Impactos "brutais" criam situação "dramáticas" nas empresas

Na indústria, dos têxteis à metalomecânica e à metalurgia, a apreensão é generalizada. Associações elogiam as medidas do governo na eletricidade, mas pedem soluções para o gás natural

Ilídia Pinto
Os aumento do aço chegam, em alguns casos, a ser de 300% © Leonel de Castro / GI

Imagine-se a situação de uma unidade têxtil que fatura 600 mil euros por mês e que, até setembro, tinha um custo mensal de 100 mil euros com o gás natural. Em outubro, com o fim do contrato anual de fornecimento de gás natural, a sua fatura mensal passou para quase 400 mil euros. Este mês, o empresário vai "encaixar o prejuízo", no próximo, "vai procurar falar com os clientes", tentando negociar um aumento do preço final dos produtos, mas com a consciência de que "poderá perder encomendas". A história é verdadeira e foi contada ao Dinheiro Vivo pelo presidente da Associação de Têxteis e Vestuário de Portugal (ATP), que fala numa "situação dramática" para o setor, sobretudo para as áreas de consumo intensivo de energia, como as tinturarias.

A fatura energética pode chegar a pesar 30% nos custos de produção de uma têxtil, excluindo as matérias-primas. Mas também estas têm sofrido aumentos significativos, ao nível dos fios ou dos produtos químicos. Os corantes tiveram, em três meses, incrementos que vão dos 50 aos 100%, diz a ATP, o ácido cítrico duplicou, passando de 600 para 1200 euros a tonelada, e a soda cáustica quase que triplicou, de 150 para 400 euros a tonelada. A eletricidade triplicou e o gás natural quadruplicou. "Estamos todos muito preocupados com o aumento do preço dos combustíveis, com o diesel a passar de 1,4 para aproximadamente 1,7 euros o litro, mas qual seria o nível de preocupação dos consumidores se o gasóleo passasse a custar sete euros o litro, de um momento para o outro? É de um impacto dessa natureza que estamos a falar", diz Mário Jorge Machado.

Aumentar preços e correr o risco de perder clientes ou encaixar prejuízos a ver se a situação não se arrasta durante muito tempo são as opções com que os empresários se defrontam. Qualquer uma delas tem consequências graves. "O drama todo é conseguir perceber quanto é que cada um vai absorver de prejuízos e quanto vamos passar aos clientes, com a consciência de que resolvemos um problema, mas criamos outro de igual dimensão", refere o empresário, sublinhando que, perante a ameaça de subida de preços, as grandes marcas internacionais começam já a cortar nas encomendas.

Mas de que aumentos de preços estamos a falar? "Depende muito do tipo de produção, mas estamos a falar de aumentos no preço final à saída da fábrica que podem ir dos 10 a quase 50%", garante o presidente da ATP, para quem a retoma económica vai ser afetada por esta via: "Não tenho dúvidas nenhumas. Se será muito ou pouco afetada, dependerá se os clientes encontrarão, ou não, soluções de abastecimento alternativo".

Para a têxtil, a grande preocupação é a Turquia, um concorrente de proximidade, com grande capacidade de produção e que pode recorrer à desvalorização da moeda, como forma de se tornar mais competitiva, coisa que as empresas europeias não podem fazer.

A ATP reconhece que, no que à eletricidade diz respeito, o governo "já deu contributos importantes", diminuindo o custo de acesso às redes. No gás, a associação pede que seja encontrado "algum tipo de regime especial para uma situação que é ela também especial", designadamente a criação de uma espécie de défice tarifário que pudesse vir a ser pago pelas empresas, mais tarde, quando os preços do gás natural no mundo baixassem, o que se espera que aconteça a partir de março do próximo ano, com o fim do inverno, época de grande pressão sobre os gastos de gás no hemisfério Norte.

Na metalurgia e metalomecânica, vive-se com aumentos do aço entre 40 e 300% (consoante a liga usada), de 50% no cobre e no alumínio, fora os custos energéticos e de transportes. E se, nas matérias-primas, a situação é transversal ao mercado, não constituindo fator diferenciador em termos de competitividade, na energia, não. "A Europa está a pagar a sua política de descarbonização, feita sem alternativas. O que temos de renováveis não chega para 20% das necessidades. Estamos a ser verdes, mas contamos muito pouco no mundo, e estamos a ficar dependentes de economias altamente carbonizadas e com sistemas políticos autoritários e pouco transparentes, como a Rússia, a Argélia ou a Nigéria, que são quem nos fornece o gás natural", diz o vice-presidente da AIMMAP. Rafael Campos Pereira alerta: "Corremos o risco de sermos uma Europa 100% verde e 100% falida também".

As empresas da fileira do Metal Portugal estão "muito apreensivas", garante, mas "com muitas encomendas", já que, o aumento do custos dos transportes, que em alguns casos chegam a estar sete e oito vezes mais caros, desincentiva a procura de fornecedores distantes. "Admito que quem queira exportar muito para a China e para o Japão, por transporte marítimo, vá ter dificuldades. No caso da metalurgia e metalomecânica, o agravamento dos transportes traz-nos alguma compensação", explica. Paradoxalmente, garante, a preocupação mais premente, no imediato, é a falta de mão-de-obra para dar resposta às encomendas.

Rafael Campos Pereira acredita que o aumento dos preços "é inevitável", o que vai provocar pressão inflacionista. Uma "tempestade perfeita", que pode ainda ir mais longe. "Se as taxas de juro aumentam, altera-se o panorama não só das dívidas soberanas, como das empresas mais endividadas. É uma situação altamente instável e que nos deixa muito apreensivos", sustenta.

Quanto a medidas, Rafael Campos Pereira ironiza: "Era o BCE emitir mais dívida a 50 anos para todos os países". Reduzir a carga fiscal é sempre importante. "Baixar os impostos sobre os combustíveis e a energia e os impostos diretos à indústria é sempre uma forma de dinamizar a economia, protegendo as empresas e o emprego", argumenta.

Também Carlos Abreu, administrador da Secil, elogia as medidas tomadas pelo governo ao nível da redução das taxas de acesso às redes, considerando-as uma "grande ajuda" para 2022. No entanto, lembra que o custo da eletricidade no mercado ibérico, o Mibel, continua "exageradamente alto" e que há que agir a esse nível. Para o responsável, a solução tem de passar pela reformulação do Mibel. "Portugal e Espanha não deviam já ser mercados marginalistas ", defende, considerando que é a Europa, como um todo, que "tem de se mexer para conseguir ter preços melhores".

No caso da Secil, o gás natural não é uma preocupação, porque a cimenteira usa apenas energia elétrica e energia térmica, obtida a partir de um resíduo do petróleo, o petcoke, cujo preço duplicou. A energia pesa 60% nos custos variáveis da empresa que, apesar disso, e do aumento das matérias-primas, não mexeu no preço final do cimento. "Tudo isto somado faz uma grande pressão sobre as margens das empresas, mas temos de ser cautelosos e razoáveis, não podemos mexer nos preços neste momento", afirma. Mas também reconhece que a situação não é suportável ad eternum.

"Aguenta-se três ou quatro meses, mais será complicado, ou as empresas terão que começar a passar os aumentos para os consumidores", defende Carlos Abreu, considerando que tudo isto resulta da desregulação das cadeias de valor por via da pandemia. "O consumo arrancou mais depressa do que a produção e isso faz subir os preços", diz, considerando que a questão a saber "é quanto tempo vai levar esta onda a passar". Se se arrastar, poderá levar consigo muitas empresas, reconhece.

As falências são também uma preocupação para a CIP que pede medidas da Europa em bloco. "Reconhecemos que o governo está a tomar as medidas que, no quadro nacional, podem ser tomadas, mas, no quadro da UE, Portugal precisa de continuar a pugnar por uma política energética consentânea com a nossa competitividade", diz António Saraiva, presidente da Confederação Empresarial.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG