Analistas. “O elevado endividamento é a maior fragilidade da Altice”

Patrick Drahi, fundador da Altice
Patrick Drahi, fundador da Altice

Durante cerca de dois anos foi um não parar de aquisições, mas depois dos mais de 15 mil milhões na Cablevision, a Altice parece estar a dar sinais de que vai fazer uma "pausa".

Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB, e Steven Santos, gestor do BiG, comentam a política de aquisições dos donos da PT que, nos últimos dois anos, já soma mais de 50 mil milhões de euros. Será esta uma estratégia para continuar? Quais os riscos?

O grupo Altice anunciou mais uma compra nos EUA, a Cablevision. A ambição não parece que se vai ficar por aqui. Quais os potenciais novos targets?

Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. “O gigante das telecomunicações europeu já manifestou a sua intenção em fixar-se no top 3 das operadoras no mercado americano. Com a aquisição da semana passada, somada àquela que foi realizada no princípio do ano, a empresa sediada na Holanda alcança a quarta posição na maior economia mundial.”

Steven Santos, gestor do Big. “Dúvido que a Altice fique por aqui relativamente a aquisições, porque está muito focada em expandir o seu império global, aproveitando os reduzidos custos de financiamento praticados actualmente.”

O grupo tem músculo financeiro para continuar nessa política de aquisições?

Steven Santos, gestor do Big. “A estratégia altamente alavancada que a Altice está a executar não exige um músculo financeiro muito significativo. O grupo está a explorar o contexto actual de baixíssimos custos de financiamento para levantar dívida em seu nome ou em nome das empresas que vai comprando, sendo que estas irão assegurar uma parte importante dos encargos financeiros. Como as operadoras de telecomunicações que tem adquirido são maduras e libertam elevados fluxos de caixa, a Altice conta com o músculo financeiro de cada empresa comprada para pagar os juros e reembolsar a dívida agora contraída. A estratégia seguida pela Altice seria difícil de replicar em sectores com receitas menos previsíveis e com menor geração de resultados financeiros.”

Alguns analistas têm referido o endividamento do grupo como uma potencial fragilidade. Como comenta?

Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. “Esta é a grande questão do momento. A onda de aquisições a que temos assistido são financiadas essencialmente através de emissão de corporate bonds. Mais de 80% do negócio com a Cablevision foi financiamento com recurso a emissão de obrigações. Existem naturalmente receios de que a dívida total da empresa nos balanços esmague o negócio da companhia. Exemplo disso é a queda do preço das obrigações depois do anúncio de nova emissão da Cablevision para cobrir parte da operação de aquisição. Caiu cerca de 10%, fruto da percepção de risco dos investidores de obrigações (dívida).”

Steven Santos, gestor do Big. “O elevado endividamento afigura-se como a maior fragilidade da Altice. A Altice apostou numa estratégia de crescimento rápido via aquisições e está a apoiar-se em múltiplos instrumentos de dívida, como crédito bancário, obrigações garantidas e não-garantidas e empréstimos alavancados (leveraged loans).

Como algumas das obrigações emitidas pela Altice International nos últimos anos têm cláusulas (covenants) que limitam o endividamento face aos resultados operacionais (EBITDA), a actual estratégia de crescimento poderá ter de ser reformulada, de modo a reduzir a alavancagem. No entanto, a Altice poderá optar por angariar capital através das empresas que tem comprado, para evitar as restrições impostas pelas cláusulas de obrigações já emitidas.”

Para financiar alguns dos negócios, o grupo emitiu obrigações. Há risco no futuro?

Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. “O risco está do lado dos investidores destas obrigações. Com a percentagem de dívida da empresa a subir, é natural que as principais agências de rating alterem a qualidade do emitente. Nesse sentido, no limite, com a continuidade da política de aquisições, os compradores de obrigações da empresa podem perder parte do investimento. Por outro lado, uma vez que neste negócio parte da divida é emitida em dólares, com a previsível subida da taxa de juro nos Estados Unidos da América, o preço das obrigações desce, diminuindo o património dos respectivos detentores.”

Steven Santos, gestor do Big. “Sim. A Altice emitiu diversos instrumentos de dívida. No caso das obrigações, o principal risco é a subida das taxas de juro de referência, que elevaria os encargos financeiros e reduziria o capital disponível para investir na actividade ou para concretizar novas oportunidades. Porém, note-se que a Altice tem cerca de 6 mil milhões de euros em obrigações de taxa variável, que apresentam um comportamento mais favorável do que as obrigações de taxa fixa num cenário de subida dos juros.

No caso dos empréstimos alavancados (leveraged loans) colocados junto de investidores institucionais e das obrigações garantidas, activos fixos da Altice são usados como colateral, cuja propriedade poderá ser transferida para os credores se a Altice não cumprir determinados indicadores financeiros. Por isso, a Altice está pressionada para gerar resultados e extrair sinergias nos vários mercados geográficos onde adquiriu empresas. “

O grupo já revelou ambições igualmente na área dos media, procurando sinergias ao nível dos conteúdos com o negócio das telecom. Como encaras o mérito desta estratégia?

Pedro Ricardo Santos, gestor da XTB. “O negócio do cabo enfrenta hoje desafios novos, especialmente no mercado americano. Com a entrada no mercado dos players das plataformas de streaming, há cada vez mais utilizadores a migrarem o serviço, largando o cabo. Esta onda de fusões e aquisições no negócio cabo acontece numa altura em que a necessidade de concentração de recursos para adaptação ao mercado é evidente. Do mesmo modo, a procura de oportunidades na área dos media enquadra-se nesta necessidade de adaptação.”

Steven Santos, gestor do Big. “Para um grupo amplamente presente no sector das telecomunicações como a Altice, a materialização de sinergias ao nível dos conteúdos faz todo o sentido. A produção e distribuição de conteúdos abre a porta a maiores receitas publicitárias, o que é do interesse de um grupo que pretende diversificar as suas fontes de receitas. “

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