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A revolução silenciosa em que milhões participam sem saber

Burberry

ACEPI prevê que em 2025 as empresas e o Estado comprem online mais de 130 mil milhões em produtos

Se entrar na loja da Burberry em Regent Street, Londres, e pensar que acaba de fazer clique no site da marca de luxo, não é por acaso. A loja, situada num edifício centenário, reflete o que a Burberry pretende oferecer aos clientes: uma experiência imersiva multimédia de marca. E de compra. Quando experimenta uma peça, os espelhos dos provadores mostram uma imagem dessa peça na passarelle. O espaço está organizado por divisões que espelham as secções que podem ser consultadas no website.

O caso Burberry é de 2012, mas foi recordado por Luís Flores, CEO da Unicre, como exemplo de como as empresas estão a organizar os canais de vendas “de modo a que os clientes não sintam a diferença, independentemente do canal que estão a usar”. Tal como a compra, também o “pagar deve ser o menos obstrutivo”, defendeu o CEO, no painel Transformação Digital dos Negócios e Empresas, no Portugal Digital Summit, organizado esta semana pela ACEPI, e do qual o Dinheiro Vivo foi parceiro.

Cerca de 70% dos portugueses têm acesso à internet e 30% fazem compras online, tendo gasto o ano passado cerca de 3,8 mil milhões de euros. As plataformas chinesas ganham destaque e, para captar a atenção deste público, a ACEPI criou um MoU com a congénere chinesa para que Portugal aproveite os benefícios deste mercado. Destacando que a China é o maior do género do mundo, tendo em 2015 registado vendas que ascendeu aos 975 mil milhões de dólares. Alexandre Nilo Fonseca, presidente da ACEPI, lembrou que o acordo assinado com a China International E-Commerce Center vai permitir exportar negócios lusitanos para a Ásia.

Com muito caminho ainda pela frente, o multibanco, transferência bancária e cartão de crédito são já os métodos de pagamento mais usados pelos portugueses. É que, “se a tecnologia é um enabler da inovação”, criando novos negócios, as soluções acabam por ser adotadas pelos consumidores apenas se forem simples.

João Pedro Azevedo, CEO da Amorim Cork Composites, fala de “uma revolução silenciosa” quando se refere ao impacto que o digital está a ter na vida dos cidadãos e nas próprias empresas, que tiveram de criar processos e reorganizar para responder aos desafios. O mesmo tinha referido Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, ao discursar na abertura do evento. “Há milhões de portugueses que participam na revolução e que não têm a noção de que participam. Há qualquer coisa de errado nisto, porque uma revolução é para ser notada”, lembrou o Chefe do Estado.

A questão parece ser se, efetivamente, as empresas estão preparadas para responder a esse desafio. João Sousa, administrador da PT com o pelouro das empresas, tem dúvidas. “O digital não é uma tendência é uma coisa em que vivemos. Uma das vezes em que o mercado está à frente das empresas”, diz. “75% das empresas dizem que é uma tendência, mas dessas só 15% acham que têm capacidade instalada para responder a esse desafio.” Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal, reforça: “26% das empresas portuguesas ainda vivem sem email, site ou Facebook”, lembrou no painel A Transformação Digital do Turismo. É que, apesar de Portugal estar no 15.oº lugar no ranking da competitividade, em TIC só ocupa o 40.oº posto, segundo o ranking do World Economic Forum. O que mostra “os desafios que as empresas ainda enfrentam”.

O digital não pode ser um canal à parte, “é um processo que tem de estar integrado nas organizações”, diz João Sousa. “Os clientes digitais são muito exigentes” e uma resposta “em real time é muito crítica, as operações têm de se adaptar”, reforça Ferrari Careto, administrador da EDP – Soluções Comerciais, durante o painel da Transformação Digital dos Negócios e Empresas.

Os CTT adaptaram. “O grande negócio vem, cada vez mais, através do comércio eletrónico”, frisou Francisco Lacerda. O presidente dos CTT lembrou os Correios, mas também o Banco CTT, como exemplo de um “investimento digital, que traça o perfil dos clientes usando os canais digitais”. Quanto ao negócio dos correios, é preciso “fazer diferente, no mundo das app e das novas plataformas”. Em 2017 uma nova aplicação dos CTT será lançada com novas funcionalidades, adiantou o responsável no painel As Redes de Comunicação do Futuro.

O digital também está a impactar o negócio dos media, com os grupos de comunicação social a terem de responder ao desafio, apostando em projetos para esta plataforma. Este ano, o Global Media Group (dono do Dinheiro Vivo, DN, JN e TSF) lançou o site feminino Delas.pt, tendo a aposta no digital resultado na liderança de audiências online do grupo, segundo dados do Netscope, lembrou José Carlos Lourenço, chief operating officer do Global Media Group, no painel Transformação Digital dos Negócios e Empresas. Este ano, o grupo conta que 10% das receitas tenham origem no digital.

O turismo está igualmente a retirar benefícios desta era. “Lisboa quer ser um exemplo da utilização do digital como forma de alterar a experiência dos turistas”, diz Victor Costa, diretor-geral da Associação de Turismo de Lisboa. Hoje, o projeto Lisboa Smart City coloca à disposição dos visitantes opções de realidade aumentada com explicações sobre o património.

Os investimentos não devem parar. Afinal, lembra Fátima Barros, presidente da Anacom citando um estudo da Cisco, o “tráfego na internet será de mais 168% até 2020”. Quanto a Portugal, “já está acima da média europeia em termos de redes”, segundo a Comissão Europeia. “Temos redes de alta velocidade, mas nem todas as famílias lhes acedem” por falta de poder de compra. Até 2025, Bruxelas quer dar acesso à internet a todas as grandes instituições, às famílias e às principais redes de transportes. Para isso é vital que “o acesso ao serviço universal conte com a participação de operadores e fundos públicos disponíveis”.

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