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Alain Dehazze. “Se o mundo muda, nós também temos de mudar”

CEO do Grupo Adecco, Alain Dehaze.REUTERS/Arnd Wiegmann
CEO do Grupo Adecco, Alain Dehaze.REUTERS/Arnd Wiegmann

O presidente executivo do Adecco Group antevê um futuro em que a volatilidade é a regra e a adaptabilidade um imperativo.

Alain Dehazze considera que a aprendizagem ao longo da vida é hoje indispensável no mundo laboral, associado à inovação e à flexibilidade. Por exemplo, as carreiras “portfólio” (com vários trabalhos em part-time e diferentes empregadores e setores) estão a aumentar.

Que mudanças prevê para o futuro do trabalho?

O futuro do trabalho é agora: um tempo em que a volatilidade é regra e empregadores e trabalhadores têm de se adaptar ao mundo à sua volta. No Adecco Group, a nossa estratégia identifica seis mega- tendências que têm impacto no mundo do trabalho. Sociedades envelhecidas, redução de capacidades e a invasão de robôs e da inteligência artificial são desafios massivos que a força de trabalho do futuro terá de enfrentar. Se acrescentarmos a isto o crescimento da gig economy, o uso crescente de big data e analytics, lhe somarmos a incerteza geopolítica e económica, ficamos com uma ideia dos desafios complexos que têm de enfrentar as pessoas que querem gerir a sua carreira com sucesso, e atrair, reter e contratar talento.

Quais os desafios que essas mudanças trarão?

Diz-se muitas vezes que não é o mais forte da espécie, nem sequer o mais rápido que sobrevive no final, mas sim o mais adaptável. Um desafio particular é o de que se o mundo muda, nós também temos de mudar. O trabalhador de sucesso de amanhã estará predisposto para a educação ao longo da vida, nas competências mais convenientes. Os negócios de sucesso serão flexíveis e adaptáveis à mudança, e investirão nas competências dos seus trabalhadores, como regra. Os governos visionários do futuo vão redesenhar os sistemas de educação para se focarem nas soft skills e no saber académico.

As expectativas dos baby boomers de um “trabalho para a vida” acabaram. Como prevê que seja a carreira de quem chegar ao mercado de trabalho em 2019?

Pelo que vejo, não se trata de fazer mais ou menos, mas de um desejo de ser mais flexível. Certamente, a nova geração está muito mais feliz em abraçar o gig working, com uma importância crescente do equilíbrio vida pessoal/trabalho, do que outras gerações. Um resultado desta mudança é que os empregadores, na tentativa de se tornarem uma marca atrativa, estão a tomar em conta este desejo de flexibilidade de forma crescente, incluindo-o nas suas práticas, negócios e cultura. Muitas pessoas estão a abraçar a flexibilidade para navegar o futuro do trabalho com sucesso de várias maneiras. Por exemplo, as carreiras portfólio (com vários trabalhos em part-time com diferentes empregadores e setores) estão a aumentar. Além disso, muitas pessoas veem o trabalho em regime freelancer como uma hipótese de carreira.

Quais as profissões ou áreas de conhecimento que terão maior desenvolvimento?

A tendência para reduzir a ação humana em processos repetitivos e de grande volume não vai parar e, por isso, funções que estejam dentro desta categoria continuarão a ser afetadas. De acordo com um estudo da McKinsey, cerca de 375 milhões de trabalhadores precisarão de mudar de funções até 2030 – o que representa 14% da força de trabalho global. Empresas e indivíduos de sucesso precisarão de evoluir, com a atualização e recapacitação a tornarem-se mais importantes do que nunca. Em muitos casos, a produtividade está a aumentar e tem um enorme potencial para amplificar tarefas centradas no ser humano que agregam valor. Vejo isso não como uma ameaça, mas como uma oportunidade para a criação de empregos.

O papel da educação vai ser diferente?

Para sobreviver no mundo de hoje, um só foco não é suficiente. A aprendizagem ao longo da vida é o novo imperativo, associado à inovação e flexibilidade. À medida que a natureza e a disponibilidade de trabalhos muda, a educação permanente vai ter um papel cada vez mais importante para fazer a ponte entre a procura de emprego e a disponibilidade de competências. Uma solução para simplificar a aprendizagem ao longo da carreira seria a criação de “contas de aprendizagem ao longo da vida” portáteis. Empregados e empresas suportariam essas contas, que o funcionário usaria para pagar pela aprendizagem, podendo levá-la consigo ao mudar de emprego.

Há alguns anos, havia quem previsse que hoje teríamos um horário de trabalho reduzido e mais tempo livre. Tal não se confirmou. É um cenário que admite para o futuro?

As pessoas vão sempre precisar e querer trabalhar, não imagino um dia em que o tempo livre impere. Não se trata de não haver – ou haver pouco – trabalho, mas de ter as competências certas para preencher as necessidades do momento. Foi o modo como as pessoas trabalham que evoluiu e a tecnologia está certamente a acelerar o ritmo da mudança. Ao longo da história, a automação do trabalho tem sido a norma mas hoje o fator decisivo é a velocidade. Tecnologia e tendências disruptoras estão a instalar-se a um ritmo extraordinário e a sociedade tem de se adaptar no que diz respeito à criação de empregos.

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