Futuro da transição energética joga-se no mar

Os oceanos podem ter a resposta para ajudar a resolver a atual crise energética e o setor privado terá um papel importante nesse objetivo, segundo especialistas dos setores da energia e sustentabilidade.

Sara Ribeiro
Several wind turbines and an offshore platform built by the ENECO consortium off Ostend, on the Belgian coast, are pictured on October 25, 2019. (Photo by Eric Feferberg / AFP) © AFP

A economia azul tem sido apontada como uma bóia de salvação para a preservação e desenvolvimento dos oceanos. E ao mesmo tempo como estratégica para a transição energética, nomeadamente através da produção de energia eólica e solar offshore. Estes investimentos têm sido feitos maioritariamente por privados, e nos próximos anos vão ter de acelerar para se conseguir cumprir as metas de neutralidade zero estipuladas pela Europa, e não só. Uma aposta que não pode, contudo, ser feita a qualquer preço. E é preciso ter cuidado com o greenwashing. Os alertas foram feitos por um conjunto de especialistas numa conferência promovida pela EDP e pelo Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (BCSD Portugal), no Convento do Beato, em Lisboa, com o objetivo de debater a abordagem do setor privado ao oceano.

Na abertura da sessão, realizada por ocasião da Conferência dos Oceanos das Nações Unidas que decorreu na semana passada em Lisboa, o presidente executivo da EDP relembrou que a Europa tem sido líder na transição energética, um caminho que considera ser urgente continuar a trilhar para através do aumento da produção de energia através de fontes verdes se alcançar a neutralidade zero, mas não só. Este caminho tem de ser feito também a pensar na segurança energética. "Estamos aqui sentados em Lisboa, com um sol maravilhoso. E às vezes esquecemo-nos que está a decorrer uma guerra", sublinhou Miguel Stilwell d"Andrade, explicando que tinha decidido trazer este tópico para relembrar que "não podemos tomar a energia como garantida". A guerra na Ucrânia levou a uma escalada dos bens energéticos devido à forte dependência do petróleo e gás russos, principalmente por alguns países europeus. Um cenário que na visão de Miguel Stilwell d"Andrade veio demonstrar a importância de os países europeus investirem em energias renováveis "não só por ser mais barato mas também por uma questão de segurança" e reduzirem a sua dependência face a outras economias, como a Rússia. "Temos de investir três vezes mais do que investimos no passado para ter energia limpa barata", alertou.

O mar pode assumir um papel de destaque nesse objetivo uma vez que, em terra, já há uma grande área ocupada com painéis solares e torres eólicas. Além disso, como relembrou o líder da EDP, o oceano cobre 71% da superfície do planeta. "Temos que começar a aproveitar o potencial do oceano. O mundo está em transformação e não há dúvida que temos de ser mais céleres. Temos que quintuplicar o investimento em energia eólica offshore ", avisou. Mas de uma forma que seja "compatível com o ambiente", acrescentou.

A EDP anunciou recentemente que vai investir 1,5 mil milhões de euros em energia eólica offshore através da Ocean Winds, que pode representar até 17 gigawatts (GW) de capacidade renovável no mar. Trata-se de um investimento até 2025 e que não deverá incluir Portugal, pelo que a verba se destina a projetos na Escócia, Bélgica, Estados Unidos, Coreia do Sul ou França. O primeiro leilão de energia offshore em Portugal será lançado no próximo ano, e insere-se na meta anunciada esta semana pelo Governo de atingir 10 gigawatts (GW) de energia renovável oceânica até 2030.

O outro lado do verde

Sylvia Earle, bióloga marinha da National Geographic, concorda que é preciso "transformar a economia verde na economia azul", como tinha referida Stilwell d"Andrade. No entanto, a oceanógrafa norte-americana alertou para o preço a pagar pela mineração em alto mar para produzir baterias capazes de armazenar energia, tal como aconteceu com a exploração de combustíveis fósseis. "A mineração em alto mar tornou-se uma atividade popular, estão a tirar pedaços do fundo marinho para produzir baterias, para armazenar energia. Nós precisamos disto, mas qual é o custo? Estamos apenas a começar a compreender a magnitude do que estamos a fazer", avisou a investigadora, que foi considerada a primeira Heroína pelo planeta, em 1998, pela revista Time.

Relembrando que a "nossa casa é azul", Sylvia Earle realçou que a humanidade deve estar "grata" aos combustíveis fósseis, porque permitiram o seu desenvolvimento. Porém, apontou que houve falhas ao "calcular os custos" da sua exploração, aconselhando para que não se cometa os mesmos erros com a mineração em alto mar, que envolve a extração de minerais e depósitos encontrados em profundidades de 200 metros ou mais, utilizados na produção de baterias, entre outras aplicações.

Ricardo Mourinho Félix partilhou a mesma posição, reforçando os alertas para o impacto no ambiente da produção de baterias para armazenar energia. O vice-presidente do Banco Europeu de Investimento (BEI) revelou ainda que nos últimos anos o critério da sustentabilidade tem tido um maior peso nos projetos que decidem apoiar, mas alerta para o risco de se estar a comprar verde por cinzento: "Temos de saber quem estamos a financiar para evitar o greenwashing".

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