Luís Onofre: "Temos de ser muito rigorosos a definir preços, mas temos de valorizar os nossos produtos"

O preço médio do calçado português subiu 5% desde o início do ano, o que o líder associativo considera "modesto" face aos custos. A qualidade e o prestígio "ainda não estão suficientemente refletidos".

Ilídia Pinto
Luís Onofre é presidente da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS) © Direitos Reservados

A caminho de bater o melhor ano de sempre nas exportações, ultrapassando a barreira dos dois mil milhões, a indústria do calçado tem já nova meta: chegar aos três mil milhões até 2030. A subcontratação, total ou parcial, da produção noutros países, para diminuir custos, é uma das muitas medidas preconizadas no novo plano estratégico. Luís Onofre, presidente da APICCAPS, fala em diversificação de modelos de negócios e na necessidade de "não ter complexos" em relação a esta matéria.

O novo plano estratégico estabelece a meta de chegar aos 3 mil milhões de exportações até 2030. A recessão que se avizinha não ameaça essa ambição?
É um risco, mas há sempre riscos para um setor altamente exportador como o calçado, porque não dominamos inúmeras variáveis. A evolução da pandemia, a guerra na Ucrânia ou a previsível desaceleração económica são fatores que nos preocupam. Mas o plano contém mecanismos de monitorização e ajustamento da estratégia.

A preferência dos consumidores por outro materiais que não o couro é uma das ameaças apontadas a um setor que tem neste material o grosso da sua produção. A solução está em diversificar os materiais ou em "educar" os consumidores para a sustentabilidade do couro?
As duas opções são válidas. O couro é a melhor matéria-prima. É natural, reciclada - depois de desperdiçada pela indústria alimentar -, tecnicamente consistente e altamente duradoura. E, ao contrário do que tantas vezes se ouve, o consumo de carne continua a aumentar a nível internacional. Por isso, temos várias iniciativas de promoção do calçado de couro. Mas, os hábitos de consumo alteraram-se, há novos produtos a chegar ao mercado, novas soluções técnicas e, também neste domínio, queremos estar na vanguarda. Daí o projeto Bioshoes4All que estamos a desenvolver com o apoio do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). Juntamos mais de 70 parceiros, e será o nosso maior investimento de sempre num projeto (80 milhões).

Quando poderão os consumidores aferir a pegada ambiental do sapato que estão a comprar?
Estamos a trabalhar de forma acelerada no domínio da rastreabilidade. Sem conhecermos bem a história dos materiais que usamos é difícil medir com exatidão a pegada ambiental dos produtos. Talvez em 2025 já possamos ter evoluções neste campo. É uma área particularmente complexa, porque pressupõe uma interligação mais estreita entre as empresas e os parceiros a montante e jusante.

Nas ameaças, o plano destaca a existência de novos concorrentes a afirmarem-se dentro da Europa. Quem são?
A primeira preocupação é que quase 9 em cada 10 pares de sapatos a nível mundial são produzidos na Ásia. Não nos parece razoável ou sustentável. A própria China, o grande player do setor, está a perder relevância para países como a Indonésia ou Vietname. Mais perto, a Turquia emergiu como um produtor de referência. Temos de estar atentos.

O que podemos fazer?
Em Portugal, temos de continuar a inovar para liderarmos. A nível europeu, temos de criar uma política de comércio mais equilibrada e justa. A visão política europeia é hoje muito diferente e já aberta à necessidade de reequilibrar este jogo do comércio internacional.

Nas oportunidades, indica-se que o nearshoring, a procura por fornecedores mais próximos, deve ser explorado. Como é que isso se coaduna com a subcontratação internacional para baixar custos?
São coisas complementares. Uma indústria que quer ser altamente competitiva tem de apresentar vários modelos de negócio. Continuamos a acreditar numa base industrial forte, mas não podemos deixar de olhar para o mercado e para os nossos concorrentes, e perceber que, para algumas empresas, a subcontratação no exterior pode ser estratégica. Não podemos ter complexos. A mão-de-obra é outro aspeto relevante. A própria Comissão Europeia indica que, até 2030, a indústria da moda vai necessitar de 500 mil novos trabalhadores. Temos de procurar alternativas. Não podemos enfiar a cabeça na areia e fingir que os problemas não existem.

Se o made in Portugal "favorece a reputação dos produtos", como refere o plano, subcontratar fora não põe em risco a "portugalidade" do calçado?
Vamos continuar a ter uma base industrial forte, não vamos desperdiçar o saber-fazer acumulado ao longo de gerações. O que está em causa é acrescentar outras área de negocio, complementares à produção em Portugal, e reforçar a nossa competitividade global. Os nossos concorrentes já o fazem há muito.

O plano estabelece como público-alvo os 9,1% mais ricos do mundo. A estratégia promocional do setor vai mudar?
Poderemos ter de a afinar. Por exemplo, nos EUA, há várias feiras locais que nós ainda não potenciámos. Vamos à procura de novas oportunidades. Consideramos que é tempo de dar um novo impulso à atividade promocional. O nosso setor precisa de regressar rapidamente e em força aos mercados externos para que não hipotequemos o futuro próximo.

Durante muito tempo, a excessiva concentração das exportações na Europa foi vista como negativa. Afinal não é?
Essa é uma falsa questão. Trabalhar o mercado alemão é muito diferente de trabalhar o espanhol, tal como há grandes diferenças entre o mercado francês e os países nórdicos. Não queremos é estar dependentes de um único mercado. Essa sempre foi a nossa grande preocupação.

Os EUA serão a grande aposta da próxima década. Quanto quer a indústria crescer neste que é o maior importador de calçado do mundo?
Acho que temos condições de, no mínimo, duplicarmos a presença nos EUA e já estamos a trabalhar para isso. Mas não escondemos que é um mercado muito exigente, com grandes players, muita concorrência. Temos de dar os passos certos.

A sustentabilidade é uma das quatro apostas estratégicas do plano, mas parece centrar-se quase só em matéria ambiental. E a sustentabilidade social?
Como assim? Não concordo nada. Aliás, consideramos desde logo que a qualificação é a nossa grande prioridade. Depois, temos um projeto âncora integralmente dedicado à inclusão e responsabilidade social. Vamos trabalhar com empresas, sindicatos, autarquias, entidades especializadas nestes temas tão importantes. Nós sempre entendemos o tema da sustentabilidade numa perspetiva abrangente. Nunca se cinge apenas ao produto e às matérias-primas. Para a APICCAPS, sustentabilidade é produzir calçado de excelência na Europa, duradouro, respondendo às convenções internacionais e aos direitos humanos, e a preços justos.

Mas os sindicatos queixam-se da falta de disponibilidade para negociar um novo CCT. Com a inflação a disparar não deveria haver uma sensibilidade especial?
Acreditamos na negociação coletiva, mas, como temos dito várias vezes, não negociamos contratos em público. Estamos no início do processo negocial, não posso dizer mais do que isto.

A propósito de qualificação, os empresários estão disponíveis para melhorar a sua, ao nível da gestão?
Estão e já iniciámos esse caminho há muito. O Centro Tecnológico já ministrou formação avançada a mais de uma centena de empresários nos últimos anos. E vamos aprofundar esse caminho.

Como estão as empresas a gerir o aumento dos custos?
O preço médio do calçado português aumentou cerca de 5% desde o início do ano. Ainda nos parecem valores modestos face aos aumentos significativos das matérias-primas, dos transportes e da energia....Temos de ser muito rigorosos na definição dos preços, mas também temos de saber valorizar os nossos produtos. Já demos um salto neste campo, mas a qualidade e o prestígio do calçado português ainda não estão suficientemente refletidos no custo final dos nossos sapatos.

As exportações estão a crescer a dois dígitos e já acima do melhor ano de sempre. A barreira dos 2 mil milhões deve ser ultrapassa, qual é a meta para 2023?
Não me atrevo a fazer previsões. Será seguramente um ano de muita exigência.

Teme que a crise traga encerramentos e desemprego?
Há fatores que não dominamos, mas fizemos o trabalho de casa nestes dois últimos anos. Apresentamos o Plano Estratégico para a próxima década e investimentos superiores a 140 milhões de euros. Este é um sinal da maior confiança do setor.

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