AICEP espera que presença na Hannover Messe traga cem milhões de investimentos no próximo ano e meio

Luís Castro Henriques admite que terão sido mais de cinco mil os contactos estabelecidos pelas 109 empresas portuguesas representadas na feira com potenciais novos clientes. A notoriedade de Portugal "esteve muito para além do evento, chegou a todo o lado na Alemanha".

É com visível satisfação que o presidente da AICEP faz o balanço da participação lusa na Hannover Messe, neste ano em que Portugal foi o país parceiro da maior feira de tecnologia para a indústria do mundo. "Ainda é muito cedo para avaliar, em pleno, os efeitos da presença na feira, mas, das intenções que me chegaram, a minha expectativa é que possa render mais de 100 milhões de euros de investimentos em Portugal no próximo ano a ano e meio", avança Luís Castro Henriques.

Foram 109 as empresas nacionais presentes e que, até ao penúltimo dia da feira, haviam já tido mais de três mil contactos e reuniões com novos potenciais clientes, o que leva o presidente da AICEP a estimar que, no total, este número possa chegar aos cinco mil. "Há muito trabalho a partir de hoje para se fazer", sublinha.

Para Luís Castro Henriques, a notoriedade conseguida foi "muito além da presença na feira e chegou a todo o lado na Alemanha, muito ajudada pelas palavras do chanceler Olaf Scholz que considerou Portugal um parceiro "fiável e competente". Recorde-se que Scholz, que esteve com António Costa na inauguração do evento e acompanhou o primeiro-ministro num périplo pela delegação portuguesa, elogiou o percurso nacional, dizendo que Portugal "tem escrito uma história de sucesso económico impressionantes" e que é um parceiro "interessante" no hidrogénio verde. Já António Costa considerou que a presença portuguesa na feira "irá seguramente alavancar o aumento e o crescimento" das exportações portuguesas", lembrando que o governo pretende que, nesta década, as exportações nacionais passem a representar "mais de 50% do produto interno bruto do país".

Do lado das empresas, o clima é de confiança. Encomendas parecem não faltar, a dúvida é se as conseguirão entregar a tempo e horas, atendendo à falta de componentes eletrónicos. É o caso da Wavecom, empresa de Aveiro que fornece tecnologias de comunicação e aplicações que tiram partido da tecnologia wireless, e que tem nos produtores de energia eólica os seus maiores clientes, mas que trabalha também com universidades, portos e agora, também, no setor dos transportes públicos. Com um volume de negócios de 5,5 milhões, a empresa teve em 2021 um ano recorde de vendas e perspetiva que este ano possa batê-lo. "O desafio está é na implementação dos projetos", diz Mário Rui Santos, coCEO da empresa, apontando as dificuldades no abastecimento de componentes.

"Nos últimos dois meses estivemos com a atividade de implementação de projetos reduzida, agora, em junho, vamos estar a 200%. Vai ser um sprint até ao final do ano", sublinha. Em breve vai instalar routers em mais de mil autocarros da Carris, um produto de desenho e fabrico próprios para fornecer wi-fi aos passageiros. Tem também contrato com os Transportes Urbanos de Braga e está a procurar abordar o setor ferroviário. No segmento da localização e rastreio trabalha com a Continental e a Renault, entre outras.

Já a AGIX, de Leiria, esteve pela primeira vez na Hannover Messe para apresentar as suas competências no desenvolvimento de células robotizadas costumizadas à necessidade do cliente. Criada em 2014, a empresa conta com 40 trabalhadores (eram sete há ano e meio) e faturou dois milhões de euros em 2021. A pandemia trouxe mais trabalho ainda, com as fábricas a investirem em automação como forma de evitarem grandes aglomerados de trabalhadores na produção.

Pela proximidade à Marinha Grande, a AGIX trabalha muito com a indústria automóvel, mas não só, já que faz questão de "ajudar todo o tipo de indústrias, tendo já projetos implementados no calçado e na colchoaria". A primeira célula robótica que desenvolveu foi para a BMW, para a linha de produção do Mini, numa fábrica na Polónia, para assegurar a clipagem das peças para encaixar no automóvel. Revelou-se um sucesso tal que, "neste momento, todas as células robotizadas da fábrica são já da AGIX", diz João Batista, que espera, este ano, chegar aos 2,8 milhões de faturação.

Das fibras de carbono à eletrónica estirável
Com uma delegação tão grande de expositores - só a Itália conseguiu destronar Portugal como a maior representação estrangeira na Hannover Messe, com 157 stands -, que António Costa fez questão de visitar um a um, a variedade de oferta de produtos e serviços é garantida. A Soplast, de Valongo, esteve na Hannover Messe com um cockpit automóvel, o UNIC2, desenvolvido em parceria com a Universidade de Coimbra e patenteado a nível internacional. A empresa, especializada em injeção de plástico, está agora a apostar na eletrónica estirável, leia-se elástica, e que pode ser integrada em peças plásticas ou tecidos, com "soluções ilimitadas" de instalação de sensores capacitivos em volantes, na consola central HMI ou no ajuste dos bancos. A tinta usada nos componentes eletrónicos elásticos tem ainda a capacidade de se autorregenerar à temperatura ambiente. O protótipo foi bem recebido, mas o objetivo, diz Tiago Carvalho, responsável de vendas da Soplast, é "passar à produção em massa" e, por isso, a empresa está à procura de um "big player da eletrónica ou do automóvel que ajude a alavancar esta tecnologia".

Já a NewStamp, de Aveiro, foi à Alemanha dar a conhecer a sua experiência em estampagem de componentes mecânicos, mas também na produção de peças em fibra de carbono, uma área que gerou atenção junto da indústria aeronáutica. Mas, não só. "Tivemos contactos muito interessantes e com grande potencial. Estamos já a agendar reuniões. E tivemos uma empresa indiana, que opera numa atividade complementar, a sugerir-nos uma eventual parceria", explica Pedro Santos.

Com 40 trabalhadores, a NewStamp faturou dois milhões em 2021, mas está ainda abaixo dos valores pré-pandemia. O que não admira, dado que 40% do que faz é para a indústria automóvel, embora trabalhe também com os setores ferroviário, alimentar e farmacêutico.

As perspetivas para 2022 estão marcadas pelo clima de incerteza. "O nosso sonho era que este fosse o ano da retoma, mas houve um doido que começou uma guerra... Acho que 2022 vai ser parecido com 2021, com os custos energéticos a ter grande impacto nas empresas. Julgo que só em 2024 conseguiremos regressar aos valores pré-pandemia", diz.

Estreante na Hannover Messe, a Fisola, de Albergaria-a-Velha, fornece estruturas metálicas para postes de alta, média e baixa tensão, tendo por clientes a EDP, REN e as suas congéneres além fronteiras. E evoluíram, entretanto, para a iluminação pública. Dos 12 milhões que faturaram em 2021 - nunca pararam de crescer mesmo com a covid -, metade é do setor energético e 30% das telecom, mas esta é a área que mais exporta. Encontrou potenciais clientes para a energia, mas, também, para uma área nova, a mineração.

Também a TMG Automotive esteve pela primeira vez na Hannover Messe, com o seu conceito personalizado de moldagem de peças, que permite "fornecer ao mercado materiais moldados em formatos inovadores". A aposta da têxtil técnica de Guimarães de matérias-primas biológicas e sustentáveis, reciclando e reincorporando as sobras da produção, foi das áreas mais apreciadas pelos potenciais compradores. *A jornalista viajou a convite da Siemens

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