Bruno Mota: "Portugal tem de ser uma smart nation para atrair investimento e crescer"

O fundador e líder da tecnológica Bold, nascida em 2009 e que em 2017 foi a única 100% no ranking do FT de empresas que mais rápido crescimento, quer crescer 20% neste ano. A transformação digital vai ajudar. Como o vão os novos contratos e a ligação entretanto estabelecida com a francesa Devoteam. Ao DV, o cofundador e CEO da hoje Bold by Devoteam aponta ambições para a empresa e para o país.

A Bold prepara-se para abrir escritório no Porto, em plena Avenida dos Aliados. Porquê essa aposta?
É um espaço fantástico, mesmo ao lado da câmara municipal, uma localização ótima, e a aposta tem que ver com a dimensão da equipa que já temos a norte: são mais de 100 pessoas, o que requer um escritório diferente. Isso levou-nos também a encontrar um espaço que dê um suporte diferente à operação a norte. Mas também o facto de estarmos cada vez mais presentes nesta área e o que queremos trabalhar com esse tecido empresarial. Com tudo o que tem acontecido, essas empresas precisam mais do nosso apoio e queremos ficar mais próximos, que as empresas reconheçam essa proximidade e oferecer melhores condições às nossas pessoas para trabalhar no escritório, apesar do que esta nova realidade traz. É um escritório que suporta a aquisição de mais talento para a empresa e mais proximidade à Academia.

Essa ligação empresas/academia devia ser um desígnio nacional?
Totalmente. Muitas escolas superiores estão cada vez mais próximas - a empresa contribui para o programa, com temáticas importantes, com os seus colaboradores a dar workshops e até algumas aulas, projetos de final de curso... Esta proximidade tem vindo a ser trabalhada numa perspetiva global, mais macro, e há ainda caminho a fazer, mas as empresas, o tecido privado sobretudo, têm feito esse caminho. E nós também temos feito o possível por estarmos próximos, até porque muito do talento que temos está a terminar cursos, amanhã começa a trabalhar e pode até nem ser na Bold, mas podemos vir a ser, num dado momento, o local onde desenvolverão as suas competências. Por isso faz sentido essa relação.

É mais difícil captar talento jovem hoje? O que os cativa?
Tem sido difícil, porque Portugal mudou nestes últimos anos e cada vez mais empresas estrangeiras aqui vêm buscar talento; agora com trabalho remoto...- nós já estávamos preparados e a adotar essa estratégia de ter parte do trabalho remoto - é difícil competir por talento. É escasso e a procura é muita. O que temos feito é apostar cada vez mais na certificação dos nossos colaboradores, na responsabilização deles e acreditamos que estamos a criar um ecossistema onde as pessoas sabem que ao entrar aqui vão adquirir competências diferenciadoras, que lhes trarão mais-valia na carreira. Sempre perseguimos clientes e projetos estrangeiros e os melhores nacionais, e para ter os melhores colaboradores é preciso projetos desafiantes - é o que procuramos, projetos que sabemos serem desafiadores: é a única forma de manter as nossas pessoas satisfeitas e desafiadas no dia-a-dia.

Isso já conta mais que o salário?
Contam ambos. Não podemos tirar importância aos salários, por isso também tentamos pagar acima da média de mercado.

Qual é a média na Bold?
Não consigo responder; há vários patamares de funções, senioridades, contextos... seria injusto deixar uma média. Pelas tabelas do mercado, estamos acima. Mas não podemos dissociar salário e desafio, o projeto é fundamental.

Na pandemia ficou mais difícil atrair talento?
Continua a ser difícil. Temos o nossa máquina a funcionar já com caminho feito e hoje conseguimos atrair - nem todos os clientes o permitem, mas o remoto traz uma realidade diferente que abre oportunidades e temos atraído estrangeiros assim, facilita a pessoa não ter de estar diariamente aqui. E em alguns casos podem começar noutros países, vir um tempo para cá... É um formato interessante.

A Bold foi a única empresa 100% portuguesa a integrar o ranking do Financial Times das mil empresas europeias com crescimento mais rápido, em 2017. Agora, com a ligação aos franceses da Devoteam, está em mais 17 mercados. Quais são os próximos passos?
Agora já não podemos entrar nesses estudos, por fazermos parte de grupo internacional... Quanto aos próximos passos, a Devoteam tem vindo a investir bastante em criação de centros de excelência - já temos três, Outsystems, Microsoft e AWS. E acaba de adquirir uma empresa de segurança e a curto prazo o desafio é tentar passar ao mercado que a Devoteam tem todas estas competências e o mercado pode contar connosco para ajudar. A longo prazo, o que posso ver no grupo é uma enorme ambição, vontade de reforçar as parecerias e ser n.º 1 nessas parcerias. Estamos a investir para isso, portanto estamos a seguir a ambição que já tínhamos, agora reforçada pela administração da Devoteam. Com todo este apoio, a Devoteam também seguiu há mais de seis meses um novo caminho com um dos maiores fundos americanos que abre um leque de oportunidades. Por vezes a dificuldade é passar essas oportunidades e dimensão ao mercado - porque o mercado ainda não nos conhece nesta realidade, tendo nós feito caminho do zero; crescer ao longo do tempo e tentar mudar a visão que têm de nós. Felizmente, contamos com excelentes equipas que nos ajudam a fazer esse caminho.

E que investimento ambicionam para os próximos tempos?
Falo de investimentos estruturais, colocar mais e melhores pessoas onde já trabalhamos para liderarmos, continuar o crescimento a mais de dois dígitos, com ambição. Há sempre pandemias que nos obrigam a uma adaptação...

Foi uma pancada grande?
Eu gosto do reality check, de comparar a minha resposta com o que vejo no mercado e ao ver o que aconteceu a tantas empresas, nós conseguimos continuar. Mas temos clientes que sofreram e isso tem efeitos indiretos.

Como estão os resultados?
No ano passado tínhamos um budget para atingir que não conseguimos, mas crescemos, o que foi excelente. Crescemos cerca de 10% - a ambição era bastante maior - e para conseguir estes 10% tivemos de cortar imensos investimentos e planos, coisas do dia-a-dia da empresa, os eventos pararam, investimentos de marketing também. Agora começamos a retomar, mas esse crescimento foi trabalhado com gestão quase ao dia daquilo que era a nossa realidade para fazer face às perdas. Passado um ano, é ótimo dizer que crescemos, mas foi duro.

E objetivos para este ano?
Continuar a crescer, à volta de 20%. As coisas estão encaminhadas, a correr relativamente bem, mas continuamos cautelosos, porque ainda está aí a pandemia, que traz alguns solavancos. Mas modo geral estamos a atingir objetivos e queremos que o ano acabe nessa perspetiva. E temos outros objetivos, relacionados com temas como a diversidade - cada vez mais um tema mundial, estamos a contribuir para essas causas.

Sei que há novidades no reforço da atividade no setor público...
Sim, acabámos de contratar uma pessoa para nos ajudar a reforçar a aposta no setor público. Fizemos um caminho que era necessário, com prioridade numa perspetiva mais privada, mas hoje estamos totalmente preparados para disponibilizar os nossos serviços às diferentes entidades. Neste caso, o setor público e o apoio à transformação digital; é um trabalho que tem de ser feito e em que estamos perfeitamente alinhados. Olhando para os objetivos das diferentes entidades, há um grande match com o que fazemos diariamente e queremos disponibilizar-nos nesse sentido. Essa é grande aposta para este ano. Continuamos a reforçar a aposta nos clientes que temos e com um foco muito grande nos parceiros com quem trabalhamos diretamente. E tudo isto em conjunto vai ajudar a fazer de Portugal uma smart nation. É a visão que tenho para o país a dez anos. Temos de ter esta visão de que quanto mais transformarmos Portugal numa smart nation maior visibilidade teremos. E obviamente isso trará investimento e crescimento.

Como é que, de fora, veem Portugal? Ainda somos um país de empreendedores?
Acho que sim. Os estrangeiros olham-nos - eu estou no comité executivo da Devoteam e vejo isso - como um povo dinâmico, proativo, ágil, trabalhador e muito empreendedor.

Voltando aos contratos com o setor público, eles materializam-se em quê?
Passa muito pela digitalização da Administração Pública, preparação e infraestruturas - essencialmente são esses os pontos mais importantes, porque cada vez mais o que precisamos é de uma Administração Pública simples. É o que todos procuramos enquanto cidadãos, esta agilidade, uma forma rápida de abrir uma empresa, de renovar o Cartão do cidadão... O PRR tem muitos desafios e muitos deles passam pelas áreas que trabalhamos: cloud, data, IA. Há uma preocupação da Administração Pública em seguir esses caminhos e toda a transformação e transição digital de processos. São temas que estão a ser reforçados e têm tradução no PRR.

Uma distribuição desses fundos mais virada para as empresas traria efeitos mais rápidos?
Uma centralização é interessante na medida em que dá alguma organização e controlo, mas é verdade que devia haver um canal direto para as empresas poderem contribuir e usar esse dinheiro de forma direta, sem passar por essa centralização, aceleraria o processo, até porque já sabemos que a passagem pelo Estado tem burocracias associadas e a agilidade é essencial neste momento. Temos de fazer acontecer muito rápido. Temos de dar algum mérito a entidades e gabinetes criados que acredito que farão bom trabalho e conseguirão abrir canal para as empresas e usar a capacidade destas para ajudar a imprimir rapidez ao processo. Há uma grande aposta na transição digital, haverá dinheiro... o essencial nesta janela temporal é aproveitar o PRR e o mindset, tudo quanto as empresas, públicas e privadas, precisam de fazer na transição digital para não perdermos o ímpeto e fazer acontecer. Se demorarmos muito - o que já está a acontecer no 5G, em que outros países já estão em estágios de evolução completamente diferentes - corremos o risco de perder o timing.

Pode o atraso no 5G também ser um fator negativo determinante? Como é visto lá fora, nomeadamente pela Devoteam?
Não tenho discutido muito com eles, mas enquanto português preocupa-me. O 5G traz muitas evoluções do ponto de vista tecnológico e ainda não termos o processo do leilão concluído... Se o 5G não puder estar operacional a tecnologia não evolui. Perde o país, perdemos todos enquanto cidadãos porque não estamos a usar todo o potencial tecnológico que existe.

Onde é que idealiza a Bold em cinco anos?
É um prazo longo para nós, porque a cada seis meses isto muda tanto, é tão dinâmico... Daqui a dois anos e meio acho que a realidade Devoteam Portugal será cada vez mais forte. Isso implica mais ligação entre as empresas que o grupo tem em Portugal e pode vir a ter. A Devoteam continua a investir, a olhar para o país, e sempre que há oportunidades olhamo-las. Esse caminho diz-nos que estaremos cada vez mais integrados, Bold e Devoteam unificadas, com maior alinhamento - hoje já estamos perfeitamente integrados, temos o respeito dos colegas franceses e dos investidores e administradores. Portanto vejo a Bold a seguir esse caminho numa escala de valor cada vez maior, suportada por esses investimentos de que falámos, e com a perceção do mercado de que somos empresa já de outro patamar, sobretudo com quem nos compara com o que éramos há cinco anos. Crescemos imenso, vamos continuar e a Devoteam ajudará. Quero estar nesse patamar que ambicionamos.

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