Empresas portuguesas devem arriscar em tempos crise

Conferência "Brand Development in Unstable Times", pretende ajudar os empresários a ultrapassar a atual conjuntura económica e enfrentarem o medo da perda de volume dos seus negócios. Senior Partner da consultora Simon Kucher aconselha as empresas a acompanharem os novos paradigmas do mercado.

Mónica Costa
Marcas de luxo têm de arriscar e atrair consumidores © Pedro Granadeiro / Global Imagens

As empresas têm de ser corajosas e arriscar, em tempos de crise e de aumento de inflação. A afirmação é de Nelson Neves, senior partner da consultora alemã, Simon Kucher, que esta quinta-feira participou na conferência "Brand Development in Unstable Times".

A iniciativa, que decorreu nas instalações da Universidade Nova SBE, em Carcavelos, foi levada a cabo em parceria com a Laurel Associação Portuguesa de Marcas de Excelência). A intenção da conferência foi precisamente tranquilizar os responsáveis das marcas de luxo e conseguir mais conhecimento para ultrapassar a atual conjuntura, explicou ao Dinheiro Vivo, Jorge Van Zeller Leitão, presidente da Laurel.

"Para sossegar é preciso trazer pessoas que têm o conhecimento focado, numa altura em que se preveem dificuldades no mercado das marcas de luxo europeias (que é um muito importante na Europa e que vale cerca de 5% do PIB europeu)", ressalvou.

"Espero que esta conferência traga uma consolidação dos horizontes, consiga retirar o medo, porque há medo nesta altura e não tem de haver. As coisas vão acabar por correr bem e vamos acabar por ficar melhor. Na generalidade, embora no particular talvez não", considerou o presidente da Laurel, frisando que é preciso saber viver com o aumento da inflação.

Declaração secundada por Nelson Neves. "Esquecemo-nos o que era inflação. Há 20 anos que não temos inflação e esquecemo-nos como lidar com isso. Há países no mundo - na América Latina, por exemplo - que vivem com inflação. E não têm qualquer ansiedade em relação a isso", relativizou este senior partner da Simon Kucher.

Apesar de perceber que a "carteira do português provavelmente decresceu", Nelson Neves também vê o lado das empresas, em especial aquelas que estão integradas num mercado de excelência. "Entendo que em Portugal temos de combater a inflação com pinças, mas veja-se a questão dos preços psicológicos, por exemplo. É importante não incrementar preços apenas pelo acréscimo de custos, mas também adicionar valor ao produto para o poder justificar", orientou. Ou seja, a subida dos custos não são culpa do consumidor, mas este é quem acaba por sentir os seus efeitos. Para combater essa noção é preciso trabalhar na perceção de valor, ou seja, a empresa apenas pode apresentar o aumento de certos preços, através da atribuição de mais valor do produto.

"Tentar adicionar valor marginal ao produto de forma que o consumidor veja que este já não é igual, mas antes diferente e melhor", explica. Ou seja, ao atribuir um valor psicológico diferente a um artigo, vai conseguir melhorar a perceção que o consumidor tem do produto para "concordar" em pagar mais.

E, sustentou. "As empresas têm de ser corajosas. Têm de deixar de ter medo da perda de volume. Estamos numa conjuntura em que a maioria das empresas, a nível nacional, aumentou preços. As elasticidades que vinham a ser muito acauteladas até agora, não são válidas, porque como todo o mercado subiu, a expetativa do consumidor também mudou. O consumidor sabe e quase está à espera de um aumento de preço. Assim, sugiro às empresas portugueses que sejam corajosas, para não confiarem nos paradigmas antigos porque estamos numa nova realidade. E arriscarem".

Nelson Neves recordou também que é importante que em Portugal se comece a valorizar cada vez mais o que se produz em território nacional. "Internamente, ainda continuamos a dar pouco valor ao que é nosso. Para mudar esse paradigma é trabalhar na perceção de valor, portanto na comunicação. Nós já temos produtos bons, serviços bons, temos tudo o que é necessário para ter sucesso. Mas não comunicamos", frisou, remetendo para a realidade italiana, onde "Made in Italy" é trabalhado e comunicado há mais de 80 anos.

"Temos de perceber o que queremos que o país comunique, qual é o nosso nicho, qual a nossa maneira de ser e a partir daí vai existir um valor intrínseco do que é feito em Portugal".

E para aquelas empresas que garantem a sua sustentabilidade a dos seus produtos, o partner da Simon Kucher, alerta. "Não basta dizer que somos sustentáveis, é necessário ter a prova através de indicadores, de iniciativas. A sustentabilidade é um fator de higiene, ou seja, todas as empresas têm de tentar ser sustentáveis se querem existir". Esta não é uma questão de "eu sou sustentável, posso cobrar mais", é antes, "se eu não tenho certos parâmetros de sustentabilidade, posso não existir no futuro".

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