Maior montra mundial de calçado arranca com um terço das empresas habituais

A Micam abriu hoje portas em Milão, mas ainda com muitas ausências, como a da Kyaia, a maior fabricante nacional do setor. Este ano não serão nem meia dúzia o total de eventos de apresentação nos mercados internacionais, mas, para o primeiro semestre de 2022, estão já previstas 17 acções.

Ilídia Pinto/Em MIlão

Com as exportações a crescerem mais de 10% em relação a 2020, mas ainda 11,5% abaixo dos quase 1.088 milhões de euros vendidos ao exterior nos primeiros sete meses de 2019, as empresas de calçado "estão ávidas" para regressarem aos mercados externos e testam esse mesmo regresso, a partir de hoje, na Micam, a maior montra mundial do calçado.

Mas é um número ainda restrito os que se aventuram em Milão. São 34 expositores, cerca de um terço dos habituais, com ausências de peso como as do grupo Kyaia, o maior fabricante nacional de calçado, que habitualmente marca presença com as suas três marcas - Fly London, Softinos e As Portuguesas -, a Lemon Jelly ou a Carlos Santos. Ana Santos, responsável de marketing da Zarco, a detentora da marca Carlos Santos, explica que, com a pandemia, a empresa foi obrigada a "repensar a sua estratégia de abordagem aos clientes", muito focada no digital ou mesmo, mais recentemente, com visitas diretas. "O feedback é totalmente positivo e, portanto, esta época não vemos necessidade de estarmos presentes na Micam. Além disso, a nossa época mais forte é sempre quando apresentamos inverno ", explica. E promete: "Vamos ser ponderados esta época e voltar mais confiantes na próxima edição da Micam".

Também Luís Onofre não irá expor a sua coleção em Milão, embora se desloque à feira para visitar os empresários presentes, na qualidade de presidente da APICCAPS, manifestando-lhes o seu apoio e ouvindo as suas preocupações. Acompanhará o secretário de Estado Adjunto e da Economia, João Neves.

"A maior parte dos nossos clientes não vai à feira, o que nos leva a não estarmos presentes, até porque montamos uma estrutura de comunicação digital com os clientes que permite mostrar-lhes a coleção online, o que tem sido muito prático e tem poupado muitas viagens. Não significa que no futuro não voltemos a estar presentes na Micam, mas este ano não fazia sentido. Todos os clientes de fora da Europa não vão à feira", explicou Luís Onofre ao Dinheiro Vivo.

O empresário reconhece que, apesar de toda a evolução no sistema de vacinação, os ecos que chegam da China são, ainda, "um bocadinho assustadores", com notícias do encerramento de fábricas de calçado porque "mesmo vacinados, há imensos contaminados". Depois de um 2020 particularmente exigente, a marca Luís Onofre teve, no primeiro semestre de 2021, uma "recuperação extraordinária" e supera já os números de 2019. A questão é a incógnita que se segue. "Estamos outra vez com uma grande incerteza quanto ao futuro; a partir de setembro as perspetivas de trabalho que tínhamos já diminuíram um bocadinho", sublinha.

Luís Onofre opera no segmento clássico e de luxo, altamente penalizado com a pandemia, em especial junto dos clientes masculinos, já as tendências para mulher foram "um bocadinho mais animadoras". O verão impulsionou muito as vendas, mas Onofre não consegue ainda estimar se conseguirá encerrar o ano acima de 2019. "Tudo depende agora de algumas confirmações de encomendas que estamos à espera... Na verdade, está toda a gente em suspenso à espera dos próximos capítulos desta enorme odisseia", frisa.

A 92ª edição da Micam conta com 652 expositores, pouco mais de um terço dos habituais antes da covid-19, sendo que, destes, 390 são empresas italianas. Será, também, a primeira vez que a feira terá expositores asiáticos. Um sinal da globalização.

Para as empresas portuguesas, a Micam será o principal palco internacional em 2021, a par de eventos mais pequenos, como a Gallery, na Alemanha, ou as feiras de Riva del Garda e da Pitti Uomo, em Florença. Mas é sobretudo em 2022 que as atenções estão focadas, com 17 ações previstas no primeiro semestre do próximo ano, com o regresso aos Estados Unidos e à esmagadora maioria dos mercados internacionais. "É o regresso aos mercados externos e o início de uma fase de afirmação do calçado português no exterior", diz o presidente da APICCAPS, Luís Onofre, que acredita que "há sinais claros que mostram perspetivas de recuperação a partir do próximo ano".

Aumento dos custos de transportes penaliza recuperação

Há ano e meio em suspenso por causa da pandemia, as empresas de calçado estão agora em forte recuperação. A prová-lo está o último inquérito covid realizado pela APICCAPS aos associados, e que mostra que mais de 50% das empresas têm já trabalho até ao final do ano. "Os últimos inquéritos têm indiciado uma melhoria significativa dos negócios", diz o presidente da associação, Luís Onofre.

No entanto há sinais ameaçadores. Pela primeira vez, no inquérito de setembro, que contou com respostas de 108 empresas, responsáveis por mais de 20% das exportações do setor, o abastecimento das matérias-primas importadas foi, pela primeira vez, apontado pelos industriais como a sua maior dificuldade. Uma preocupação referenciada por 48% das empresas, contra os 33% do inquérito anterior. Até agora, a insuficiência de encomendas estrangeiras era a maior preocupação apontada pelas empresas.

Mas não admira que a questão logística seja agora vista como a maior ameaça, sobretudo se tivermos em conta que os custos de transporte marítimo, que segundo o índice World Container Index, da consultora Drewry, estão quase nos 10.375 dólares por um contentor de 40 pés, multiplicaram por cinco desde o início da pandemia. Quanto ao transporte aéreo aumentou 111,39% desde março de 2020, o que pode constituir um desincentivo às compras online, já que este é o meio privilegiado usado para estas entregas, sendo, por norma, pago pelo consumidor.

Apesar da performance positiva dos últimos meses, as exportações de calçado estão, ainda, 11,5% abaixo do período pré-pandemia. Nos primeiros sete meses do ano, a indústria vendeu ao exterior calçado no valor de 962,3 milhões de euros, mais 90 milhões do que em 2020, mas está, ainda, 125 milhões abaixo dos primeiros sete meses de 2019.

Governo promete mais apoios à internacionalização

João Neves, secretário de Estado da Economia, vai hoje visitar as empresas, classificando a sua presença na feira como um "acto de resistência que deve ser cumprimentado". Uma ronda que permitirá, também, perceber qual é o ambiente de negócios que as empresas portuguesas estão a enfrentar. Questionado sobre a questão do aumento significativo das matérias-primas e dos custos de transporte, o governante admite que é uma situação difícil, mas recorda que é transversal às várias economias e sectores não se traduzindo, por isso, numa desvantagem das nossas empresas face às restantes. "Ainda não se percebeu muito bem quando é que os mercados vão normalizar ou as razões a que se deve, sabendo-se que, na fase mais aguda da pandemia, os chineses usaram contentores para stockarem os seus produtos o que fez cm que, com a grande recuperação da procura, o número de contentores disponíveis tenha diminuído, mas não me parece que este aumento generalizado dos preços possa continuar por muito mai tempo. Muito importante é que, tratando-se de uma questão generalizada, as empresas possam ajustar os seus preços aos custos efetivos de produção", sublinha.

Nas últimas semanas, João Neves tem acompanhado o regresso dos setores industriais às feiras internacionais. Diz que tem encontrado um ambiente "muito positivo", mas "à medida da enorme retração que houve com pandemia". A simples existência de certames internacionais, mesmo que de menor dimensão, "é um sinal de esperança para os operadores", defende.

Consciente da importância das feiras na promoção das exportações nacionais, o governo promete reforçar os apoios à internacionalização no âmbito do próximo quadro comunitário de apoio, o Portugal 2030. Um aumento que João Neves não quantifica, para já, dado que as negociações com Bruxelas sobre o próximo quadro financeiro plurianual estão ainda numa fase inicial.

A jornalista viajou a convite da APICCAPS

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