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“A La Positiva faz da Fidelidade uma multinacional modesta”

Andreas von Wedemeyer, presidente da La Positiva, com Jorge Magalhães Correia, presidente da Fidelidade. (D.R.)
Andreas von Wedemeyer, presidente da La Positiva, com Jorge Magalhães Correia, presidente da Fidelidade. (D.R.)

Seguradora comprou 51% da empresa peruana. “Já temos mais clientes a falar espanhol do que português”, diz Magalhães Correia.

“A La Positiva é rentável, tem boa gestão e 81 anos de mercado. A Fidelidade é a terceira seguradora mais antiga do mundo, criada quase 30 anos antes da independência peruana, e é a mais inovadora e tecnológica do mercado português.” Razões que, para Jorge Magalhães Correia, CEO da Fidelidade, explicam o investimento no Peru, onde a seguradora acaba de adquirir 51% da La Positiva Seguros y Reaseguros, por 107 milhões de dólares (93 milhões de euros), um “ativo estratégico”. A partir de agora, “temos mais clientes a falar espanhol do que português”, destacou em Lima o gestor, para quem a entrada na América Latina é “uma aposta de continuidade e crescimento”.

“Na La Positiva não aspiramos a ser os maiores mas os melhores”, disse ao Dinheiro Vivo Magalhães Correia, explicando que isso passa por “apoiá-la com transferência de tecnologia, conhecimento e experiência”. Em entrevista, revelou querer pôr a seguradora peruana a crescer dois dígitos já neste ano. A marca é para manter. “É a quarta num país com 30 milhões de pessoas e em que a distância de uma à outra fronteira é equivalente à que vai de Lisboa a Berlim. Portanto, é um mercado com dimensão e a La Positiva tem forte representação na província, junto das classes médias e médias baixas. Substituir a marca seria uma perda de valor.”

Seguros Peru

Empresas e saúde a seguir
“Acreditamos que é possível melhorar significativamente e crescer, sobretudo em áreas em que a La Positiva não é tão forte, como a dos riscos corporativos, industriais e patrimoniais, pois esta tem sido uma empresa mais de particulares. Estamos a trabalhar com a comunidade chinesa nesse sentido”, conta o presidente da Fidelidade. Entre os clientes portugueses que já estão no Peru destaca-se a Mota-Engil.

Ao contrário do que acontece em Portugal, no Peru é permitido colocar os seguros fora e as grandes empresas optam por esse modelo, pelo que os prémios não contam para o mercado peruano. Aqui há uma oportunidade. A empresa identifica um forte potencial de crescimento na área de acidentes de trabalho, já que o seguro não é obrigatório para todos os setores.

Também na saúde há espaço para a companhia portuguesa ocupar. Além dos seguros, “temos um ecossistema com hospitais único em Portugal e que pode ter valor se replicado aqui”, avança o presidente da Fidelidade. Multicare (seguros) e Luz Saúde (hospitais privados) são as duas marcas fortes em terras lusitanas, mas para o Peru não há ainda insígnias definidas.

“As empresas só progridem quando crescem. Nós definimos o plano estratégico há quatro, cinco anos e a expansão é parte dele, até porque Portugal é muito pequeno para a Fidelidade. Temos dois milhões de clientes, mas é difícil crescer em rentabilidade.” Com a aquisição da La Positiva – que tem atividade no Peru, na Bolívia, no Paraguai e na Nicarágua -, a carteira de clientes sobe para cinco milhões.
E pôr a La Positiva a crescer por aquisições? “A filosofia é acrescentar valor a partir das unidades locais – é um pouco o que segue a Fosun também na Fidelidade. Quem está no terreno é que sabe. Seria impensável crescer na América Latina sem a La Positiva. Será sempre um marco”, explica o gestor, que não põe de parte a hipótese de investir no Brasil, sobretudo na saúde.

O potencial de crescimento destes mercados é atrativo para Fidelidade e para a Fosun. Em 2018, o PIB peruano cresceu 3% e agora poderão ser mais de 4%, ritmo que tem atraído investidores de várias geografias. Com as principais reservas de ouro da América Latina, as minas são a atividade que mais contribui para o PIB do país. Magalhães Correia destaca “o impressionante progresso do Peru no combate à pobreza nos últimos anos”.

Marrocos no radar
Apesar de alguma instabilidade política e com novo presidente, Martín Vizcarra, desde março, os investidores internacionais não desistem de prosperar em terras incas. “Nós estamos em África, é muito mais complicado”, diz o CEO da Fidelidade. “Sabemos que há um nível de instabilidade endémica que faz parte de algumas economias. O que nos entusiasmou aqui foi saber que, à parte questões políticas, muitas vezes conjunturais, nos últimos anos o governo tem tido um racional único: fazer crescer o país. O fator cambial é tradicionalmente muito estável e o investimento estrangeiro é bem recebido, não há entraves quer à tipologia de investimento quer à transferência de capitais. Tudo isso nos fez considerar o Peru como uma oportunidade.”

África também “continua no radar” da Fidelidade. “Gostava de aumentar a operação em Moçambique. Em Angola e Cabo Verde estamos bem, mas há mais oportunidades. E há dois anos estivemos muito focados no mercado marroquino – entrámos num processo competitivo que perdemos para a Allianz. Hoje, se houvesse oportunidade, investíamos em Marrocos. Não desistimos, estamos à procura.”
IPO à vista em 2020

A La Positiva engorda e valoriza a Fidelidade, e se bancos de investimento já viam a hipótese de um IPO em 2018, será um tema a recolocar na agenda? “Talvez não em 2019, mas naturalmente virá a estar em cima da mesa, talvez no ano seguinte. É um tema dos acionistas, mas creio que haveria recetividade”, admite Magalhães Correia.

Entre as condições necessárias, realça as externas. “A atividade dos mercados esteve muito volátil em 2018 e isso pode manter-se com o Brexit, guerra comercial EUA-China, mas também a situação em França e Itália. Há ainda a nova complexidade das taxas de juro… não é o melhor momento. Mas a maioria das condições internas está reunida, segundo os advisors.” O que é preciso é “termos a história para contar; a La Positiva tem de dar resultados no curto prazo para enriquecer a nossa equity story, mostrando que a Fidelidade já não é uma empresa nacional com umas operações exteriores e acompanhamento de alguns clientes, mas uma multinacional que passou de 11% para 28% em prémios não vida vindos de fora. A La Positiva faz da Fidelidade uma multinacional modesta”, diz Magalhães Correia. “Faremos tudo para que seja um grande caso de sucesso.”

*A jornalista viajou a convite da Fidelidade

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