Coronavírus

As máscaras podem ser ‘sexy’ e a têxtil está a trabalhar para isso

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Com milhares de trabalhadores em lay-off, a indústria reinventa-se para dar resposta ao combate da covid-19

Com a certeza que o fim do estado de emergência nos obrigará a todos a usarmos máscaras em ambientes fechados, a indústria portuguesa desdobra-se para dar resposta às necessidades de 10 milhões de portugueses. E de muitos outros milhões de europeus também. E o Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário – Citeve, que tem a responsabilidade de certificar estes produtos, não tem mãos a medir. Só nas últimas duas semanas chegaram já cerca de 1500 amostras, entre materiais, matérias-primas e produto final, para aprovação e os laboratórios estão a trabalhar das sete à meia-noite. E ao fim de semana. “Estou muito contente com a reação do sector que, mais uma vez, mostrou que é capaz de se reinventar, agarrando as oportunidades que se apresentam”, diz o diretor-geral do Citeve, Braz Costa.

Enquanto falava com o Dinheiro Vivo, na dupla recepção improvisada no átrio do centro, em Vila Nova de Famalicão – ninguém de fora entra nas instalações -, duas empresas entregavam as suas amostras, enquanto, mais sete ou oito aguardavam a sua vez lá fora. Um cenário se repete, ao longo do dia, todos os dias. E há já muitas centenas de máscaras comunitárias entregues para avaliação. “É o produto mais apelativo para as empresas de confeção portuguesas, por ser o mais parecido com a produção tradicional do sector”, reconhece Braz Costa. Que acredita que o próprio mundo da moda vai sofrer alterações, constituindo uma oportunidade para Portugal. “Não temos dúvidas que a utilização de máscaras e até de vestuário que permita algum nível de proteção relativamente a bactérias e a vírus é algo que vai estar em cima da mesa também do fast fashion. É uma tendência que pode não ficar para a vida toda, mas que vai, com certeza, ficar para os próximos anos. E Portugal está bem preparado para agarrar esta oportunidade, não a pode deixar fugir”, frisa.

No entanto, e embora admita que as empresas têm capacidade para entregar “muitos milhões de máscaras” por semana, muito acima das necessidades nacionais, Braz Costa apela a que se concentrem primeiro no mercado nacional. “Há muitos pedidos da Europa e ficamos muito contentes que haja clientes internacionais interessados, mas gostávamos que as empresas abastecessem, primeiro, Portugal e só depois atacassem o mercado internacional”, defende.

No dia em que o Dinheiro Vivo visitou o Citeve, ainda não eram conhecidas as primeiras certificações de máscaras comunitárias reutilizáveis, embora já houvesse empresas com matérias-primas homologadas para a produção das máscaras, como é o caso da Tintex Textiles e da A. Sampaio & Filhos, duas das empresas mais premiadas internacionalmente pelas suas inovações. Mesmo assim, Ricardo Silva, da Tintex, era um dos muitos que aguardava para entregar mais amostras, designadamente de novos materiais para batas cirúrgicas reutilizáveis e de máscaras reutilizáveis de nível 3 – as que garantem uma filtração de até 70% das partículas e que se destinam a serem usadas pelo cidadão comum – criadas por um cliente em parceria com a empresa.

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Com 135 trabalhadores, alguns dos quais em lay-off parcial desde a semana passada, a Tintex, de Vila Nova de Cerveira e especialista em tinturaria e acabamentos, mas que se verticalizou e investiu numa unidade de tricotagem de malhas, está a trabalhar com cerca de 200 empresas neste dossier das máscaras comunitárias reutilizáveis. E admite já chamar alguns dos operários que tem em lay-off para retomarem a laboração em pleno. E criou, até, uma equipa específica de seis pessoas só para o contacto direto com os clientes deste novo segmento, diz Ricardo Silva.

Também Miguel Mendes, da A. Sampaio & Filhos estava no Citeve, à procura de informação sobre as várias máscaras que entregara, já, para certificação. Com 200 trabalhadores, a empresa de Santo Tirso continua a laborar. “Claro que as encomendas diminuíram, mas não temos ninguém em lay-off. O nosso objetivo era conseguir chegar ao fim de abril, porque isto de salvar o mundo no sofá é só para os ricos, nós temos muitas famílias que dependem de nós e muitos parceiros a montante e a jusante que estão a contar connosco”, diz Miguel Mendes. Para já, e enquanto não conseguir obter a folga desejável nos testes de validação do Citeve, não vende nada. “A nossa máscara de nível 2 – destinada a profissionais em contacto direto com o público – passou nos testes assegurando 90% de filtração que é aquilo que as normas exigem, mas eu ficaria mais confortável se a filtração fosse um bocadinho acima. Estamos à espera dos resultados de outras combinações de malha”, explica.

Número de certificações vai disparar
As primeiras cinco certificações de máscaras reutilizáveis foram conhecidas quase à meia-noite de quarta-feira. Os dados são atualizados todos os dias e expectativa é que, durante o fim de semana, esse número possa ultrapassar já as duas dezenas de homologações. Mas que irão disparar à medida que forem sendo concluídos os testes, alguns deles muito demorados, designadamente os que se prendem com a resistência à lavagem destes produtos. As normas aprovadas exigem uma resistência mínima a cinco lavagens, o que leva, pelo menos, um dia a testar. Ou dez, para as empresas que querem certificar produtos para 50 lavagens. Validado o patamar mínimo, é emitida a certificação, que depois será alvo de aditamento quando forem concluídos os restantes testes.

E a Daily Day, marca do grupo LaGofra, em Paços de Ferreira, foi uma das primeiras cinco certificadas, nas reutilizáveis, um artigo de nível 3 para uso geral, que desenvolveu em parceria com a Tintex. Colocou-as logo à venda online e a procura foi de tal ordem que o sistema de pagamentos automático bloqueou e os stocks esgotaram ao fim de menos de 24 horas. “Tive que criar uma equipa de comunicação, com uma pessoa afeta só às redes sociais, outra aos emails e uma aos telefones, para conseguir dar uma resposta atempada e profissional aos pedidos”, diz Filipe Prata.

Receberam “milhares de solicitações”, muitas do exterior, ou não fosse o grupo um fornecedor habitual de grandes marcas internacionais. No entanto, Filipe Prata garante que não exportará nada enquanto as necessidades em Portugal não estiverem satisfeitas. “Somos empresários, mas, antes de mais, somos cidadãos e assim como agradeci o apoio do Estado quando precisei de colocar os meus trabalhadores em lay-off, quero agora retomar em pleno, porque as solicitações são aos milhares, e quero assegurar que o Estado continua a ter capacidade para ajudar outros que precisam”, diz.

Filipe Prata promete, também, deixar em permanência uma parte da produção para a venda direta ao consumidor final. “As últimas 24 horas foram as mais intensas que vivi em nove anos na empresa, mas tenho a equipa toda mobilizada e todos contentes porque ganhamos um desafio”, frisa o empresário, para quem, a crise da covid-19 veio mostrar o melhor da indústria e das empresas nacionais. “Só os portugueses têm a estaleca de se adaptarem de forma tão rápida às circunstâncias, ajustando-se, de um dia para o outro, para desenvolverem novos produtos e ajudarem a salvar as suas empresas e as dos restantes sectores”, sublinha.

Máscaras reutilizáveis, mas com acabamentos funcionais
Também na Estamparia Adalberto, que teve as suas máscaras reutilizáveis para uso profissional, nível 2, aprovadas na quarta-feira, a procura disparou com a notícia. “Está a ser uma loucura total. O site está constantemente a ir abaixo, os telefones não param”, diz a CEO da empresa de Santo Tirso. A empresa está já a aceitar encomendas e a dar prazos de entrega, procurando “reforçar muito a produção”, porque a procura “é imensa”, designadamente das grandes cadeias de retalho internacionais. Embora este novo produto não permita, ainda, à Adalberto retomar, em pleno, a sua atividade, a empresa está a subcontratar a produção das máscaras a confeções que estavam em lay-off e vão deixar de estar. Têm já 500 pessoas envolvidas neste processo e contam duplicá-las.

Esta será, provavelmente, uma das mais completas máscaras existentes no mercado já que é composta por quatro camadas, as duas externas de malha e um filtro duplo para fazer a retenção de partículas. E para lhe acrescentar valor, a Estamparia Adalberto recorreu aos acabamentos funcionais: as camadas interiores têm agentes antimicrobianos e de retenção de bactérias e vírus, conjugados com um gestor de humidade e antiodor nas malhas exteriores, como os usados nos equipamentos desportivos. “A probabilidade do vírus entrar nesta malha é quase nula, mas mesmo que penetre, fica retido nas camadas interiores e, como não se movimenta nem se alimenta, morre”, diz Susana Serrano. Os princípios ativos destes acabamentos funcionais duram entre 45 a 50 lavagens, mas a empresa aguarda, ainda, a validação do Citeve para idêntica capacidade de retenção de partículas, porque ainda não foi possível concluir os testes para as 50 lavagens.

Para já a produzir as máscaras em preto e conta fazer 500 mil na próxima semana, mas quer, na segunda semana de maio, estar a fazer esse valor diariamente, no mínimo. E vai poder fazê-las numa infinidades de cores e estampados. “Neste momento, como a procura é muito grande e todos qurem reabrir, estão a levar as máscaras pretas que produzimos para stock. Mas temos já dois clientes franceses a pedir para lhes fazermos máscaras personalizadas”, refere.

E esta é uma área de negócio para manter? Miguel Mendes é perentório: “Se tudo isto acabasse já amanhã, por mim estava ótimo. Ficava com o conhecimento ia à minha vida, e voltávamos à atividade normal. Quanto tempo isto vai demorar não sabemos, mas devemos estar preparados e devemos proteger-nos. Para já, isto foi feito para resolver um problema pontual. O mercado é que dirá se é uma coisa de futuro”.

Já o diretor-geral do Citeve acredita que o negócio acabará por retomar alguma normalidade, quanto mais não seja, porque “há mais vida além da covid e todos teremos de andar vestidos”. Mas essa normalidade vai tardar e a doença traz consigo novos desafios, designadamente em relação ao retalho. “Como é que o consumidor se vai sentir confortável a provar uma camisola que não sabe quem provou antes? Vai ser necessário desenvolver soluções para os espaços comerciais que deem segurança aos clientes. É um tema em que estamos já a pensar, mas lançamos o repto às marcas para que se juntem a nós para discutir o discutir”, frisa Braz Costa.

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