Altice. Depois da fúria de compras, uma “pausa” no apetite de Patrick Drahi?

Patrick Drahi, fundador da Altice
Patrick Drahi, fundador da Altice

A fúria de aquisições da Altice poderá estar prestes a fazer uma pausa, depois de a dona da PT Portugal ter fechado mais uma compra milionária nos EUA : 15,7 mil milhões de euros pela Cablevision. "Temos essa responsabilidade para com os nossos investidores, tanto do lado da dívida como do dos acionistas, de fazer uma pausa no ritmo de aquisições, em particular nas de grande envergadura", diz o CEO Dexter Goie, à Bloomberg.

Nos últimos dois anos o ritmo tem sido imparável, com o grupo fundado pelo milionário Patrick Drahi a acumular ativos pela Europa, como a Virgin Mobile e a SFR em França, a PT Portugal e, desde maio, nos EUA. Primeiro com a compra de 70% da Suddenlink e agora da Cablevision. Um bolo de mais de 50 mil milhões de euros, alimentados com a emissão de dívida.

Nos EUA, com a junção da Cablevision à Suddenlink, a Altice já é o quarto operador, com 4,6 milhões de clientes em 20 Estados. Mas ainda a tinta da assinatura do negócio não tinha secado e já Patrick Drahi admitia ver “novas oportunidades para consolidar” neste mercado. “Veremos se podemos comprar mais alguns operadores cabo antes de irmos atrás de um operador móvel”, disse na Communacopia, do Goldman Sachs. Drahi quer posicionar a Altice como o terceiro maior operador dos EUA, depois da Comcast e da Charter, de John Malone, que bateu o grupo francês na corrida à Time Warner Cable. Um negócio de mais de 49 mil milhões de euros que a Altice não conseguiu acompanhar. Drahi queria evitar “um crescimento bulímico” que arriscasse o “futuro da companhia”.

O tempo parece ser agora de pausa. “Seis a nove meses não é nada. Podemos fazer uma pausa por dois anos porque ainda temos um enorme crescimento orgânico interno”, diz Dexter Goie. “A única coisa que nos faria pensar seria se a Cox nos abordasse e dissesse: “Vou vender o meu negócio””, ressalva o CEO. Mas a Cox, quarta maior operadora nos EUA, já disse que não está à venda.

O calcanhar de Aquiles

Ao fazer uma pausa nas aquisições, a Altice pode ganhar tempo para controlar os custos e gerar cash para ajudar a pagar dívida no próximo ano. “Estamos na fase em que continuamos a acelerar o crescimento do nosso free cash flow e vimo-nos a desalanvacar de forma muito agressiva em 2016”, diz Goie.

A maior fragilidade da Altice está na dívida de mais de 30 mil milhões. Até junho gerou receitas de 6,78 mil milhões. “A onda de aquisições é financiada essencialmente através da emissão de corporate bonds”, refere Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. Mais de 80% do negócio com a Cablevision, por exemplo, foi assim financiado. “Existem naturalmente receios de que a dívida total da empresa esmague o negócio da companhia.” Após a compra da Cablevision, o preço das obrigações caiu cerca de 10%.

A Altice está a explorar o atual momento de “baixíssimos custos de financiamento para levantar dívida em seu nome ou das empresas que vai comprando, sendo que estas irão assegurar parte importante dos encargos financeiros”, diz Steven Santos, gestor do BiG. Ou seja, “conta com o músculo financeiro de cada empresa comprada para pagar os juros e reembolsar a dívida contraída”.

O risco está na subida dos juros, o que “elevaria os encargos financeiros e reduziria o capital disponível para investir na atividade ou concretizar novos negócios”, diz Steven Santos. E o risco pode estender-se aos compradores das obrigações. “Com a percentagem da dívida da empresa a subir, é natural que as agências de rating alterem a qualidade do emitente”, diz Pedro Ricardo Santos, da XTB. Mais, com a “previsível subida das taxas de juro nos EUA” – a Fed já disse que deverá acontecer ainda este ano – “o preço das obrigações desce, diminuindo o património dos seus detentores.”

“A Altice está pressionada para gerar resultados e extrair sinergias nos vários mercados onde adquiriu empresas”, diz Steven Santos. Cortar nos custos é a estratégia habitual. Na Cablevision apontam para um corte anual de 900 milhões de dólares. E Patrick Drahi já deu sinal de que os salários anuais acima de 300 mil dólares de mais de 300 gestores da Cablevision não são para continuar. “Iremos mudar isso”, disse o milionário que já afirmou gostar de pagar “o menos possível” em salários. E os analistas já antecipam negociações com os fornecedores.

Em Portugal foi a estratégia, com os fornecedores a serem confrontados um corte de 30%, confirma Vítor Rodrigues, presidente da ANETIE – Associação Nacional das Empresas de Tecnologias de Informação e Electrónica. Com 10% dos 150 associados a fornecer a PT, alguns tiveram pagamentos em atraso. A situação já foi reposta, mas ficou registado o estilo “aguerrido”. Sinal à navegação, de futuro “vão fazer mais compras internacionais e centralizadas, procurando as melhores condições. E tudo o que puderem comprar mais barato lá fora, não compram cá”, afirma.

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