Atraso na venda de ativos levou YDreams a pedir ajuda para dívidas

A quebra de contratos com o Estado, em 2010, levou à perda de 45% do volume de vendas da empresa de António Câmara
A quebra de contratos com o Estado, em 2010, levou à perda de 45% do volume de vendas da empresa de António Câmara

3 de novembro de 2014. O presidente da YDreams, António Câmara, e os vogais, Edmundo Nobre e José Miguel Remédio, reuniram-se em Monte de Caparica, a sede da tecnológica. Após terem feito a análise às estimativas para o final de 2014, deliberaram, em conjunto com a ES Ventures, o pedido de processo especial de revitalização (PER) da YDreams. Uma decisão tomada pelos quatro representantes, com 89,5% do capital, na sequência de "atrasos sucessivos na concretização das vendas de ativos e na angariação de investimento".

Aos atrasos somou-se o “agravamento crescente da situação financeira” da empresa.Estes dois elementos “colocaram em risco a sobrevivência da empresa, sobretudo devido à pressão dos credores e à exposição a potenciais processos judiciais por incumprimento de compromissos, segundo o PER, consultado pelo Dinheiro Vivo.

Os problemas começaram com a “crise instalada em 2009”. A anulação da maioria dos contratos do Estado provocou um rombo de 45% no volume de vendas. Uma dependência que começou a ter consequências no final do ano seguinte, com uma situação de incumprimento quer com o Estado quer com as instituições bancárias. Esfumaram-se as expectativas de vendas anuais avaliadas em 20 milhões de euros. Na mesma altura, o número de colaboradores foi reduzido em 25%, de 150 para 100 colaboradores.

2010 foi o primeiro ano de prejuízos avultados para a YDreams, com 2,117 milhões de euros de resultados negativos. Um número que mostra a falência técnica da tecnológica. “Os prejuízos acumulados absorveram a totalidade do capital social, sendo os capitais próprios negativos, pelo que a continuidade das operações depende do apoio continuado dos acionistas. A reconstituição dos capitais próprios é imprescindível.” O alerta foi repetido pela auditora após os resultados de 2011 e 2012. Estes anos ficaram marcados por dois aumentos de capital, insuficientes para retirar a YDreams do cenário de falência técnica.

Aposta estrangeira rentável

A YDreams lamenta não ter disposto do “talento de gestão necessário para converter a superioridade tecnológica em resultados no mercado”. A localização também é apontada como uma das razões: impediu-a de “beneficiar de ecossistemas estruturados para negócios de tecnologia”, o que levou a empresa a apostar no mercado internacional. Uma escolha que permitiu “identificar novas oportunidades, lideradas por “campeões””, nota a YDreams. Entre eles estão várias divisões, que foram alvo de spin-off (separação) da empresa-mãe nos últimos anos.

A YDreams Brasil e a Audience Entertainment são ativos neste momento à venda. O Dinheiro Vivo apurou que a YDreams Brasil está a negociar “sobretudo com empresas norte-americanas e inglesas”, cujas identidades não poder ser reveladas devido a acordos de confidencialidade. Conversações que decorrem “há mais de um ano” e que deverão corresponder à venda da posição de 65% da YDreams Med, detida a 100% pela YDreams Informática, adiantou fonte oficial da empresa brasileira.

A “Internet das Coisas”

A empresa liderada por António Câmara refere que tem sido líder em serviços baseados na “localização, realidade aumentada, eletrónica impressa e robótica”. Áreas que a YDreams classifica como “tecnologias fundacionais” da “Internet das Coisas”. Este conceito refere-se à ligação à Internet de diferentes dispositivos, tais como automóveis ou equipamentos para cuidados de saúde.

A Cisco, uma das maiores empresas de software, avaliou este mercado em 14,4 biliões de dólares em maio de 2013. Uma área que a YDreams considera que se pode traduzir num “comando global do mercado. No entanto, o grupo de empresas YDreams tem que ultrapassar a difícil situação económica em que se encontra atualmente, e para isso decidiu candidatar-se a um PER”. Um processo necessário para “atingir o domínio neste mercado”.

A empresa quer alcançar esse desígnio através de produtos das suas participadas. O software YVision é mostrado como o “mediador de eleição para a implementação da Internet das Coisas”. Além disso, a Printoo, uma plataforma baseada em eletrónica impressa, e a Ynvisible, uma “plataforma que permite a qualquer pessoa fazer uma partilha nas redes sociais através de botões existentes em qualquer tipo de superfície”, são os elementos apresentados para alavancar a empresa fundada em 2000.

“O plano de recuperação vai ser aprovado pelos credores”, referiu ao Dinheiro Vivo fonte ligada à operação na semana passada, revelando otimismo. Está previsto ainda o pagamento de todas as dívidas aos 180 credores, assim como a entrada em Bolsa de algumas das suas participadas.

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