Amazon vai gastar totalidade dos lucros na resposta à pandemia

O segundo trimestre pode trazer prejuízos por causa da luta contra a covid-19, o que levou o mercado a penalizar as ações da empresa

As palavras de Jeff Bezos na primeira apresentação de resultados depois do início da crise da covid-19 não deixaram margem para incertezas: esta não é altura de pressionar por lucros e dividendos. A Amazon, que tem tido um papel fundamental a suprir as necessidades de milhares de clientes fechados em casa por causa das ordens de confinamento, atravessa “o momento mais difícil” que alguma vez enfrentou. A posição da gigante revela-se paradigmática neste momento da economia.

Por um lado, as vendas aumentaram 26% em relação ao mesmo trimestre do ano passado, atingindo os 75,5 mil milhões de dólares. Por outro, os lucros desceram consideravelmente, caindo quase 30% para 2,5 mil milhões de dólares. No segundo trimestre, a gigante prevê aumentar os seus gastos e pode mesmo perder dinheiro. Foi o aviso que fez aos mercados e investidores.

“Providenciar para os clientes e proteger os empregados enquanto esta crise continua por mais meses vai exigir proficiência, humildade, invenção e dinheiro”, disse Bezos na carta aos acionistas, a quem a Amazon chama de “shareowners”, depois de elogiar os trabalhadores essenciais que estão a manter a sociedade à tona de água.

“Se você é um shareowner na Amazon, pode querer sentar-se, porque não estamos a pensar pequeno”, continuou. “Em circunstâncias normais, neste segundo trimestre esperaríamos fazer 4 mil milhões de dólares ou mais em lucros. Mas estas não são circunstâncias normais. Em vez disso, esperamos gastar a totalidade desses 4 mil milhões, e talvez um pouco mais, em despesas relacionadas com a covid a comprar produtos para os clientes e a manter os empregados seguros.”

É uma declaração estonteante para os acionistas: a Amazon vai gastar todos os seus lucros na resposta à pandemia. Os gastos “incluem investimentos em equipamento de proteção pessoal, limpeza das instalações, processos menos eficientes que permitem melhor distanciamento social, salários mais elevados para quem ganha à hora, e centenas de milhões a desenvolver a nossa própria capacidade de testes à covid-19.”

Referindo a “incerteza” que grassa no mundo, Bezos considerou que o melhor investimento que pode fazer é na “segurança e bem-estar” dos seus trabalhadores. “Estou confiante de que os nossos acionistas orientados para o longo-prazo vão entender e abraçar a nossa abordagem, e na verdade eles não esperam menos que isto de nós.”

A reação nas trocas fora de horas não foi bem essa. Assim que os resultados foram conhecidos e as declarações veiculadas, as ações da Amazon caíram quase 5%, depois de terem encerrado a sessão a valorizar 4,27%. Pela natureza do seu negócio, a gigante de Bezos é uma das que continuou a operar mais ou menos normalmente depois do início do confinamento, apesar de ter sido obrigada a dar prioridade aos bens essenciais e ter registado incapacidade de dar conta da procura por certos serviços na mesma janela temporal de sempre, como a entrega de mercearias no próprio dia. Também gerou controvérsia por causa dos salários dos funcionários dos armazéns e incidentes de contágio nalgumas instalações.

Com a contratação em massa a que procedeu nas últimas semanas e o aumento da compensação dos trabalhadores, as contas da Amazon tinham obrigatoriamente que sofrer. A reação negativa do mercado prende-se com isto, sobretudo com o intervalo em que os lucros operacionais do segundo trimestre vão oscilar: entre 1,5 mil milhões de dólares a uma perda de 1,5 mil milhões.

Sem fim à vista da crise, Bezos pede aos investidores que olhem para o longo prazo e para as tendências que a própria pandemia trará em benefício do seu negócio – mais pessoas a fazerem compras online, mais empresas a operarem a sua transformação digital e a procurarem os serviços da Amazon Web Services. A AWS, na verdade, foi um dos pontos fortes dos primeiros três meses do ano: as vendas subiram 33% para 10,2 mil milhões de dólares e o lucro operacional gerado cresceu 38% para 3 mil milhões.

“Das compras online à AWS ao Prime Video e Fire TV, a atual crise está a demonstrar a adaptabilidade e durabilidade do negócio da Amazon como nunca”, escreveu Bezos no início da carta aos acionistas. Não chegou a pedir-lhes paciência por essas palavras, mas foi a mensagem que deixou. Os próximos meses mostrarão até que ponto a ideia será aceite e compreendida.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de