CP poupa 110 milhões com recuperação de comboios

Em ano e meio, foram recuperadas 67 unidades com 95% de incorporação nacional. Primeiras carruagens Arco, compradas a Espanha, começam a circular em setembro.

Diogo Ferreira Nunes
O primeiro-ministro, António Costa, durante a cerimónia de apresentação das novas carruagens Arco, em Guifões. © ESTELA SILVA/LUSA

A CP já poupou 110 milhões de euros com a recuperação de comboios que estiveram encostados durante quase duas décadas. Em ano e meio, a transportadora ferroviária já deu nova vida a um total de 67 unidades, motivo de reconhecimento para o primeiro-ministro e o ministro das Infraestruturas, que visitaram na sexta-feira a oficina de Guifões, Matosinhos, a propósito da inauguração das três primeiras carruagens Arco.

As carruagens pertencem ao lote de 50 unidades que a CP comprou no ano passado por 1,5 milhões de euros à congénere espanhola Renfe. As primeiras três composições vão começar a circular no final de setembro na linha do Minho, no serviço interregional Porto-Valença e entre Valença e Figueira da Foz.

Além disso, a empresa já recuperou 14 locomotivas, sete automotoras (seis das quais com quatro unidades), 18 carruagens de via larga e outras seis de via estreita.

Os trabalhos custaram pouco mais de 10 milhões de euros e permitiram 95% de incorporação nacional. Empresas portuguesas fabricaram bancos, cortinas, estofos, pinturas, conversores eletrónicos e componentes mecânicos. Ou seja, segundo António Costa, "95% do que transformou aquilo que os espanhóis consideraram sucata nestas novas carruagens foi produzido em Portugal".

As oficinas de Guifões, reabertas no início do ano passado, lideraram o processo de recuperação de material circulante, em conjunto com as instalações de Contumil, Entroncamento e Barreiro.

Se o material circulante tivesse sido comprado como novo, teria custado 120 milhões de euros e o país teria de aguardar pelo menos quatro ou cinco anos entre a encomenda e a entrada em circulação. Graças ao esforço, a CP "tornou-se numa verdadeira locomotiva de um importante setor económico do nosso país", acrescentou o primeiro-ministro.

A recuperação da capacidade oficinas da CP, graças à fusão com a EMEF, no final de 2019, também permite iniciar a devolução, a partir de setembro, de automotoras a diesel alugadas a Espanha. Anualmente, serão poupados 2,5 milhões de euros.

Além das carruagens Arco, a transportadora recuperou material circulante para a linha do Douro - carruagens Schindler e locomotivas diesel - , automotoras elétricas para o serviço suburbano de Sintra e Azambuja e ainda carruagens de via estreita para o comboio histórico do Vouga.

Apenas em 2026 começarão a chegar os primeiros dos 117 novos comboios que a CP irá encomendar para ampliar e renovar a frota no serviço urbano e regional. "Comprar um comboio novo não é como ir a um concessionário de automóveis", lembrou ontem o ministro Pedro Nuno Santos.

Parte dos comboios poderá ser construída a partir de Portugal, porque o concurso público internacional irá valorizar os candidatos que apostarem mais na incorporação nacional.

<strong>Novas carruagens</strong>

As primeiras composições compradas a Espanha foram ontem apresentadas oficialmente e não têm amianto, removido pela empresa pública ferroviária antes do início do processo de recuperação.

No interior, a CP incorporou o novo sistema de informação ao passageiro; além da indicação das paragens, o sistema pode fornecer dados como a temperatura externa, o tempo de viagem e a ocupação das casas de banho. Haverá ainda espaço para promover conteúdos publicitários da própria CP ou de outras empresas.

Das três carruagens já prontas, uma delas conta com uma máquina de venda de bebida e comida além de oito suportes para transporte de bicicletas, já a pensar nos viajantes dos Caminhos de Santiago.

Nas outras duas, saltam à vista as entradas USB em cada assento, para carregar telemóveis e outros dispositivos. A CP também garante que vai instalar um novo sistema de internet sem fios. As carruagens Arco terão velocidade máxima de 200 km/h.

Até ao final do ano, espera-se que pelo menos nove carruagens Arco sejam postas em circulação. A chegada aos carris estava inicialmente prevista para o primeiro trimestre deste ano, mas foi atrasada por questões burocráticas.

Desde novembro do ano passado que a homologação de novo material circulante é centralizada num único balcão europeu - ao abrigo das regras comunitárias - em vez de estar sob alçada das autoridades nacionais. A alteração implica que a empresa envie mais documentos para obter autorização.

No longo prazo, a CP necessita de reestruturar a dívida histórica, de 2,1 mil milhões de euros, e que impede a empresa de comprar material circulante com financiamento próprio.

Apenas com a empresa limpa de passivo, a transportadora poderá adquirir 12 automotoras para o serviço de longo curso e preparar-se para as viagens na nova linha que irá colocar Porto e Lisboa a uma hora e 15 minutos. O corte da dívida também permitirá à CP concorrer em igualdade com as novas empresas ferroviárias de capital privado.

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