Estrangeiros esgotam hotéis de luxo pagos a preços recorde

Os turistas internacionais com maior poder de compra estão a piscar o olho ao Douro, à Comporta, ao Algarve e à Madeira. Com preços altos e ocupação total, os hotéis mais caros já têm reservas até ao inverno. O regresso dos americanos e dos brasileiros tem ajudado a compor as contas.

Rute Simão
 © Ilustração: Vítor Higgs

Preços por noite que podem chegar aos dois mil euros, datas esgotadas e parte do inverno já reservada. Em poucas palavras, este é o cenário atual dos hotéis mais caros do país que estão de casa cheia à boleia do regresso dos mercados internacionais como o Reino Unido, a Alemanha, a França ou os Estados Unidos. A retoma dos turistas brasileiros tem ajudado também aos bons números. Há hotéis que assumem aumentos de preços superiores a 50%, face a 2019.

E o dinheiro não tem sido problema para os turistas que estão dispostos a gastar, a avaliar pela oferta disponível para os próximos meses nas unidades mais exclusivas do país, que até ao início de outubro têm já poucos quartos para vender. O segmento de luxo, conhecido por ser tradicionalmente um dos mais rápidos a recuperar depois de períodos de crise, tem beneficiado dos bons ventos e dos turistas que chegam ao país de carteiras recheadas.

"O forte aumento dos preços deve-se à robustez da procura. Previsto por alguns na pandemia, é o revenge travel, comum à classe média e alta e assenta num forte desejo de viajar após dois anos de impossibilidade. A sensibilidade ao preço diminui fortemente e a conjugação com elevados volumes de procura permitiu a companhias aéreas, hotelaria e demais serviços relacionados com o turismo aumentar significativamente as tarifas", analisam os partners da Neoturis, Eduardo Abreu e Luís Pedro Carmo Costa.

Especializada em hotelaria de luxo, a ABC Sustainable Luxury Hospitality, concorda que a procura está a dar gás ao aumento dos preços, consequência do trabalho de promoção realizada pelo país nos últimos anos em mercados internacionais. E os frutos estão agora a ser colhidos. "O segmento de luxo está a recuperar mais facilmente. Os mercados com muito poder de compra e habituados à qualidade estão a escolher Portugal como o seu destino de férias, de residência e trabalho", acrescenta a CEO da consultora, Ana Beatriz.

Mas afinal, qual é o luxo procurado em Portugal? "O luxo de hoje é simplicidade, leveza, serviço, bem-estar, empatia, desconectar, conhecer e viver as tradições e culturas locais, conviver com a comunidade, é a partilha de riqueza, autenticidade, é a felicidade dos colaboradores e dos hóspedes", define Ana Beatriz.

Hotéis cheios
As tendências são confirmadas por vários dos hotéis mais caros do país. A Norte, o Six Senses Douro Valley, em Lamego, tem uma oferta de nove quartos e suites e duas vilas com piscina. O mês de setembro e a primeira semana de outubro estão já praticamente esgotados. Duas noites numa suite, a reserva mínima exigida, podem custar mais de quatro mil euros, de acordo com os valores apurados pelo Dinheiro Vivo através das plataformas de reserva online.

A unidade admite que os resultados da operação estão já acima de 2019. "Até meados de outubro, o hotel já se encontra com ocupação acima de 80%, com várias datas condicionadas. Temos também algumas datas com eventos privados, como casamentos, que obrigam à privatização do hotel", explica o diretor-geral André Buldini. O responsável adianta que o preço da taxa média subiu 65% em comparação com o pré-pandemia.

Em Vila Nova de Gaia, o The Yeatman é uma ode aos vinhos do Porto e destacam-se a vista privilegiada para a Invicta e o restaurante de duas estrelas Michelin. O cinco estrelas, que tem tarifas médias a partir dos 500 euros por noite, tem registado ocupação máxima nos meses de verão, com datas esgotadas até outubro.

"Consideramos que a procura no Porto está, de uma forma transversal, elevada e não apenas no segmento de luxo, muito devido à oferta generalizada e pela dinâmica da própria cidade, que há muito que vem a crescer enquanto importante pólo de atração turística global", indica o diretor-geral Jan-Erik Ringertz.

Já em terras do Alentejo, há vários anos que a Comporta se tem posicionado como destino de luxo e atraído investidores e turistas internacionais. No Quinta da Comporta Wellness Boutique Resort, o mercado nacional tem uma expressão de apenas 8% nas reservas, sendo que os principais clientes vêm de França, da Alemanha, dos Estados Unidos e do Brasil. O hotel soma ocupações de 100% e, por exemplo, uma reserva para a próxima segunda-feira, dia 8, apresenta tarifas a partir dos 900 euros, segundo a oferta disponível online.

"A Quinta da Comporta abriu as suas portas em 2019, e desde então, temos tido um aumento significativo acima dos dois dígitos anualmente. A justificação reside num produto único em termos de sustentabilidade, localização e espaço, uma vez que inspira segurança. Os produtos de luxo adaptaram-se bem e têm, historicamente, uma maior capacidade de adaptação face aos hotéis mais clássicos", analisa o diretor da unidade, Mário Morais.

A sul do país, os hoteleiros do Algarve também não têm tido mãos a medir. No Pine Cliffs Resort, em Albufeira, o panorama é idêntico com "elevada procura, pouquíssima disponibilidade de inventário para agosto e bastantes grupos já marcados para setembro", enumera o hotel. Também aqui são os estrangeiros do Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos que ditam a procura, com o mercado nacional a representar uma fatia de apenas 12%.

Com preços a partir dos 600 euros, as expectativas para os próximos meses são otimistas. "As perspetivas continuam a ser muito promissoras, mesmo para o inverno. Em setembro, por exemplo, verificamos um grande volume de reservas de grupos e eventos. No inverno, a época de Ano Novo é tipicamente forte", avança o diretor de operações, Rui Brito.

Em Porches, o Vila Vita Parc Resort & Spa confirma a retoma da atividade em força e explica as novas tendências. "Os clientes procuram mais privacidade, experiências únicas e memoráveis. Como não conseguiram viajar durante quase dois anos, há uma procura grande por quartos mais espaçosos ou suites e, por isso, mais caros, com melhores vistas e localização", enquadra a diretora executiva de vendas e marketing, Katya Bauval.

Inflação também pesa
Na Madeira, o Belmond Reid's Palace valida a maior procura por suites e quartos de categoria superior com valores mais elevados. Neste hotel do Funchal, uma suite pode custar 3800 euros e um quarto standard à volta dos 900 euros. "O cliente tornou-se mais exigente após a pandemia e espera um serviço acima dos padrões normais. São esses padrões que transmitem a confiança tão necessária nesta fase e que são determinantes na escolha final entre o turismo de luxo e o turismo tradicional", assegura o responsável do cinco estrelas, Ciriaco Campus.

No grupo vizinho, Savoy Signature, dono do Savoy Palace, as contas vão bem e recomendam-se com taxas de ocupação a chegar aos 100% e os preços a subir 20%, à boleia do aumento da procura. Mas, na hora de olhar para os números, importa não esquecer o peso da inflação nas matérias-primas.

"No final do primeiro trimestre de 2022, registámos um agravamento da situação com aumentos generalizados nas comidas na ordem dos 25% e das bebidas na ordem dos 15%. No que concerne aos produtos e matérias-primas premium, os valores inflacionaram entre 40% e 50%. Face à conjuntura, para o próximo inverno e verão 2023, o impacto da inflação teve de ser refletido no aumento de cerca de 20% nas tarifas propostas aos nossos parceiros comerciais", detalha a Savoy Signature.

Os partners da Neoturis, Eduardo Abreu e Luís Pedro Carmo Costa, explicam que, apesar do aumento da procura que se refletiu na subida dos preços, as margens de lucro podem não ser assim tão beneficiadas. "Este será um setor no qual não se pode falar dos "lucros excessivos", tão em voga. O forte aumento dos custos salariais a que se junta o aumento significativo dos custos energéticos e de outros bens não permite aumentar os resultados de forma tão expressiva", alertam.


Futuro do luxo é promissor mas há trabalho a fazer
O futuro no segmento de luxo é promissor e o país tem capacidade para continuar a aliciar os turistas que estão dispostos a gastar mais dinheiro. "Portugal, desde que mantenha as rotas aéreas com o Brasil e com os Estados Unidos, tem todas as condições para continuar a captar este segmento", afirmam os especialistas da Neoturis, que defendem que, no próximo ano, a retoma dos mercados asiáticos terá impactos positivos na hotelaria mais cara.

Ainda assim, trabalhar esse segmento carece de outros fatores. "Para elevar o nível do turismo no país não basta ter hotéis de luxo ou restaurantes com estrelas Michelin - mas ajuda. Querer visitar o Mosteiro dos Jerónimos e ficar numa fila de uma hora sem possibilidade de comprar o bilhete online estraga esta experiência de luxo", acrescentam os analistas.

Os empresários hoteleiros concordam que há ainda um longo trabalho a fazer, nomeadamente a nível de infraestruturas e ligações aéreas, principalmente em regiões como o Algarve. "Há coisas que têm de evoluir em algumas infraestruturas, principalmente a nível de ofertas: mais e melhores conexões aéreas e comboios, tem de haver uma oferta superior de serviços, por exemplo, mais carros de aluguer topo de gama, aluguer de helicópteros, lojas de marcas high end, como existe noutros destinos, como no sul de França, em Ibiza, Córsega ou Marbella", adianta a porta-voz do algarvio Vila Vita.

"As estratégias que poderiam exponenciar mais este segmento deveriam passar pelo ordenamento do território e das infraestruturas, bem como pela qualificação de recursos humanos e técnicos", acrescenta o diretor do The Yeatman.

O responsável da Quinta da Comporta defende que "Portugal tem todas as condições para se afirmar como um destino de luxo único" e aponta o dedo à "massificação". " Não nos beneficia de forma alguma em
relação a outros destinos. Menos é mais e o desafio será aumentar as receitas por visitante", sugere Mário Morais.

A ABC Sustainable Luxury Hospitality concorda. "Há quem diga que somos um país pequeno, eu defendo que somos exclusivos e únicos. O crescimento desenfreado não nos leva a lado nenhum e temos provas disso, com destinos turísticos caducos que procuram à pressa reinventar-se de forma pouco verdadeira", exemplifica Ana Beatriz.

André Buldini, diretor geral do Six Senses Douro Valley, alinha pelo mesmo diapasão, defendendo que "Portugal tem tudo para ser um destino de luxo" a avaliar pelas várias características que valorizam o país como "uma diversidade de oferta enorme, com natureza preservada em muitos locais, um capital humano enorme de simpatia e orgulho em ser prestável". Mas há desafios a resolver, defende.

"A construção desenfreada, o desrespeito pela capacidade das infraestruturas existentes tais como estradas e hospitais, a burocracia na obtenção de autorizações e a dificuldade em obter mão-de-obra qualificada poderão ser fortes impedimentos neste caminho que consideramos ser o caminho certo a percorrer", diz o profissional que apela à criação de condições para que "a iniciativa privada possa ser agilizada e possam ser seduzidos os parceiros internacionais ideais" de forma a haver uma maior aposta no segmento de luxo no país.

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