A outra crise do turismo: a falta de trabalhadores

Há muito que o turismo tem falta de pessoas. A pandemia escondeu a debilidade durante alguns meses, mas o setor está preocupado. Subida de salários é uma resposta, mas não a única.

Ana Laranjeiro
Restauração, turismo e recursos humanos © Ilustração: Vítor Higgs

O problema não é de hoje, não nasceu com a pandemia e nem sequer é exclusivo do setor. O turismo está a braços com a falta de recursos humanos e há quem admita que esta vai ser a grande dor de cabeça já neste segundo semestre, com o verão e a tão esperada retoma. Mas antes de se chegar ao resultado desta equação é preciso conhecer os elementos que a compõem.

Em traços gerais, há três motivos que arrastaram o turismo para esta situação. O primeiro prende-se com questões demográficas e é mais ou menos transversal a várias áreas profissionais. Os outros dois são um pouco mais específicos. "Estamos a falar de três coisas. Uma é a questão demográfica - estamos a envelhecer e precisamos de pessoas. Outra é a da qualificação: o setor ainda tem recursos com baixas competências. Quando lançámos a Estratégia 2027, 60% das pessoas que trabalhavam no setor tinham o ensino básico. Agora, está um bocadinho melhor, estamos à volta de 54% a 55% com o ensino básico. A ideia é inverter a pirâmide: ter 60% com o ensino secundário ou profissional. A terceira questão tem que ver com a atratividade do setor, que é muito associado a salários baixos e a condições duras de trabalho", começa por explicar Luís Araújo, presidente do Turismo de Portugal.

Em 2019, o país viveu mais um ano de recordes no turismo e, já então, recorda Cristina Siza Vieira, a Associação da Hotelaria de Portugal (AHP) alertava para a necessidade de "captar mais formandos para as escolas de hotelaria, conseguir cativar para este setor, e para as dificuldades em encontrá-los". "Os apontamentos que fazíamos eram o envelhecimento demográfico e a emigração - que nos anos da crise se tinha acentuado brutalmente. Estava a formar-se já a tempestade perfeita... que eclodiu com a pandemia", diz a presidente da AHP.

Antes da covid, a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) apontava que necessidades do setor na casa das 40 mil pessoas. Mais recentemente, em novembro, a AHP estimou que só a hotelaria em Portugal precisaria de cerca de 15 mil. E os números do Conselho Mundial de Viagens e Turismo revelados em dezembro previam que Portugal precisava de 85 mil trabalhadores.

"Com a pandemia, contrariamente ao que seria expectável, a situação não melhorou, tendo até vindo a piorar. Para isso terá contribuído a transferência de muitos dos recursos que exerciam atividade nos nossos setores para outras carreiras - que aí permaneceram, fazendo com que os nossos empresários se deparem com um número muito reduzido de candidatos interessados. E os que surgem não têm perfis adequados às funções", aponta Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, recordando os números recentes do INE, que indicam que no terceiro trimestre do ano passado os setores de Alojamento, Restauração e Similares registaram um decréscimo de 35,7 mil pessoas face ao mesmo período de 2020.

Bomba-relógio
Há quase dois anos que o país enfrenta a pandemia e o turismo tem vivido estes tempos em pára-arranca. A quebra foi acentuada em 2020 e os dados existentes até ao momento, relativos a 2021, mostram que a atividade melhorou face ao primeiro ano da pandemia mas continuam longe de 2019. O setor deposita esperanças na retoma neste ano, a partir da Páscoa, em abril, e ganhando força até ao verão. Aí começa a dor de cabeça.

"Já havia dificuldade de captação e retenção, agravada pela circunstância especial de que, neste momento, a escassez é mesmo muito grande. Concluímos que, neste momento, não estamos preparados para responder a uma chamada grande, que sabemos que irá acontecer e que estamos a apontar para o segundo semestre de 2022, seguramente como um período fortíssimo de arranque, começando já antes, na Páscoa. Já começa a haver muito sinal, ainda não de reservas, mas de interesse, procura, pesquisa. A convicção que temos é que esta dificuldade de contratação vai trazer bastantes dificuldades na retoma", alerta Cristina Siza Vieira.

Apesar de ainda estarmos na chamada época baixa, as empresas vão em breve começar os preparativos para a época alta. Vai ser necessário encontrar soluções para o curto prazo, mas também de longo prazo. Salários e captação de trabalhadores lá fora são dois pontos que os três responsáveis apontam. Mas com algumas diferenças.

Remédio de curto prazo
A pandemia acabou por ditar um abre e fecha de estabelecimentos e, por isso, muitas empresas recorreram ao lay-off. Quando a procura deu sinais de ser mais sustentada, muitos voltaram às suas funções. Por outro lado, os contratos a prazo não foram renovados e grande número ficou no desemprego.

Lembrando que há necessidades na hotelaria, tanto para funções mais indiferenciadas como para cargos intermédios e altos, embora com níveis de escassez diferentes, a AHP admite que "terminando os subsídios de desemprego é natural que as pessoas ingressem no mercado de trabalho". Mas, se uns querem regressar ao turismo, outros podem querer mudar de área ou dar continuidade aos negócios que entretanto impulsionaram. "Mesmo admitindo que as pessoas que estão a receber subsídio de desemprego têm de ingressar no mercado de trabalho, há que competir com outros setores e portanto aponta-se para outro dilema que é como vamos distinguir-nos e captar estes trabalhadores? Uma parte relevante é salário. Sem dúvida, os salários têm de - e estão a - subir na hotelaria", assegura Cristina Siza Vieira.

Ana Jacinto refere que a AHRESP já apresentou propostas aos partidos em áreas como "qualificação e dignificação do emprego, nomeadamente com a criação de mecanismos/plataformas de apoio à contratação de recursos humanos; o incentivo à procura ativa de emprego; programas de formação de curta duração e campanhas de valorização e dignificação das profissões do turismo". Além disso, no campo da legislação laboral e contratação coletiva, defende "mecanismos de flexibilidade e adaptabilidade no funcionamento das empresas das atividades do turismo". E propõe "a diminuição dos custos que recaem sobre as nossas empresas, sobretudo fiscais e ao nível do emprego".

Cristina Siza Vieira acrescenta que, na hotelaria, outro caminho é "a flexibilidade das empresas na organização do tempo de trabalho", algo que, no entanto, traz desafios. "A hotelaria trabalha quando a maioria das pessoas está a descansar, e quem entra na hotelaria precisa de saber destas variáveis. Sabemos que há trabalhadores que não se importam; preferem ter jornadas mais condensadas. Há trabalhadores com perfis distintos até em razão da sua idade", diz, recordando que isto por vezes "choca" com questões de contratos coletivos de trabalho. Para Luís Araújo, não há resposta igual para todas as empresas. É preciso questionar "onde estão as pessoas que trabalhavam no setor e porque saíram". "É importante que cada empresa pense até onde pode ir, o que pode oferecer. Como é que conseguimos tornar mais atrativo o setor; e isto faz-se não traçando uma linha média mas vendo até onde podemos ir para atrair essas pessoas. E isso tem de ser feito empresa a empresa. Em alguns casos pode ser uma questão de salário, noutros de benefícios, noutros ainda de planos de carreira ou visão de futuro".

As grandes cadeias hoteleiras em Portugal têm esses elementos em consideração, contando o pacote remuneratório com mais elementos além do salário. Seguros de saúde e possibilidade de passar férias nas unidades do grupo são algumas componentes oferecidas. Ainda nesta semana, o Pestana, o maior grupo nacional, anunciou que fixou o valor mínimo de entrada dos funcionários no grupo em 750 euros brutos mensais desde 1 de janeiro. A que se soma seguro de saúde, subsídio de alimentação, desconto em todos os hotéis e pousadas do grupo para colaboradores e famílias, formação e programas de mobilidade nacional e internacional.

Imigração
Luís Araújo defende que a resposta a esta debilidade passa inevitavelmente pela aposta na formação. "Quanto mais existe, mais o valor da pessoa cresce para o setor e a empresa. A formação é essencial até para mudar o mindset de progressão de carreira, valorização, de salários mais altos e benefícios maiores", diz. Além disso, há que olhar a componente remuneratória.

Mas com uma população a envelhecer, a captação de recursos humanos lá fora é uma necessidade, admitem todos. Além de apostar na natalidade, o que só pode ser feito com políticas nacionais, Luís Araújo, aponta que "a solução é trazer pessoas de fora. De outros setores mas também de fora internacionalmente. Quando falámos de trazer pessoas de fora não podemos dizer só que queremos trazer pessoas para exercer funções mais técnicas, mas também que queremos trazer pessoas que trabalham no setor e venham exercer funções a um nível superior. Quando colocamos a questão de trazer pessoas de fora pode ser de qualquer país, incluindo de dentro da Europa. Isso é um ponto importante e há alguns sinais positivos. O acordo que foi feito com os CPLP é extremamente positivo, tem de ser implementado mas pode ser um bom apoio para o setor", diz o presidente do TP.

Cristina Siza Vieira lembra que a AHP já tem apontado a captação de trabalhadores estrangeiros, em particular da CPLP. Explica que "a intenção de ir recrutar tem que ver com a língua, a similitude cultural, o facto de haver escolas de hotelaria e turismo - caso de Cabo Verde - completamente modeladas sobre as escolas nacionais, quer no programa quer até fisicamente, na estrutura. E há 14% ou 15% de taxa de desemprego em Cabo Verde". E assegura que não se trata de captar estes trabalhadores para pagar menos. "Se vamos recrutar estrangeiros temos de os remunerar, aliás, muitas vezes mais, sobretudo nos de topo, nunca podemos estar aquém do que de pratica quer nas categorias profissionais convencionadas nos contratos coletivos de trabalho quer na própria empresa. Esta coisa dos salários baixos é um absurdo".

Ana Jacinto partilha da opinião de recrutar lá fora, mas alerta que deve haver "responsabilidade". "Esta imigração deve ser devidamente organizada e acompanhada de condições dignas de trabalho. A intenção de recorrer à mão-de-obra estrangeira não tem como finalidade pagar menos, mas encontrar pessoas disponíveis para exercer atividade nos nossos setores. Um estrangeiro tem os mesmos direitos e goza das mesmas garantias que os trabalhadores nacionais e na retribuição não é diferente", remata.

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