easyJet "Não é preciso convencer clientes a vir para Portugal" mas custo de testes afasta famílias

Em plena pandemia, a segunda maior companhia a voar para Faro inaugurou base sazonal. Investimento comprova o que o CEO, Johan Lundgren chama, "relação duradoura" com o Algarve - que é para manter, diz, em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Ana Laranjeiro
Johan Lundgren é o CEO da easyJet. © Direitos reservados

A companhia aérea easyJet inaugurou nesta semana a terceira base em Portugal, no aeroporto de Faro. A voar para o Algarve há mais de 20 anos, a inauguração desta base sazonal - vai operar entre março e outubro - permite a criação de cem empregos e a alocação de três aviões. Os ministros Pedro Nuno Santos e Pedro Siza Vieira marcaram presença no evento, com o ministro das Infraestruturas a louvar o investimento em tempos de pandemia, mostrando-se confiante de que o número de aviões no Algarve vai subir, assim como as ligações. Johan Lundgren, CEO da easyJet, responde ao repto. O ano de 2020 foi desafiante para turismo e aviação. O início deste ano também foi complexo para a maioria dos países e setores. Para a easyJet, o que foi mais difícil neste tempo? Ter toda a frota em terra, como no ano passado, foi o ponto mais baixo. Foi um processo grande deixar em terra toda as aeronaves. Em termos emocionais, foi o ponto mais baixo para mim. Mas houve outras decisões desafiantes que tivemos de tomar. É a pior crise que alguma vez nos atingiu. E para a aviação europeia foi mais dura do que para o resto do setor. Por isso, foi e é ainda superdesafiante.

A aviação está lentamente a voltar ao normal. Sendo uma companhia britânica, como vê o sistema implementado por Boris Johnson, de semáforos? E como gerem essa imprevisibilidade? Sou o primeiro a reconhecer que isto foi uma situação muito difícil para qualquer governo. Ninguém tinha enfrentado decisões difíceis [como as que tiveram de tomar na pandemia] e com prioridades que concorriam entre si enquanto tinham de aprender sobre o vírus, os seus efeitos e consequências. Isto tem sido sobretudo uma crise de saúde pública. Temos apoiado todas as medidas no terreno para proteger as pessoas de apanharem o vírus e de terem de ser hospitalizadas. Também apoiámos a introdução do sistema de semáforo, que determina o enquadramento para permitir, de forma segura, o regresso das viagens. E contribuímos para isso. O que nos tem preocupado muito - e não só a nós, mas ao setor e aos cientistas - é que introduziram uma estrutura que claramente ignora o enquadramento em termos de dados. Os dados indicavam que se podia viajar de forma segura de e para países na lista verde e amarela. Mais tarde, disseram que não se devia viajar em férias para destinos na lista amarela. Isso muda o enquadramento.

E o que significa para o negócio? Cria elevada incerteza sobre como planeamos. Se não se sabe porque é que estão a introduzir restrições e com que critérios, como é que se sabe quando vão ser removidas?! Esta foi a minha crítica de início e infelizmente aconteceu. Foram implementadas restrições, mas não foram claros sobre a tomada de decisão na retirada das mesmas. Nunca disseram que nível de risco estavam dispostos a aceitar, o que vimos acontecer em Portugal e na Europa. O governo britânico não o fez. O que isto significa é que temos vindo a planear de forma a assegurar que temos tripulações e frota em modo pronto a voar. Mantivemos os treinos às equipas de forma a podermos chamá-las quando virmos que as restrições estão a ser levantadas, porque sabemos que existe procura.

Vamos focar-nos no Algarve e na operação em Portugal. Ouviu as expectativas do ministro Pedro Nuno Santos, de mais aviões na base. É possível acontecer? As palavras do ministro refletem uma ambição apropriada. Claro que gostaríamos de fazer crescer a nossa presença aqui.

Há mercado para isso? Não, neste momento temos de garantir que temos um bom arranque da operação em curso. E isto é um marco importante para nós. Temos uma relação duradoura, próxima e construtiva com o Algarve há muitos anos. Voamos para cá desde 1999, são 20 milhões de clientes nestes anos, e é um mercado muito importante para nós. Nas bases em Portugal temos 12 aviões [cinco em Lisboa, quatro no Porto e três em Faro na época alta], 400 funcionários que trabalham com contratos de Portugal. Estamos muito orgulhosos disso e claro que gostaríamos de crescer. A easyJet é uma empresa de crescimento e acho que também há algumas coisas de que estamos a beneficiar ao começar a sair desta crise, porque sabemos que os clientes gravitam em direção a empresas em que confiam - e a easyJet tem posição elevada nos rankings das marcas mais confiáveis. As pessoas vão ter interesse também na relação qualidade-preço. E isso e a confiança é o que representamos. Estamos muito otimistas e preparamo-nos para isso, mas também devemos reconhecer que estamos no início da recuperação para a empresa, como um todo. Mas esperamos ver Portugal a ser um dos principais destinos a sair disto.

Neste ano? No próximo?
Com sorte. Espero e aguardo por isso. Acho que Portugal tem tido, relativamente, mais voos do que outros países. Há uma elevada procura por parte de pessoas que querem visitar. Portugal não é desconhecido para os clientes; a mentalidade das pessoas, as infraestruturas e a segurança são conhecidos. Não é preciso convencer os clientes, só precisamos de conseguir assegurar que retiramos as restrições porque as restrições são muito dolorosas. Só os custos dos testes PCR afastam muitas famílias.

E como é que vê a situação da TAP? Disse logo no início quando surgiu esta crise: não sou contra as ajudas de Estado, por assim dizer. Entendo que isto vai para além do que o setor e as companhias conseguem lidar; não há nenhuma companhia aérea na Europa que não tenha tido algum tipo de ajuda. A minha preocupação é se o nível de contribuição e fundos que foram injetados em algumas delas estão lá para assegurar que a empresa sobrevive ou se estão a [levar a uma] concorrência injusta.

É o caso da TAP? Não, não acho que existam provas disso neste momento. Mas é algo que temos de monitorizar e que vimos em algumas companhias europeias - não vou mencionar nomes, mas não é um fenómeno novo. As companhias estatais foram preferidas em alguns países anteriormente. Mas, claro, o nível de financiamento que chega a algumas companhias significa que temos de monitorizar cuidadosamente se isto está a ser usado de tal forma que essas fiquem numa posição que configure abuso para tentarem ganhar quota de mercado, por exemplo, face a algumas empresas que não receberam. A ajuda deveria existir, os contributos devem existir, mas em igualdade de condições, onde todos podem aceder e podem aceder de uma forma transparente e justa.

Para ser clara: acha que todas as empresas que operam em Portugal deveriam ter a oportunidade de ter alguma ajuda de Estado se precisassem? Seria justo dizer que deveria haver transparência em torno disso e se existisse necessidade, certamente, se se tem uma presença... O apoio dado deveria refletir também a presença nesses mercados. Mas a nossa visão é: queremos voar, queremos operar, não queremos ter ajudas de Estado. No entanto, no tempo em que fomos proibidos de voar e operar, em que os aviões estiveram em terra e as pessoas não puderam trabalhar, acho que foi justo o que aconteceu, que houvesse ajuda. A minha preocupação é se esse dinheiro está a ser usado para uma concorrência desleal.

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