Falta de chips trava recuperação da produção de automóveis

Fábricas nacionais conseguem terceiro melhor ano de sempre mas ainda ficaram a mais de 55 mil unidades do recorde de 2019. Autoeuropa foi a principal locomotiva da recuperação apesar das várias paragens ao longo do ano.

Diogo Ferreira Nunes
Setubal-20/02/2020 - Visita do Ministro da Economia, Pedro Siza Vieira, ˆ f‡brica da Autoeuropa. (PAULO SPRANGER/Global Imagens) © Paulo Spranger /Global Imagens

Quando 2021 começou, a indústria esperava que a produção de automóveis ficasse perto dos números de 2019, dos tempos de pré-pandemia. A falta de semicondutores ao longo do ano passado, no entanto, gorou todas as expectativas e apenas permitiu uma tímida recuperação. Das linhas de montagem saíram 289 954 unidades em 2021.

O número ficou 9,7% acima dos registos de 2020 (264 236 veículos), segundo a Associação Automóvel de Portugal (ACAP). Na comparação com 2019, contudo, as fábricas nacionais ficaram a 55 734 automóveis de distância: são menos 16,1% face ao recorde de produção.

O ano passado, mesmo assim, foi o terceiro melhor ano de sempre para a indústria automóvel nacional, apenas atrás de 2019 (345 688 unidades) e de 2018 (294 366 veículos).

A Autoeuropa foi a principal locomotiva das linhas de montagem, representando 72,7% da produção automóvel no ano passado. Na unidade de Palmela foram fabricadas 210 754 unidades, mais 9,8% do que em 2020. No complexo do T-Roc, 2021 foi também o terceiro melhor ano de sempre.

Os últimos 12 meses voltaram a ser marcados por sucessivas paragens ou redução de turnos: entre 25 de janeiro e 5 de fevereiro, só houve laboração nos dias úteis por causa do coronavírus e de nova suspensão das aulas.

A partir do final de março, sucederam-se os problemas por falta de semicondutores: entre 22 e 28 desse mês, as portas estiveram fechadas. A situação repetiu-se por mais nove dias consecutivos em junho e no primeiro fim de semana de julho.

Em agosto, a produção parou todo o mês em vez de três semanas e a linha de montagem só foi retomada em 6 de setembro. Nesse mês, houve ainda duas paragens, que duraram até ao início de outubro.

A indústria automóvel tem sido uma das mais afetadas pela falta de semicondutores, componentes que são, em grande parte, fornecidos por diversos fabricantes asiáticos, que mantiveram algumas medidas de confinamento devido à covid-19.

Mais acima, em Mangualde, 2021 não foi muito melhor para a unidade da Stellantis. A aliança que junta os grupos automóveis PSA e Fiat Chrysler aumentou a produção em 4,9% no ano passado, para 67 838 unidades.

Ainda assim, foi o segundo melhor ano de sempre para a fábrica portuguesa da aliança liderada por Carlos Tavares. Os veículos ligeiros de mercadorias das marcas Peugeot e Citroën representaram mais de 90% da produção da fábrica do distrito de Viseu, de onde também saem carrinhas da insígnia Opel.

A unidade do distrito de Viseu também não escapou aos problemas com falta de chips: por exemplo, a paragem de agosto estendeu-se por todo esse mês, apenas retomando a laboração no início de setembro.

Também as fábricas mais dedicadas a nichos de mercado sofrem com a falta de semicondutores.

No Tramagal, a unidade da Mitsubishi Fuso - controlada pela Daimler Trucks - enfrentou a escassez de componentes para a Mitsubishi Canter durante o mês de setembro. Apesar do obstáculo, a fábrica conseguiu o segundo melhor ano de sempre a nível da produção, com 9392 unidades, mais 55,2% em comparação com 2020.

No último ano, contudo, a Fuso não montou qualquer veículo para exportação, ao contrário do que aconteceu em anos anteriores, segundo os dados da ACAP.

Em Ovar, a unidade da Salvador Caetano conseguiu produzir 1947 unidades, mais 32,9% face a 2020. Mas a falta de semicondutores impediu responder ao aumento de encomendas para a série especial do Toyota Land Cruiser, que tem como destino o mercado da África do Sul. A fábrica da Toyota Caetano, à conta disso, ficou abaixo do recorde de 2393 unidades, datado de 2019.

Ainda no universo da Caetano, nota para os 23 autocarros produzidos em 2021, menos 62,3% do que em 2020. A pandemia travou as encomendas de autocarros para o mercado internacional e obrigou a reduzir a atividade na unidade de Vila Nova de Gaia. Além da produção, a CaetanoBus também procedeu à montagem de um total de 186 autocarros.

<strong>Exportações pesam menos</strong>

Num ano em que os custos logísticos dispararam, 97,4% dos automóveis fabricados em Portugal tiveram como destino o mercado internacional, dos quais 88,6% foram parar ao continente europeu.

Alemanha (18,2%), França (14,8%), Espanha (12,8%) e Itália (11,6%) foram os quatro principais destinos das exportações nacionais em 2021. Nota ainda para os 7,2% do mercado do Reino Unido, que foi o quinto país com mais veículos enviados por Portugal no último ano.

Ainda assim, o peso do mercado interno aumentou no ano passado, com uma subida de meio ponto percentual, de 2,1% para 2,6%.

(Notícia atualizada às 16h04 de 19/01/2022 com indicação do número de unidades montadas pela CaetanoBus em 2021)

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