Polémica

Yupido garante “origem legal” de 29 mil milhões de euros

Torres de Lisboa
Fotografia: Pedro Velez
Torres de Lisboa Fotografia: Pedro Velez

PJ investiga empresa desconhecida com capital social milionário. Especialista levanta hipótese de fraude ou branqueamento de capitais

“O capital tem por base uma operação global, e empresas com operações globais precisam de uma estrutura diferente”. É a resposta da Yupido à polémica que estalou nos últimos dias, que tem no centro uma empresa até agora desconhecida, com um capital social de 28,8 mil milhões de euros. O valor é inusitado mas, em declarações por telefone ao DN/Dinheiro Vivo, Francisco Mendes, porta-voz, garante que o montante é “o resultado de um projeto que tem três anos” e “origem legal”. Caso contrário, observa, a empresa já teria sido notificada “pelos órgãos competentes”.

Mas o que faz, afinal, a Yupido? A atividade da empresa, que nasceu 2015 com um capital social de 243 milhões de euros, está ligada a “consultoria de gestão para dar apoio a empresas”. E estará a preparar para o próximo ano o lançamento de “uma serie de serviços em diversas áreas”. Sublinhando que pretende deixar passar o “ruído” antes de dar mais explicações sobre o negócio, o porta-voz sublinha, porém, que a empresa está a seguir com “preocupação” todo o burburinho gerado à sua volta. “As dúvidas persistentes colocam em causa a capacidade do país ter empresas deste tipo. O que podem dizer investidores internacionais que querem entrar em Portugal se houver constantemente reações destas?” questiona Francisco Mendes.

Com sede nas Torres de Lisboa, numa empresa de aluguer de escritórios temporários, a Yupido foi criada por Cláudia Alves e Torcato Jorge, que hoje ocupam, respetivamente, os cargos de chefe de operações e diretor de marketing na empresa. O primeiro registo no Portal da Justiça remonta a 24 de julho de 2015. Na extensa descrição das áreas de atuação da empresa, cabem atividades como consultoria tecnológica, contabilidade, venda de publicidade ou edição de livros, jornais e revistas. Menos de um ano após ser constituída, a Yupido avançou para um aumento de capital, que passou para 28,8 mil milhões de euros, o dobro do valor de mercado da Galp.

Para o advogado Luís Miguel Henrique, o caso cheira a esturro. Desde logo, o especialista em Direito Fiscal, Direito Financeiro, Fusões e Aquisições, considera estranho que uma empresa com um capital de tantos milhões se tenha mantido desconhecida. O advogado também questiona a apresentação da Yupido no seu site, bem como todas as informações tornadas públicas. “Não é normal. E olhando meramente para os dados contabilísticos que surgem na imprensa, não só não é normal como não faz sentido. Posto isto, tudo o resto é meramente especulativo.”

Luís Miguel Henrique, salvaguarda, contudo, que não possui dados suficientes para averiguar a idoneidade da empresa. “Podem existir todas as razões legítimas, legais e até lógicas, que nós não conhecemos”, sublinha. Mas aponta que os dados já divulgados podem configurar um caso de branqueamento de capitais em potência. “Por exemplo, se me cair uma transferência de 500 milhões na conta, isso vai acender as luzes do Banco de Portugal. Se eu tiver uma escritura pública a indicar que vendi uma quota de capital social certificado, isso serve de esclarecimento.”

Por outro lado, o especialista indica que uma avaliação inflacionada também pode proporcionar uma situação de fraude. “Temos cá a Web Summit em breve, com empresas a serem potenciais alvos de abordagens de investidores. Nesta situação, vamos poder vender 1% por milhares de euros, mostrando apenas os dados contabilísticos.”

O ativo que colocou o capital da Yupido em valores estratosféricos foi uma plataforma “de armazenamento, proteção, distribuição e divulgação de todo o tipo de conteúdo media” que se destaca “pelos algoritmos que a constituem”, indica o jornal Eco, que teve acesso ao relatório emitido por António Alves da Silva, o revisor oficial de contas que fez a avaliação independente do ativo. “Parece que alguém descobriu o novo Facebook e ainda não disse a ninguém”, comenta Luís Miguel Henrique ,que se mostra cético quanto ao valor atribuído à suposta plataforma.

“Qual é a capacidade técnica que este revisor oficial de contas tem para conseguir quantificar de forma correta este ativo, desta maneira? Onde é que ele se baseou? Que formação é que recebeu para validar isto?”. A Polícia Judiciária indicou, entretanto, ao jornal Expresso que está a “analisar a situação para perceber se há indícios suficientes ou suspeitas que possam sustentar uma investigação”.

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