Renault reinventa berço dos automóveis para a era elétrica

Com mais de 50 anos de história, a fábrica da Renault em Douai, no Norte de França, é um exemplo de como a transição energética é um processo de reinvenção que não se limita à estrada. Há todo um processo no lado industrial, adaptando-se a novos métodos e a uma visão inovadora do automóvel como elemento sustentável da sociedade atual.

Pedro Junceiro/Motor24
Com mais de 50 anos de história, a fábrica da Renault em Douai, no Norte de França, é um exemplo de como a transição energética é um processo de reinvenção que não se limita à estrada. Há todo um processo no lado industrial, adaptando-se a novos métodos e a uma visão inovadora do automóvel como elemento sustentável da sociedade atual.

À medida que a indústria automóvel acelera para a eletrificação, os processos de produção ganham também precisão e clareza sem precedentes na procura por maior eficiência e polivalência. Percebendo a importância da reinterpretação dos princípios de produção automóvel, a Renault estabeleceu no Norte de França aquilo que chama de ElectriCity, um trio de fábricas interligadas para a produção de automóveis 100% elétricos. Com mais de 50 anos de história e dez milhões de veículos produzidos, Douai tem um peso muito forte na Renault. Atualmente, ao lado de alguns dos modelos de combustão interna em fim de ciclo, o foco está na produção do novo Mégane E-Tech, a que se juntará o futuro R5 (estando também nas cartas a produção de um SUV elétrico de segmento C). A segunda fábrica é Maubege, berço do Kangoo e dos seus primos Nissan Townstar e Mercedes-Benz Citan/Classe T, mas também, potencialmente, do futuro sucessor do Nissan Micra. Por fim, em Ruitz, produzem-se as caixas de velocidades para os futuros modelos. Combinando esses três locais, a Renault ambiciona uma produção de 400 mil veículos por ano, com uma força de trabalho de cinco mil empregados.

Domínio robótico

Numa oportunidade rara, a Renault abriu as portas de Douai a um leque muito restrito de jornalistas, oferecendo a visão de um centro de produção altamente robotizado. Aqui, num ambiente limpo e pautado pelos silvos hidráulicos das centenas de robôs, elevadores e, ocasionalmente, pelo motor de um automóvel já terminado e pronto para os seus testes de validação, vê-se passado e futuro em coexistência. No local onde ainda hoje nascem os Renault Espace, Scénic e Grand Scénic com motores de combustão, o Mégane E-Tech ocupa já a grande parte das operações de produção, valendo-se daquilo que a Renault apelida de ASL, ou seja, Alliance Standard Line, que permite desta forma que, em sucessão, um Mégane elétrico possa estar a ser produzido após um Espace com motor de combustão. Mais importante ainda, representa adaptabilidade entre os diversos modelos da Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi.

Compreendendo dois andares, a fábrica de Douai é um encadeado de linhas e de movimentos em cruzamentos sucessivos. Partilhando os corredores com os funcionários (e visitantes), os veículos autónomos de transporte de peças (AGV) também circulam, seguindo riscas traçadas no chão para que saibam exatamente qual a estação de trabalho a seguir.

Entre as melhorias do padrão da linha ASL está o reforço da presença robótica: atualmente, podem trabalhar dez robôs em simultâneo no mesmo veículo, quando anteriormente eram seis. Paralelamente, num passo que a Renault considera fundamental para a qualidade dos seus modelos, a inclusão de uma nova tecnologia de verificação milimétrica da estrutura (aquilo que chamam de body in white), com recurso a câmaras que medem 100% do automóvel, alertando para qualquer desvio entre painéis. É aqui, neste processo de verificação, que os humanos ainda têm papel importante, ao acompanharem em tempo real essa mesma medição, procurando então por eventuais lapsos para retoque imediato. No total, a intervenção humana representa cerca de 2% do total das operações de produção.

Prioridade aos elétricos

Para a Renault, a prioridade é o aumento da produção do Mégane E-Tech, que está atualmente nas 100 unidades por dia, esperando-se um aumento gradual até chegar ao plano idealizado de 400 por dia. Porém, o panorama é ainda incerto: a constante disrupção no fornecimento de componentes, mais concretamente, dos semicondutores, obrigou já a uma paragem de duas semanas na produção do novo Mégane E-Tech. Pierre-Emmanuel Andrieux, diretor da fábrica de Douai, explica que essa paragem derivou da intenção de "acumular stock para assim evitar cenários constantes de paragens e retomas na produção".

A expectativa é que até ao verão não sejam necessárias novas paragens. Andrieux aponta a situação na China, onde as medidas restritivas contra a covid-19 são mais agressivas, como a mais problemática ao causar enormes constrangimentos nos portos locais: "Todos esperam pela sua vez nos portos, para nós também...é complicado", concede.

Por outro lado, rebatendo os muitos temores de que a eletrificação traria uma redução no número de trabalhadores necessários, o responsável por Douai garante que a passagem para a eletrificação não teve impactos na quantidade de funcionários da fábrica, explicando que algumas funções que desapareceram foram substituídas por outras novas.

Nova gigafábrica como alicerce

Outra das premissas da Renault é tornar a sua cadeia de fornecimento mais verde e a logística mais eficiente. Nesse sentido, junto à fábrica de Douai irá nascer uma gigafábrica de baterias, fruto de uma parceria entre a Renault e a Envision, pelo que o fornecimento destes componentes fundamentais será simplificado a partir de 2024 - atualmente, as baterias são fornecidas pela LG Chem e as suas "caixas" vêm da Sérvia.

A implementação de todos estes avanços representa, segundo Luciano Biondo, diretor da ElectriCity, a concretização das intenções do plano de eletrificação "Renaulution", estabelecido pelo CEO Luca de Meo, e que previa a criação de uma fábrica de ponta elétrica no Norte de França. "Para incorporar os veículos elétricos nos nossos processos, investimos mais de 550 milhões de euros para transformar a fábrica de Douai", refere Biondo, acrescentando ainda que "produzir em França é possível no contexto atual, mas com uma condição: ser autónomo na cadeia de fornecimento e na segurança dos trabalhadores".

Mais Notícias

Veja Também

Outros Conteúdos GMG