Globalização

Abandonaram o país mas surgiram novos negócios

A Clarks foi uma das multinacionais que abandonou o país e deixou centenas de pessoas no desemprego. Fotografia: Fernando Timóteo/Global Imagens
A Clarks foi uma das multinacionais que abandonou o país e deixou centenas de pessoas no desemprego. Fotografia: Fernando Timóteo/Global Imagens

A região norte sentiu na pele os efeitos da globalização. Várias multinacionais fecharam portas e o desemprego alastrou. Mas a economia ressurgiu

A primeira década deste novo milénio ficou marcada pelo encerramento de várias multinacionais na região norte e pela perda de emprego de milhares de trabalhadores. A maioria dessas empresas de capital estrangeiro foram à procura de geografias com custos laborais mais baixos, sem dó nem piedade pelos investimentos já realizados no país, pelos apoios recebidos, pelas horas de formação dadas aos colaboradores e, principalmente, pelo destino daqueles milhares de homens e mulheres que empregavam. O fenómeno chamou-se globalização. Houve protestos, greves, manifestações. Foi uma década dura em Ovar, Castelo de Paiva, Gaia, Póvoa de Lanhoso e Guarda. E isto só para recordar as situações mais mediáticas. O Dinheiro Vivo foi escrutinar o presente e concluiu que a região deu a volta por cima. Surgiram novos investimentos, nacionais e internacionais, atividades qualificadas e recuperaram-se centenas de postos de trabalho.

Fechou a porta da Clarks e abriu a da Bradco
Rosa Paiva dirigiu a C&J Clarks até ao seu encerramento, em 2003, e foi uma das 580 pessoas que perderam o emprego quando a multinacional de calçado inglesa decidiu deslocalizar a produção. A saída da Clarks “provocou um grave problema de desemprego no concelho” de Castelo de Paiva, lembra. Na Suíça, um emigrante português decidiu relatar o fim da multinacional e o drama do desemprego de centenas de trabalhadores com vasta experiência no trabalho de couro. Alain Dubois, investidor suíço da área da relojoaria, ficou interessado em conhecer a realidade do concelho e viajou até Castelo de Paiva para aferir da possibilidade de abrir uma unidade fabril de braceletes para relógios e marroquinaria de luxo. Rosa Paiva voltou à ação e, juntamente com a Brasport, tratou da abertura da nova empresa, nas mesmas instalações da Clarks. No verão de 2005, a Bradco iniciou a produção com cinco pessoas. Ano após ano, a empresa foi crescendo em atividade e em trabalhadores. Atualmente emprega 260 pessoas, exporta 100% da produção e prevê encerrar o exercício de 2018 com uma faturação da ordem dos 14 milhões de euros. A pensar no futuro, a Bradco tem em mãos a construção de raiz de uma nova fábrica, que deverá estar concluída em 2020, e que implica um investimento acima de três milhões.

No início as cablagens, hoje nutrição desportiva
As antigas instalações da multinacional norte-americana Lear, na Póvoa de Lanhoso, estão hoje ocupadas pela Prozis, empresa que se apresenta como líder europeia na venda online de suplementos alimentares. Depois de em 2005 a Lear ter encerrado a unidade de cablagens para o setor automóvel, colocando no desemprego quase 800 trabalhadores – chegou a empregar perto de duas mil pessoas -, a aposta da Prozis foi uma lufada de ar fresco no concelho. A empresa liderada por Miguel Milhão instalou na antiga Lear a sua unidade produtiva e emprega atualmente 230 pessoas. De acordo com a autarquia da Póvoa de Lanhoso, a Prozis tem em curso um projeto de expansão que prevê um aumento do investimento de 12 para 20 milhões de euros e a criação de 400 novos postos de trabalho. A Lear foi para a Roménia, mas Póvoa de Lanhoso ganhou um novo negócio, com base tecnológica e focado no exterior. As exportações valem 90% da atividade.

Gigante alemão ocupa espaço do holandês
A Philips foi, durante quase quatro décadas, uma das maiores empregadoras de Ovar. A multinacional holandesa encerrou a sua última unidade em 2009, num processo que se iniciou na viragem do milénio e se foi arrastando no tempo. Chegaram a trabalhar 2500 pessoas no complexo da Philips. Deslocalização de produção e alterações profundas no mercado foram as justificações avançadas na época pela marca de produtos eletrónicos para o abandono da produção em Portugal. Em sentido inverso, a Bosch decide expandir o seu negócio no país e tornou-se uma das tábuas de salvação da região. O grupo alemão começou por comprar o negócio da videovigilância da Philips, em 2002, e hoje já contabiliza um investimento superior a 40 milhões de euros em Ovar. Utiliza 19 500 metros quadrados do complexo e emprega mais de 700 pessoas. No ano passado, aumentou a área fabril e preparou a unidade para o futuro. A Bosch Ovar será responsável pela investigação e desenvolvimento de novas soluções de hardware, software e inteligência artificial para a divisão de ferramentas elétricas. Segundo frisa a multinacional, o investimento de 2017 foi um “reflexo do crescimento do negócio” e teve “um impacto significativo na redução da taxa de desemprego na zona de Ovar (cerca de 10%)”.

Fábrica pioneira dá lugar a centro logístico
A fábrica da japonesa Yasaki Saltano, em Gaia, a primeira de cablagens na Europa, transformou-se no maior centro logístico da Garland em Portugal, uma das cinco mais antigas empresas nacionais. Mas o renascer das velhas instalações fabris, que quando encerraram (em 2008) empregavam quase 400 pessoas, ainda demorou uns anos. Só em 2014 é que a Garland decidiu criar um novo posto de logística e armazenamento a sul do Douro. O negócio cresceu a bom ritmo e as instalações da antiga fábrica ofereceram condições para a expansão. Como recorda Ricardo Sousa Costa, administrador da Garland, “a recuperação da unidade industrial resultou da necessidade de expandir a capacidade de armazenagem para fazer face a novas necessidades dos clientes”. Com a escassez de armazéns de grande dimensão na zona norte, o edifício da Yasaki Saltano revelou-se uma boa solução. A Garland investiu 3,5 milhões de euros e transformou a fábrica num centro logístico, com 35 mil metros quadrados e uma capacidade de armazenagem de 80 mil metros quadrados, adianta Ricardo Sousa Costa. Em Gaia, trabalham atualmente 50 pessoas, responsáveis pela armazenagem, etiquetagem conferência e controlo de qualidade, assemblagem de componentes, serviços de distribuição nacional, entre outros.

Delphi da Guarda pode dar um multiusos
O encerramento da Delphi na Guarda feriu gravemente este concelho do interior. A empresa de componentes automóveis, de origem norte-americana, era um dos grandes empregadores de uma região com as debilidades económicas inerentes à sua localização. A Delphi fechou definitivamente portas em 2010. Pelo caminho ficaram mais de 900 empregos. A empresa tinha já encerrado no ano anterior a fábrica de Ponte de Sor e iniciado o despedimento de 600 trabalhadores na Guarda. No último ano de atividade, ainda trabalhavam na unidade 314 colaboradores.
A falta de encomendas ditou o seu fim, justificou na ocasião a administração. Quatro anos mais tarde, as instalações foram vendidas ao empresário local Bernardo Marques, proprietário da empresa de transportes com o mesmo nome. Segundo a autarquia, “atualmente, funcionam várias empresas nas instalações”. Em cima da mesa está a possibilidade de receber um complexo multiusos. “Está ainda a ser estudada a sua localização, há várias hipóteses, incluindo as instalações da antiga Delphi.”

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