aviação

Boeing escondeu dos pilotos ‘software’ ligado aos acidentes

Boeing
REUTERS/Brendan McDermid

Sindicatos de vários países garantem que não tinham conhecimento do MCAS nem da forma como atuar em caso de falha.

Pilotos garantem que a Boeing não os informou sobre o Maneuver Characteristics Augmentation System (MCAS), o software que puxa o nariz do avião para baixo se verificar que este está a subir a um grau demasiado inclinado.

“A Boeing não informou a comunidade aérea internacional de que tinha instalado o sistema MCAS nos seus 737 Max. Não estava nos manuais e não houve formação específica”, afirma um piloto que opera estas aeronaves ao El Economista, garantindo que apenas lhes foi comunicado que o manuseamento era igual ao do modelo anterior.

A crítica é partilhada por pilotos de países como os EUA, Canadá, Espanha, Argentina ou México, que garantem que a primeira vez que ouviram falar no software de compensação de ângulo foi em novembro de 2018, após o acidente da Lion Air, na Indonésia.

Nesse sentido, segundo as primeiras investigações, a falha deste sistema e o desconhecimento do piloto sobre como atuar poderão estar por detrás tanto do acidente na Indonésia como do mais recente com o 737 Mac da Ethiopian Airlines.

De acordo com as informações recolhidas através das caixas negras, em ambos os casos, a tripulação pediu para voltar para terra depois de ter consultado o manual sem sucesso.

“Nenhum dos pilotos da Southwest foi avisado da existência do MCAS no 737 Max quando foi introduzido na aeronave. Os pilotos não foram informados sobre o sistema depois do acidente da Lion Air”, garante ao diário espanhol o diretor de comunicação da SWAPA, o sindicato de pilotos da norte-americana Southwest, uma das companhias com mais aviões deste modelo na sua frota.

Leia também: Fábrica e pista da Boeing repletas de aviões proibidos de voar. Veja as imagens

Fontes dos sindicatos argentinos asseguram que o desconhecimento do software era “generalizado”. Em Espanha, Javier Martín Chico, responsável do Sepla, sindicato da aviação, afirmou ao diário que os pilotos “não estavam treinados para atuar de forma rápida em caso de falha do sistema”.

Apesar de o sindicato da Air Canadá não se ter pronunciado sobre o assunto, um piloto confirmou ao El Economista que nunca tinha ouvido falar do MCAS antes do episódio da Lion Air. “Não nos disseram nada e somos nós que pilotamos o avião”, adiantou.

Em oposição, no México, a associação sindical de aviadores (ASPA) explica que os pilotos da Aeroméxico receberam a devida formação sobre o sistema, incluindo como atuar perante eventuais falhas.

Depois do acidente na Indonésia, a Boeing publicou um comunicado onde alertava que uma falha nos sensores do ângulo de ataque poderia levar a uma ativação automática do sistema de compensação de profundidade e direcionar o nariz do avião para baixo, fazendo com que o piloto perdesse o controlo. Na mesma nota, explicava ainda como atuar nesses casos (desativando o sistema), um procedimento que desconheciam. “Antes do primeiro acidente, a formação era um curso online de uma hora”, conta a Sepla.

A Administração Federal de Aviação (FAA) dos EUA deu até abril para a Boeing atualizar o sistema de compensação, os requisitos de formação e os manuais para a tripulação. Ainda que não esteja especificado o software nos requisitos de formação, a FAA garante que estes incluem os procedimentos a tomar quando o ajuste do estabilizador está fora do controlo.

A Boeing defende que “o manual menciona o procedimento a seguir para manobrar de forma segura em caso de falha” e que estão a trabalhar “estritamente com a FAA para a atualização do software e correspondente formação para os pilotos”.

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