Analistas. Compra da TVI poderá avançar "com base num outro valor"

Analistas ouvidos pelo Dinheiro Vivo admitem que o negócio poderá ser retomado, em futuras negociações, mas com outro valor em cima da mesa.

A Cofina deixou cair a compra da TVI depois de ter falhado o aumento de capital de 85 milhões, mas no mercado a decisão do grupo de media não é vista como necessariamente o fim do negócio. A operação poderá avançar, mas com base num outro valor. A compra da TVI tinha um enterprise value de 205 milhões.

"Estes processos são sempre muito complexos, podem haver volte faces baseados numa negociação", diz Luís Mergulhão, presidente e CEO do Omnicom Media Group. O negócio pode ter um outro desfecho "com a operação a se concretizar com base num outro valor", diz o responsável do grupo de agências de meios, empresas que decidem o investimento publicitário das marcas, que lembra que a posição da Prisa, que já anunciou que vai avançar com as todas as ações previstas no acordo de compra e venda contra a Cofina, vai obrigar as partes a negociar.

Visão partilhada por Filipe Garcia, economista da IMF. "Hoje qualquer negócio vale menos do que há uma semana", diz. "É normal que em condições alteradas de mercado que os acionistas se questionem se faz sentido subscrever ações e ir ao aumento de capital e que, sendo essa subscrição total uma das condições da oferta, que esta caia", continua. Mas isso, "não implica que o negócio esteja morto", considera o economista. O mesmo "pode ser revisitado de outras maneiras. Neste momento, a Cofina não tinha condições para ir à oferta".

Contudo, fontes do mercado ouvidas pelo Dinheiro Vivo questionam porque os acionistas de referência da Cofina não optaram por subscrever os direitos das ações sobrantes do aumento de capital, situação que abriu espaço para que não fosse cumprida uma das condições da oferta.

André Pires, analista da XTB, considera "plausível" este desfecho do negócio, "dado o nível atual de incerteza nos mercados financeiros", mas deixa um alerta. "A ação pode ter consequências. Não só em termos de custo de oportunidade, mas também devido a possíveis compensações e punições a serem exigidas pela Prisa".

"Quanto ao impacto na valorização dos ativos da TVI, julgo que, depois de regressar aos valores pré-especulação do mercado em torno da aquisição, não deverão ser significativas", diz.

O fim da operação não tem impacto imediato nas decisões de investimento ou na forma de trabalhar das agências de meios, diz Manuel Falcão, "Mesmo depois do anúncio de compra continuamos a comprar à TVI o que era da TVI e à Cofina o que era da Cofina. O meu comportamento enquanto agência é o mesmo é comprar com base nas audiências de cada grupo", explica o membro do comité executivo da agência de meios Nova Expressão. "É prematuro fazer outro tipo de cenários. A TVI continua a funcionar e a Cofina também, reforça, lembrando que em nenhuma fase desta operação, que arrancou em setembro do ano passado, se "tinha consolidado compras" de media dos dois grupos.

Luís Mergulhão não tem dúvidas que a decisão da Cofina, no mês em que era apontado a conclusão da operação, "acontece no pior momento de todos, quando se antecipava num ajustamento em baixa da Bolsa".

A não avançar de maneira nenhuma vai ter "um impacto grave" no sector dos media. A começar pelo momento em que ocorre "de desacelaração da economia mundial, provocada pelo surto do coronavírus e de posições isolacionistas de grandes países, que levou a um reajustamento técnico da Bolsa."

"Para um país como Portugal, com uma dimensão pequena, a crise quando acontece é mais funda. Estamos muito dependentes do turismo e este não será um efeito passageiro", diz o CEO do Omnicom Media group.

Surge também num momento de fragilidade da TVI, que luta pela reconquista da liderança das audiências de televisão. "Não havendo ao lado da SIC um concorrente com dimensão é pior para o mercado, para as marcas que não têm audiências para anunciar, e também para o líder que passa a ser líder de algo cada vez menos relevante", diz Luís Mergulhão.

"Com o acionista, focado no mercado core, Espanha, a TVI vai ter cada vez mais dificuldade em se posicionar como um challenger da SIC", diz ainda.

Não havendo uma consolidação, as plataformas de distribuição de televisão, como NOS, Meo ou Vodafone, também saem a perder pois "também precisam de produtores de conteúdos em Portugal para enriquecer a sua oferta".

"Tenho pena que tenha havido uma oferta séria pela TVI e que esta tenha sido chumbada pelos reguladores", diz Luís Mergulhão, referindo-se à tentativa de compra do grupo Media Capital pela Altice."Desde então a entidade perdeu valor, o sector perdeu valor. O país não ficou a ganhar com isto".

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