Fortunato Frederico: "As lojas em shoppings são todas para fechar mesmo que o negócio melhore"

O empresário não poupa críticas aos contratos "abusivos" dos centros comerciais e quer acabar com eles. Mas, ao mesmo tempo, está já a preparar novas aberturas.

Ilídia Pinto

Os setores da moda foram dos mais atingidos pela pandemia e o calçado não é exceção. Até porque a tendência de descida nas vendas internacionais já vinha de trás.

A pandemia tem sido difícil para as empresas, como foi 2020 para a Kyaia?
A pandemia tem sido um prato muito indigesto, mas é o que é e continuamos a luta para vencer. Arrancámos 2020 já com perspetivas de abaixamento da atividade, que já vinha abrandando nos últimos anos, mas, com a pandemia, sofremos na pele e fechámos com uma quebra da ordem dos 30%.

Foi transversal a todos os negócios?
Sim, com exceção de As Portuguesas , é o único projeto que está a crescer. Pela primeira vez, ultrapassámos um milhão de euros e as perspetivas para este ano são de um grande crescimento também. De resto, a quebra é transversal às várias marcas e mercados. Mas não é novidade, no calçado há sinais claros de crise desde 2017, com um decréscimo de vendas internacionais.

Por causa das dificuldades no retalho especializado?
Nós tínhamos 1400 ou 1500 clientes espalhados por todo o mundo, mas, a partir de 2017, começámos a deparar-nos com um movimento internacional de desistências, lojistas a fechar, alguns com dificuldade em cumprir com as suas obrigações. Foi quando pensámos no online como escapatória e investimos na Overcube.

Overcube que, três anos depois e mais de quatro milhões investidos, está a ser reestruturada. Foi demasiado ambicioso no arranque do projeto?
Já fiz esse exame de consciência e cheguei à conclusão que sim, que fui. E não é vergonha nenhuma reconhecermos as precipitações que temos na vida. Mas isso não quer dizer que desistamos. É um projeto para continuar e temos a convicção de que, dentro de dois anos, a Overcube estará no equilíbrio que pretendemos para depois começar a crescer novamente.

A revolução digital está a ser mais lenta do que esperava?
O que me resta de consolação é que não podemos ser conhecidos na praça se não deitarmos foguetes. Eu confesso que houve alguma inocência da minha parte, porque achei que o digital resolvia tudo, cheguei à conclusão que não resolve tudo, mas resolve muitas coisas. A Overcube resolveu-nos alguns problemas de raiz, que seriam muito difíceis de resolver sem esta plataforma. Além de que ganhamos notoriedade e fizemos chegar os sapatos portugueses a todo o mundo.

A que problemas se refere?
O stock Kyaia, que tínhamos e que era um peso morto, porque entrámos numa fase em que qualquer cliente devolvia porque não tinha dinheiro para pagar, ou porque ia fechar a loja, ou fosse o que fosse, e nós tínhamos aí problemas graves. Não foi para isso que criei a Overcube, mas calhou mesmo bem. Resolveu esse problema e eu também valorizo isso. Claro que foi muito dinheiro que investimos ali, era um sorvedouro e não não temos nenhuma mina, tudo o que fazemos é com dinheiro nosso, foi preciso cortar custos e reestruturar.

E a Foreva, como está?
A Foreva caiu mais ainda. É um projeto que temos vindo a reestruturar, desde que o comprámos, em 2005. Eram 80 lojas, mas muitas só davam prejuízo. Aguentámos o que pudémos, nomeadamente no período difícil da crise financeira e da troika, e, depois, começámos a encerrar as que davam prejuízo.

Sim, em 2019, já só tinham 35 lojas. E agora?
Temos cerca de 20, estamos agora nos acertos finais. Mas já estamos a negociar uma nova abertura. Se se concretizarem as negociações que estamos a ter, vamos abrir a primeira loja pós-pandemia, já sem os contratos abusivos que os shoppings impunham e continuam a querer impor. Aliás, já avisámos que essas são todas para fechar e para substituir por outras com contratos mais justos e equitativos.

Quantas vão fechar mais?
Vamos fechar mais seis ou sete. Estive anos a sofrer prejuízos sem poder fechar as lojas porque ameaçavam executar as garantias bancárias. Não concebo um contrato que não defende, da mesma forma, os direitos do inquilino e do senhorio, e, por isso, mesmo que o negócio melhore, são para fechar. É uma questão de princípio. Deixámos iniciar novos contratos, depois da crise de 2010, com a ideia de que o mercado estava a recuperar, agora estamos presos até 2023 ou 2024, mas desta vez é mesmo para acabar.

Refere-se aos shoppings da Sonae?
E não só. A Sonae foi a mais difícil de convencer, mas é um problema transversal a todos os centros comerciais. A loja de Loulé foi a única onde foram sensíveis ao nosso apelo. Já nas lojas de rua, renovámos alguns contratos. E fechámos outras. Com a crise, nem as lojas eram todas precisas nem as rendas eram todas iguais. Por exemplo, vamos fechar a loja da Fly London no Jardim das Oliveiras, no Porto, e vamos transformar a que temos nos Clérigos numa loja Overcube, que, além de fazer publicidade à plataforma, será um espaço multimarca para vendermos todos os produtos que temos. É preciso economizar, o dinheiro não nasce nas árvores.

Em 2014, previa investir um milhão de euros ao ano para duplicar as vendas e chegar a 2024 com 100 milhões. Há novo prazo para essa meta?
As condições de mercado alteraram-se significativamente, o que nos levou a adiar os investimentos. A meta já não é exequível e, perante o contexto da pandemia, não conseguimos ainda prever quando podemos retomar o investimento e o crescimento exponencial.

E perspetivas para 2021?
Acreditamos que já não será tão mau como 2020, mas não sabemos se a seguir a setembro vem outro confinamento. Isto é tudo tão injusto que temos os centros comerciais a pedirem-nos que apresentemos um plano de pagamento da dívida, referente às rendas atrasadas, mas quando pedimos um plano de aberturas das lojas, dizem que não se podem comprometer. É uma selva. Acreditamos que 2022 já vá ser melhor, mas é tudo uma questão de fé e esperança, nada mais.

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