascida em Famalicão pela mão de um português e uma italiana, a empresa de reciclagem de embalagens de plástico teve um desafio diferente quando apostou na internacionalização. “A procura pelo nosso produto a nível mundial é superior à oferta. São os clientes que nos procuram”, conta Milena Parnigoni, diretora de operações da Ecoibéria.

Milena Parnigoni directora-geral Ecoiberia. Foto: Miguel Pereira/Global Imagens

A demanda é tanta que a empresa vai construir de raiz uma nova fábrica já no próximo ano. E pode não ficar por aqui. “O transporte das mercadorias é muito caro. Portugal tem muitas limitações no transporte marítimo e intermodal. Já tivemos clientes que nos desafiaram a abrir a empresa noutros países, mas temos de ir com calma”, conta Milena Parnigoni. Para já, e Ecoibéria terá de continuar a ir para fora cá dentro.

Empresas sem fronteiras. Quem são e o que fazem?

-IT People
Nasceu em 2008 com apenas três colaboradores. Hoje, a tecnológica especializada em realidade aumentada conta com 90 trabalhadores, distribuídos pelos escritórios de Lisboa e Covilhã. Acabou de inaugurar novas instalações no Peru, numa aposta clara na internacionalização. Em 2016, a IT People criou ainda o projeto TANDEM, uma incubadora de pequenos negócios inovadores.

-Profabril
Foi criada em 1963 como empresa especializada em projetos de caminhos de ferro. Mais tarde, a consultora de engenharia expandiu para as autoestradas e planeamento urbano e de tráfego. Foi nacionalizada em 1975 e só voltaria a ser privada na década de 90. Macau, Indonésia e Moçambique são hoje alguns dos seus principais mercados. Ocupa o lugar 92º das maiores empresas mundiais de engenharia.

-Condi
Começou por ser herdeira da Margão, mas em 1991 vendeu o negócio das especiarias para se dedicar às sobremesas. A Condi é uma empresa familiar que fabrica mais de 500 produtos, sendo que as gelatinas são os mais populares. A aposta mais recente são os bolos na caneca que se fazem num minuto, um conceito que a empresa conseguiu exportar com sucesso para Cabo Verde e que tenta agora fazer chegar a Israel em versão Kosher.

-Ecoibéria
Foi criada em 2005 em Famalicão e começou a exportar logo no primeiro ano de vida. O principal mercado da empresa de reciclagem de resíduos plásticos começou por ser a China, mas nos últimos anos virou-se para Espanha. É a única empresa portuguesa que exporta PET Flakes, uma forma de poliéster que permite criar materiais seguros, inquebráveis e recicláveis. A atividade internacional representa 80% do volume de negócios. Tem 46 colaboradores e está a preparar a construção de uma nova fábrica.

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