McKinsey: Bancos portugueses têm de apostar no negócio não bancário

"A questão é como bancos vão fazer crescer o produto bancário sem ser necessariamente pelo negócio bancário ou só pelo negócio bancário", disse o especialista de banca da consultora McKinsey Nuno Ferreira, considerando que cada banco tem de pensar o que fazer com os milhares ou milhões de clientes que tem na base de dados, com a confiança gerada e a marca que construíram.

Dinheiro Vivo/Lusa
McKinsey: Bancos portugueses têm de apostar no negócio não bancário (Imagem de arquivo) © Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

O especialista de banca da consultora McKinsey Nuno Ferreira considera que os bancos portugueses têm de se focar no crescimento e apostar no negócio não bancário para conseguir aumentar as receitas.

A consultora McKinsey divulgou hoje a análise bancária anual, considerando que a indústria dos serviços financeiros teve na crise pandémica um comportamento melhor do que o esperado (desde logo no lucro), mas que os bancos continuam a apresentar valorizações pouco atrativas e rentabilidades abaixo do custo do capital. Os próximos 18 a 24 meses, considera, irão definir quais as instituições que vão crescer, liderar o setor e as que ficarão para trás.

Em declarações à Lusa, Nuno Ferreira, sócio da McKinsey e responsável por este estudo, disse que, em Portugal, - tendo em conta os depósitos e créditos baratos, as baixas taxas de juro e a elevada concorrência do setor - será difícil aos bancos crescerem no negócio bancário tradicional, pelo que têm de "achar novas fontes" de rendimento.

"A questão é como bancos vão fazer crescer o produto bancário sem ser necessariamente pelo negócio bancário ou só pelo negócio bancário", disse, considerando que cada banco tem de pensar o que fazer com os milhares ou milhões de clientes que tem na base de dados, com a confiança gerada e a marca que construíram.

Segundo o responsável, os bancos têm de apostar em outros negócios que venham agregados com o negócio bancário tradicional, que não têm de ser necessariamente seus, mas criando um ecossistema que os integre.

Deu o exemplo de como o crédito à habitação pode ter agregado fornecedor de água e luz (por exemplo, gerido por uma 'fintech' que facilite a mudança do prestador desses serviços consoante a vontade do cliente) e de que recentemente a JP Morgan fez aquisições e, entre essas, de uma empresa de 'ratings' para restaurantes, porque quer ter essa facilidade para clientes na sua 'app'.

Nuno Ferreira considera também que os bancos têm de fazer mais na digitalização do cliente, não só migrar o cliente do canal físico para o canal digital, e mesmo aí prestar serviços que não prestam no canal físico.

Ainda hoje, disse, nem todo o crédito ao consumo se faz em canais digitais e não é possível finalizar uma operação de crédito à habitação só por meios digitais.

"É preciso fazer a digitalização da venda e depois partir para outros caminhos, montar ecossistemas", afirmou.

Já quanto a liquidez e solvabilidade, considerou que neste momento os bancos estão muito bem nesses indicadores, e que nos últimos anos as reestruturações que fizeram melhoraram os rácios de eficiência (custos face a receitas), a produtividade e têm hoje rácios de liquidez e de capital sólidos.

"Contudo, faltou a parte do crescimento, a banca nacional não cresceu. Para os próximos anos, é preciso criatividade e inovação, aproveitar a base de clientes. Vender produtos financeiros e não financeiros será chave", disse.

Sobre as queixas recorrentes dos bancos portugueses, por exemplo, quanto a custos regulatórios ou limites a comissões bancárias, afirmou que "não deve servir de desculpa para não inovar", que o caminho agora é "ir mais pela inovação e menos pelos custos", pelo corte de custos.

Considerou ainda que os clientes estão disponíveis para pagar comissões por serviços adicionais, que é aí que bancos têm de apostar.

"Porquê aumentar mais comissões do cartão de crédito se os serviços são os mesmos? Porquê cobrar mais taxas no Multibanco se se devia tirar o 'cash' da economia? Porquê ir pelo caminho mais fácil e não pelo serviço acrescentado", questionou.

Sobre a consolidação bancária, afirmou que há espaço para "um ou vários movimentos relevantes", mas também recordou que a resposta teria sido a mesma há poucos anos e entre os principais ainda nada se passou.

Além disso, acrescentou Nuno Ferreira, mesmo que não haja consolidação de instituições, pode haver consolidações de alguma parte, como de unidades de negócios, de carteira de crédito, até no modelo de distribuição.

No Reino Unido, explicou, há bancos a experimentar modelo de balcões partilhados em cidades menos relevantes.

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