Investigação

Yupido. Autoridades seguem rasto da tecnológica que “vale” milhões

(Gustavo Bom / Global Imagens)
(Gustavo Bom / Global Imagens)

Software “inovador” sustenta avaliação de 28,8 mil milhões. Capital social da Yupido ultrapassa soma do capital social das doze maiores empresas

Terça-feira à noite, no twitter, o economista Carlos Pinto lançou a bomba: “Uma empresa portuguesa que se registou em 2016 com capital social de 29 mil milhões de euros. Alguém explica isto?”. Falava da Yupido. A discussão tornou-se tendência na rede social e 48 horas depois estava em todos os órgãos de comunicação social.

Carlos Pinto tinha chegado até à história através de uma publicação privada no Facebook de um amigo, professor universitário que, durante um trabalho, teria tropeçado no valor inusitado do capital social da empresa. “Achei absurdo. Pensei até que era um erro. Falando apenas de números, temos de somar o capital social das doze maiores empresas portuguesas e mesmo assim ficamos longe do capital social da Yupido, que não tem funcionários, foi criada há dois anos e nunca ninguém ouviu falar”, indicou ao Dinheiro Vivo o professor, que preferiu manter-se anónimo.

A história da Yupido é, de facto, inusitada, cheia de pormenores caricatos. A empresa foi fundada em julho de 2015 com um capital social superior a 243 milhões de euros, por Cláudia Alves, Torcato Jorge, Filipe Besugo e ainda os advogados da Pares Associados Tiago Gama e Sofia Asseiceiro. Para contabilizar esse capital foi apresentado um software inovador “de gestão para empresas, que funciona em multiplataformas”, indica o documento particular que titula o contrato de sociedade anónima, ao qual o Dinheiro Vivo teve acesso. O software estaria avaliado em 243 milhões de euros e seria detido por Cláudia Alves (70%) e por Torcato Jorge (30%). Para além deste ativo, cada um dos dois transferiu, em dinheiro, dez mil euros. Filipe Besugo entrou com quinze mil e os dois advogados com um euro cada. No final desse ano, os 243 milhões já aparecem nas contas da empresa como valor em caixa, contabilizado em depósitos bancários.

Logo após a sua criação, a Yupido avançou para o registo de uma marca, a Kuaboca. O registo acabou por ser concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial em maio do ano seguinte, não sem antes a empresa ter enfrentado um “pedido de oposição ativa”, ou seja, uma contestação ao registo da marca. A reclamação surgiu da Estoril Sol, dona dos Casinos do Estoril e de Lisboa, e foi apresentada por Carlos Farinha, secretário da empresa. Contactada pelo Dinheiro Vivo, fonte da Estoril Sol reconheceu saber de que processo se tratava, mas remeteu mais explicações para a administração, que não chegaram a tempo do fecho desta edição. Além da Kuaboca, a Yupido registou ainda a marca Quaquado, em agosto de 2016, sem restrições.

Uma pesquisa no LinkedIn revela que ainda em 2015, a Yupido chegou a ter uma equipa de cinco estagiários. Um dos ex-colaboradores, que preferiu manter o anonimato, revelou que o estágio realizado “nada teve que ver com o negócio da empresa”, e recusou dar mais explicações. Entretanto, todos os registos que ligavam atuais ou ex-colaboradores à empresa foram apagados da rede social.

No início de 2016, a Yupido reúne-se para tratar do aumento do capital social, dos mais de 243 milhões para os quase 29 mil milhões de euros, através da entrada em espécie de um ativo intangível “que se materializa numa plataforma digital inovadora de armazenamento, proteção, distribuição e divulgação de todo o tipo de conteúdo media: destacando-se tal plataforma pelos algoritmos que a constituem”, indica a ata número dois do livro de atas da assembleia geral da empresa.

Ao Observador, o revisor oficial de contas que certificou a avaliação do ativo da Yupido afirmou que se reuniu com os responsáveis da empresa e alguns técnicos. “Vi a imagem da televisão e pouco mais. Não sou nenhum técnico especializado, mas fiquei maravilhado,” indicou acrescentando que se lembrou de Steve Jobs. “Foi quase a mesma coisa.” António Alves da Silva, com uma experiência profissional de mais de 50 anos, assegurou ainda que o valor atribuído será “irrisório”, caso a tecnologia se efetivar.

A lei obriga a que a avaliação de bens intangíveis seja feita por um revisor independente. Ou seja, nos anos seguintes o profissional não pode exercer quaisquer cargos ou funções na empresa. Contudo, Alves da Silva poderá ser conectado à Yupido de uma outra forma. É que o revisor surge na composição dos órgãos sociais da Estoril Sol, como vogal da gestora de casinos, a mesma que contestou o registo da marca Kuaboca.

A Polícia Judiciária já estará a averiguar a situação, indica o jornal Expresso. Ao Jornal de Negócios, o Ministério Público indicou que se encontra a “acompanhar a situação, com vista a decidir qual o procedimento mais adequado no âmbito das suas competências.

Ao Dinheiro Vivo, Francisco Mendes, porta-voz da Yupido garante que a empresa de “consultoria de gestão para dar apoio a empresas” tem “origem legal” e está a seguir com “preocupação” todo o burburinho gerado à sua volta. “As dúvidas persistentes colocam em causa a capacidade de o país ter empresas deste tipo. O que podem dizer investidores internacionais que querem entrar em Portugal se houver constantemente reações destas?”

Twitter. Daniela, a alemã que é a verdadeira Yupido

Vive na Alemanha, chama-se Daniela H. e na quarta-feira começou a receber uma enxurrada de notificações no Twitter com origem em Portugal. Tudo porque o nome de utilizador de Daniela na rede social é…Yupido. Ao início a jovem confessou estar “confusa” pela atenção despertada de repente, mas face às proporções que o caso Yupido ganhou no Twitter, Daniela H. acabou por achar graça à coincidência. A alemã afirma que registou o nome “Yupido” pela primeira vez em 2012, e sublinha que “adoraria ter 29 mil milhões de euros”, mas na verdade é “apenas uma pessoa normal e falida”. Daniela acabou por ficar “curiosa” com o caso e deixou um pedido:”se alguma vez descobrirem de onde veio o dinheiro digam-me”.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Alberto Souto de Miranda
(Gerardo Santos / Global Imagens)

Governo. “Participar no capital” dos CTT é via “em aberto”

Congresso APDC

“Temos um responsável da regulação que não regula”

Congresso APDC

Governo. Banda larga deve fazer parte do serviço universal

Outros conteúdos GMG
Yupido. Autoridades seguem rasto da tecnológica que “vale” milhões