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Bruno Bobone. “A crise acabou por trazer resultados positivos”

Bruno Bobone Foto:  Gustavo Bom / Global Imagens
Bruno Bobone Foto: Gustavo Bom / Global Imagens

Entrevista com o presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Bruno Bobone

Partir à descoberta de novos mercados está no ADN das empresas portuguesas, mas a crise financeira veio dar um empurrão extra. As PME estão a ir cada vez mais longe no mapa, conta Bruno Bobone, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa (CCIP), e nem as crises no Brasil ou Angola travaram a internacionalização. As conclusões estão no primeiro inquérito do Observatório InSight, uma iniciativa da CCIP, que até ao final do ano deverá ter uma segunda edição.

Quais são as principais dificuldades apontadas pelas PME quando pretendem internacionalizar?
O estudo que lançámos sobre o desempenho das PME exportadoras portuguesas, o Insight, pôs em evidência a natureza comercial das três principais dificuldades sentidas neste processo complexo que é a internacionalização. Na generalidade, os empresários portugueses exportadores apontam a dificuldade em encontrar novos clientes, um ambiente concorrencial muito intenso nos mercados externos e a falta de notoriedade das empresas portuguesas.

Encontramos, ainda, com uma expressão relevante, a dificuldade provocada pelos elevados custos com tarifas, burocracias, impostos locais, taxas alfandegárias, entre outros.

No entanto, o que é interessante verificar é a pouca relevância de factores como questões linguísticas, barreiras culturais ou a distância física dos mercados de destino. De facto, não parecem ser estas as principais preocupações dos empresários portugueses, o que comprova o intensificar do processo de globalização e a cada vez maior facilidade em chegar a mercados externos.

Uma pequena nota para referir o facto de, na Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, estarmos a trabalhar em conjunto com um número cada vez maior de PME com bons projectos de internacionalização e que, por isso mesmo, conseguem obter financiamento para crescer nesta área. Este é um sinal muito positivo e uma prova clara de que a internacionalização continua a ser uma aposta importantíssima no crescimento das empresas portuguesas.

Em que medida a crise em Portugal contribuiu para as empresas “darem o salto”? Notou-se uma diferença expressiva na quantidade de empresas que procuram outros mercados?
O objectivo de crescer está na génese da grande maioria dos processos de internacionalização das PME portuguesas: 72% das PME inquiridas para o Insight mencionam esse facto como uma das principais razões para o iniciar deste processo e garantir essa finalidade. É importante também salientar que, do total das empresas que participaram no estudo, 33% afirmam que a internacionalização teve como propósito crescer num contexto de saturação ou declínio do mercado interno e 24% para compensar a quebra do volume de negócios no mercado interno.

Parece-nos assim evidente que estão aqui espelhados os resultados da crise e a aposta na internacionalização como solução para o necessário crescimento das empresas. Numa certa medida, podemos mesmo afirmar que a crise acabou por trazer resultados positivos. O novo dinamismo das exportações e a expansão para novos mercados foram motores importantes na recuperação da economia portuguesa.

Temos assistido, na Câmara de Comércio, a uma procura cada vez maior por parte das empresas portuguesas de apoio aos seus processos de internacionalização, principalmente na vertente da exportação. A este número crescente de pedidos, temos respondido, nos últimos anos, com planos de acções internacionais mais ambiciosos e com uma diversificação maior dos mercados que escolhemos.

Depois de, em 2016, termos apoiado mais de 100 empresas em 14 missões empresariais, este ano – para além de economias ainda fora dos radares das PME portuguesas que abordámos em seminários, como a Zâmbia ou o Egipto – estivemos com delegações de empresas na Polónia, México, Costa do Marfim, Argélia, Irão, Marrocos, Panamá, Coreia do Sul, Roménia e vamos estar, agora em Setembro, em Israel e na Austrália. Superámos, assim, em nove meses, o número de missões que realizámos no ano passado. Para além das missões empresariais, temos apoiado cada vez mais empresas individualmente, em mercados e datas que as próprias empresas nos apontam, em mercados tão distintos como a Finlândia, Índia, Senegal ou Uruguai.

Que factores diferenciam os empresários portugueses? Quais são as suas principais características?
Podemos apontar como factores diferenciadores dos empresários e das empresas portuguesas a inovação e a qualidade dos produtos e serviços que oferecem, bem como a flexibilidade nos prazos de entrega, a fiabilidade no processo de negociação e no cumprimento do contrato, a não agressividade comercial – apesar do empresário português se revelar bastante persuasivo –, a facilidade de adaptação tradicional às diferentes culturas, a inexistência de “anticorpos” enquanto país e, finalmente, o domínio de línguas estrangeiras. Para além destas vantagens competitivas, deve referir-se que, nos mercados lusófonos e principalmente nos mercados africanos onde Portugal ocupa um lugar de destaque enquanto parceiro comercial, sem dúvida os laços históricos e a língua comum são também factores facilitadores.

As empresas familiares continuam a ter um peso muito grande na economia? Isso é um travão à internacionalização, ou essa ideia está ultrapassada?
Estima-se que entre 70 a 80% das empresas portuguesas sejam familiares e que representem 50% do emprego e 60% do PIB. De entre as PME portuguesas que responderam ao inquérito, cerca de 50% afirmam ser “donos” ou “accionistas”, o que revela uma percentagem relevante de empresas familiares e de pequena dimensão com a capacidade para a internacionalização.

Estes dados revelam, naturalmente, um peso muito importante na nossa economia. No entanto, não nos parece que constitua um travão à internacionalização.

Face às crises que se vivem em mercados como Brasil e Angola, tradicionalmente destino das empresas portuguesas, que outras portas se abriram? Em que mercados as PME estão a encontrar mais potencial e segurança?
A situação vivida em Angola e no Brasil e os reflexos nas exportações portuguesas para esses países, reforçam a necessidade de diversificar os nossos mercados externos. Apesar de serem dois parceiros comerciais relevantes para Portugal – entre Janeiro e Junho deste ano foram, respectivamente, os nossos 8º e 12º clientes – as empresas portuguesas têm tradicionalmente focado o destino das suas exportações na UE: 74,6% das exportações portuguesas tiveram como destino mercados comunitários, entre Janeiro e Junho deste ano. Este é um valor ainda relativamente alto e que se tem mantido sempre a cima dos 70% nos últimos anos.

Apesar disso, os países lusófonos continuam a ser, sem dúvida alguma, mercados naturalmente estratégicos para Portugal, isto apesar dos níveis de rentabilidade para as empresas portuguesas não se verificarem os mesmos hoje face a anos anteriores.
Entretanto, temos assistido a uma procura crescente por mercados menos explorados e o nosso plano de acções internacionais tem procurado responder a estes pedidos. Colômbia, Coreia do Sul, EAU, Kuwait, Israel, Irão, México, Panamá ou Rússia são geografias pelos quais temos sentido uma procura cada vez mais acentuada e que figuram entre os mercados que já abordamos ou queremos abordar, a curto prazo.

Na era da digitalização da economia, que evolução esperam encontrar nas conclusões do estudo InSight dentro de 5 ou 10 anos?
Apesar da distância geográfica do mercado ser um desafio apontado apenas por 16% das PME portuguesas, a digitalização da economia vai, por certo, facilitar a diversificação dos mercados de destino das exportações portuguesas, especialmente para os mercados mais distantes e que acreditamos terem um grande potencial para novos negócios. A digitalização da economia, ao aproximar mercados mas, também, ao facilitar os processos burocráticos e de regulamentação, facilitará e intensificará as trocas comerciais.

As perspectivas de crescimento do volume de negócios no comércio internacional são, na óptica das PME exportadoras, e na nossa, muito positivas. Acreditamos, assim, que dentro de 5 ou 10 anos, o número de empresas portuguesas exportadoras será superior ao actual e que estas se manterão como um dos principais impulsionadores da economia portuguesa. E a Câmara de Comércio e Industria Portuguesa manter-se-á certamente ao lado destas empresas, ajudando-as a crescerem e, com elas, o nosso país.

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