Odemira: 1800 toneladas no lixo e prejuízos de 7 milhões de euros

Produtores esperam que maior acesso dos trabalhadores às quintas em cerca sanitária permita minimizar perdas. Nos super nacionais, situação tem tido impacto "marginal".

Ana Marcela
Odemira, 25/10/2019 - Reportagem sobre histórias de amor e de sucesso na agricultura no sudoeste alentejano Amoras (Artur Machado / Global Imagens) © Artur Machado / Global Imagens

Oito dias de cerca sanitária em Odemira deixaram marcas: até ontem, estima-se que 1800 toneladas de alimentos tenham sido atiradas ao lixo, resultando, no mínimo, em 7 milhões de euros de prejuízos. Nos supermercados nacionais a cerca está a ter um impacto "marginal", com as cadeias a substituir artigos por produtores nacionais de outras zonas do país, mas o maior impacto poderá ser mesmo nas exportações. "Pode afetar o volume de negócios este ano e o valor das exportações. Tínhamos como objetivo chegar aos 1800 milhões de euros de exportações, no ano passado atingimos os 1683 milhões", adianta Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh e vice-presidente da Confederação de Agricultores de Portugal (CAP).

Nos últimos dez anos tem sido sempre a crescer nas exportações do setor das flores, frutas e legumes. Em 2020 foi, de resto, dos poucos a contrariar os efeitos da pandemia nos envios nacionais. "Temos batido todos os anos recordes, e olhávamos para 2021 como um ano em que, mais uma vez, iríamos crescer e chegar, pela primeira vez, aos 1800 milhões de euros", diz Gonçalo Santos Andrade. Mas, neste ano, a mesma pandemia - e a sobrelotação vivida por muitos trabalhadores agrícolas na região - colocou em cerca sanitária as freguesias de São Teotónio e Almograve, em Odemira, concelho responsável por 15% dos envios de frutas e legumes para o exterior.

Com cerca de 40% dos trabalhadores impedidos de aceder às quintas, em pleno pico da colheita, as perdas nos terrenos acumulam-se. "As estimativas que tínhamos feito para sete dias de trabalho eram de 1600 toneladas e 6 milhões de prejuízos. Em oito dias serão seguramente 1800 toneladas e, dos seis milhões euros já perdidos, esse valor irá crescer para, no mínimo, sete milhões diretos", adianta.

"O acesso dos trabalhadores agrícolas às explorações vai minimizar os prejuízos", diz.

Ontem à tarde, decorriam reuniões operacionais para agilizar o modelo de acesso dos trabalhadores às quintas, depois de o governo ter anunciado, após o Conselho de Ministros de quinta-feira, que iria ser permitido acesso dos trabalhadores às empresas instaladas no perímetro da cerca sanitária. Esse acesso será possível a partir de hoje, para permitir "minimizar perdas e fazer as colheitas minimamente a tempo".

Além das perdas imediatas, ao vice-presidente da CAP preocupa igualmente o impacto que o incumprimento dos contratos com os clientes, nacionais, mas sobretudo os internacionais (as exportações absorvem 59% da produção), terá no futuro. "Vamos ter substituição de contratos por outros fornecedores de outras geografias, de Espanha ou de Marrocos, que seguramente vão ocupar esta oportunidade", alerta. "Quando é que vamos recuperar a nossa quota dentro desses clientes altamente exigentes, maioritariamente do centro e norte da Europa, como o mercado alemão, holandês, países nórdicos, o Reino Unido, em que mesmo a imagem do setor está altamente afetada?". "É muito importante repararmos a imagem do setor e do País, precisamos que os consumidores não percam confiança nos produtos."

Super: impacto marginal

Nos super nacionais, até ao momento, o impacto tem sido "marginal". "Não temos sentido impacto na produção ou entregas dos produtos que vêm desta região, nomeadamente frutos vermelhos, 4.ª gama (produtos hortofrutícolas frescos lavados e desinfetados, cortados ou não, prontos a consumir), tomate e cenoura", adianta porta-voz da Sonae MC. "O único impacto, embora com pouco relevo até a data, foi na operação de saladas embaladas prontas a comer que obrigou à suspensão de dois artigos de menor volume", admite a dona do Continente.

No Pingo Doce o impacto fez-se sentir "apenas nos frutos vermelhos e de forma marginal", diz. "Estamos a reforçar as compras a outros parceiros nacionais com quem trabalhamos de forma a compensar esta situação."

"Face à situação atual, há menos artigos disponíveis desta zona, como é conhecido, no entanto, continuamos a conseguir assegurar as necessidades das nossas lojas, graças às diversas parcerias nacionais que mantemos", garante Jorge Silva, diretor de frutas e legumes do Lidl Portugal.

"Até ao momento", a Mercadona "não está a ser afetada por esta situação", assegura. "Estamos em contacto permanente com os nossos fornecedores com o objetivo de garantir o normal abastecimento das lojas". E o mesmo diz o Intermarché - "o abastecimento das lojas e a disponibilização dos produtos aos nossos clientes não está comprometido, garantimos o normal funcionamento" - e o DIA. Apesar de "alguns constrangimentos pontuais no abastecimento destes produtos no último fim de semana", a dona do Minipreço compensou "com recurso a outros fornecedores nacionais" com os quais também trabalha". Agora, a situação está "totalmente normalizada" e os "abastecimentos regulares devidamente assegurados".

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