Maior central solar do país vai crescer. Donos querem mais painéis e armazenagem

Fica em Alcoutim, no Algarve, tem 661.500 painéis e é um parque que não tem subsídios, ou seja, não tem um preço fixo para venda de energia que os consumidores teriam de pagar. Inaugurou ontem e produz energia que dá para fornecer 200 mil famílias.

Ana Baptista
Central Fotovoltaica Riccardo Totta em Alcoutim, a maior central fotovoltaica a operar em Portugal, Alcoutim, 09 de outubro de 2021. LUÍS FORRA/LUSA © LUSA
O ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes (D), acompanhado pelo secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba (E), durante a inauguração da Central Fotovoltaica Riccardo Totta em Alcoutim, a maior central fotovoltaica a operar em Portugal, Alcoutim, 09 de outubro de 2021. LUÍS FORRA/LUSA © LUSA
O ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes (C), acompanhado pelo secretário de Estado Adjunto e da Energia, João Galamba (D), durante a inauguração da Central Fotovoltaica Riccardo Totta em Alcoutim, a maior central fotovoltaica a operar em Portugal, Alcoutim, 09 de outubro de 2021. LUÍS FORRA/LUSA © LUSA
O ministro do Ambiente e da Ação Climática, João Pedro Matos Fernandes, durante a inauguração da Central Fotovoltaica Riccardo Totta em Alcoutim, a maior central fotovoltaica a operar em Portugal, Alcoutim, 09 de outubro de 2021. LUÍS FORRA/LUSA © LUSA

O caminho para chegar à central solar de Alcoutim, no Algarve, não é fácil. E não é por ter uma estrada de terra batida, mas sim porque os enormes blocos de painéis solares que a compõem estão dissimulados nas encostas dos montes da Serra do Caldeirão, paredes meias com a fronteira de Espanha. Só mesmo do cimo de um dos montes, junto à subestação elétrica onde decorreu a inauguração este sábado, 9 de outubro, é que se consegue perceber a dimensão real do projeto, o maior de Portugal até à data. No total são 291 MW de potência distribuídos por 661.500 painéis solares instalados de forma não contínua num terreno de 320 hectares, intercalados por corredores verdes que permitem a circulação de animais.

E por isso mesmo é que, construí-lo, "foi o projeto mais difícil" que o engenheiro Hugo Paz teve de liderar. De acordo com o diretor de projeto para a Península Ibérica da irlandesa WeLink, um dos investidores neste parque, primeiro foi preciso limpar o terreno. "Isto estava tudo cheio de mato" diz. Depois foi preciso ultrapassar questões ambientais e estudar a melhor forma de montar os painéis, literalmente, por entre montes de vales. "O parque tem características únicas que já o tornaram num caso de estudo internacional", acrescenta. E como se ainda não bastasse, teve de enfrentar a pandemia de covid-19. Na altura, "a população local não queria ter aqui os 400 ou 500 trabalhadores, e então decidimos parar e retomámos este ano", diz. Tudo isto, conseguindo investir 170 milhões de euros, ou seja, menos 30 milhões de euros do que estava inicialmente previsto.

Mas mesmo assim, e depois deste longo e difícil processo de cinco anos de estudos, preparação e construção - o parque foi aprovado em 2017, começou a obra em 2019 e ficou concluído em 2021 - Hugo Paz não tem dúvidas nenhumas: "em breve vamos voltar aqui. Vamos aumentar este parque", diz. O objetivo, conta ao DN/Dinheiro Vivo, é instalar mais painéis e, consequentemente, aumentar a capacidade de produção de eletricidade que pode vender à rede mas, acima de tudo, instalar sistemas de armazenamento de energia. "A nossa licença permite-nos ter uma capacidade de injeção na rede de 200 mega volt amperes (MVA) e só usámos 172 MVA. O que nos permite instalar mais painéis e produzir mais eletricidade. Mas se tivermos armazenagem, então podemos instalar ainda mais painéis porque a podemos guardar e injetar na rede quando houver necessidade e quando ela estiver mais barata", explica Hugo Paz.
Por isso mesmo, neste momento, a WeLink e os seus parceiros neste projeto, a Solara4 e a China Triumph International Engineering Company (CTIEC), já estão "a sondar o mercado para encontrar as melhores soluções de armazenagem, que é algo que ainda não foi feito muitas vezes" e já estimam que possam investir mais "40 a 50 milhões de euros na expansão e melhoria do parque".

<br> 20 postos de trabalho e 200 ovelhas

Em todos os projetos de centrais solares, o mais comum é que a maior parte da força de trabalho seja durante a construção. Depois de pronto, é apenas preciso assegurar a manutenção e, por isso, a quantidade de trabalhos fixos que são criados é sempre inferior, mas neste caso, até foram criados mais postos de trabalho, porque é um parque que "requer uma manutenção bastante difícil", explica Hugo Paz. Para ajudar, até "contrataram" pastores locais e ovelhas. "Elas comem o pasto e permitem que não estejamos sempre a cortar a erva. Já temos 200 ovelhas a andar por aí e em breve queremos ter mais 200", conta.
Esta é uma forma de mostrar que o ambiente e a fauna local estão a ser preservados. Até porque o dono do terreno onde este parque foi instalado não o permitiria de outra forma. "Faço reflorestação na Argentina desde 1997 e comprei agora terrenos na Amazónia brasileira para ajudar na reflorestação. Sempre tive este interesse em desenvolver projetos sustentáveis", conta ao DN/Dinheiro vivo Mauricio Totta, um engenheiro italiano que fala quase fluentemente o português e que no verão de 2015 encontrou este terreno e, em 24 horas, decidiu comprá-lo para ali se desenvolver um projeto sustentável. Aliás, a sua participação neste projeto valeu o rebatismo desta central solar que passa agora a chamar-se Riccardo Totta, em homenagem ao pai de Mauricio. O ambiente e a preservação da fauna local foi também uma preocupação na primeira central que a WeLink fez em Portugal, a Ourika, em Ourique, no Alentejo interior. Ainda recentemente, "foi avistado um lince ibérico no local", conta Hugo Paz.

Novos leilões solares ainda este mês

A central de Ourique foi a primeira a inaugurar em Portugal que não tinha quaisquer subsídios, ou seja, que não tinha um preço fixo quando vendia a energia à rede, preço esse que era superior ao de mercado e que era depois repercutido nas contas de todos os consumidores no final do mês. O mesmo se passa com a central de Alcoutim, que também não tem quaisquer subsídios, uma característica muito destacada pelo ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, que esteve na inauguração de ontem juntamente com o secretário de estado da Energia, João Galamba.

"São projetos como este vão tornar a eletricidade mais estável e mais barata, porque a produção de eletricidade a partir de fontes renováveis é muito mais barata que a partir de combustíveis fósseis, disse aos jornalistas após o descerramento da placa. Aliás, de acordo com o ministro, "o consumidor já está a sentir o impacto destes investimentos na fatura e de forma muito positiva. O preço de eletricidade no mercado grossista aumentou cinco vezes, mas o preço da eletricidade em Portugal para o consumidor aumentou 1,6% este ano e, acreditamos fortemente, que para o próximo ano não vai ter qualquer aumento", assegurou, acrescentando que, nos próximos anos, o impacto será ainda maior por causa dos projetos de investidores que já foram licenciados - num total de 2 GW - e dos projetos que foram atribuídos nos leilões lançados pelo Governo - também num total e 2 GW.

"Doze dos 26 projetos do primeiro leilão já estão licenciados e, dos outros 14, três têm o seu licenciamento por dias. O segundo leilão está numa fase mais incipiente, e em outubro vai haver um terceiro mas para a instalação de painéis no espelho de água das albufeiras das barragens", revelou.

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