Gestão

Call coaching: este é o novo 112 das empresas

Lisboa, 22/05/2018 - Sofia Calheiros, fotografada esta manhã no seu escritório em Lisboa.
( Pedro Rocha / Global Imagens )
Lisboa, 22/05/2018 - Sofia Calheiros, fotografada esta manhã no seu escritório em Lisboa. ( Pedro Rocha / Global Imagens )

O novo serviço por telefone permite sessões com um coach em situações de SOS. Empresas, gestores e jovens em início de carreira são o público-alvo.

A ideia já mora há 30 anos na cabeça de Sofia Calheiros. A empresária, psicoterapeuta e mãe do coaching em Portugal tinha um plano bem delineado mas, os tempos eram outros, e Sofia estava um passo à frente da tecnologia disponível na altura.

Este ano, o projeto viu a luz do dia e nasceu o Call Coaching, um serviço que permite que qualquer pessoa possa, num momento de SOS, aceder a uma sessão com um coach sem ter de fazer um agendamento presencial. “O objetivo é podermos ajudar as pessoas rápido, no momento em que elas realmente precisam. Ou porque têm de tomar uma decisão importante, ou porque vão entrar numa apresentação ou porque têm uma equipa desmotivada”, conta Sofia Calheiros, responsável pela novidade e pela Sofia Calheiros & Associates, empresa de coaching e consultoria.

O processo funciona de forma pragmática. Basta aceder ao site, fazer o pagamento através de cartão bancário e explicar sucintamente qual é a questão para a qual solicita ajuda. Num espaço que pode demorar entre 30 a 60 minutos, um coach especializado telefona ao cliente. Nesse período de tempo, o coachee é contactado via email para se preparar para a sessão. A intervenção dura 20 minutos e tem um preço de 150 euros. Tempo suficiente para o apoio necessário, assegura Sofia, que tem uma experiência de mais de 30 anos nesta área.”Coaching até se consegue fazer em 3 minutos. Desde que a pessoa tenha vontade. Nós somos treinados para intervenções curtas”.

Atualmente as chamadas estão disponíveis em vários idiomas como português, espanhol, francês, alemão e inglês, em horário laboral, entre as 09h00 e as 18h00. Contudo, o objetivo é que muito em breve o serviço funcione 24 horas por dia.

Para além das chamadas SOS, de curta duração, há também a possibilidade de subscrever um serviço de coaching regular, à distância, com sessões que duram até 50 minutos. Aqui o cliente pode escolher o coach da sua preferência e agendar conforme a sua vontade. “Nós temos muitos clientes que passam grande parte do tempo a viajar ou que não têm disponibilidade física para uma sessão. Com esta possibilidade, é possível realizar as sessões regulares de coaching, quer através de telefone ou skype, de acordo com a vontade do cliente”, justifica a empresária. Aqui, os preços variam entre os 300 euros e os 380 euros por 50 minutos. Há também pacotes de várias sessões que com descontos agregados.

Uma das maiores vantagens dos telefonemas é a discrição. “Quando vamos a organizações há pessoas que não gostam que os outros saibam que estão a fazer coaching. Este serviço oferece liberdade e privacidade. É quando e às horas que o cliente deseja”, elucida. Quem partilha da mesma opinião é Luise Sequeira, business partner da Petrobas, que se estreou numa sessão com o Call Coaching. “Como era a primeira vez que fazia coaching tinha algum receio, mas o facto de ser por telefone deixou-me menos tímida e é mais prático. Tinha várias questões na minha cabeça e a coach conseguiu fazer com que eu encontrasse as respostas”, atesta.

Empresas, gestores e equipas são o público-alvo.“Há chefias que não conseguem estar presentes em todo o lado e assim têm um serviço que apoia os trabalhadores”, refere a empresária. Também os finalistas universitários e os jovens em início de carreira estão na mira de Sofia. “Quando se entra no mercado de trabalho é um choque a transição. Às vezes não começamos com a melhor performance e se não correr bem pode ser destrutivo para os jovens. Os primeiros anos são determinantes”, assegura.

Uma ajuda à distância de uma chamada

Há mais de três décadas, Sofia estudou medicina em França. Ao fim de dois anos, por motivos familiares, regressou a Portugal. Gostava de ter sido jornalista e adorava Direito. Entrou na escola de enfermagem, passou pelo curso de tradutores e intérpretes, pensou seguir gestão e ponderou fisioterapia. “Entrava nos cursos e passado pouco tempo achava que aquilo não era para mim. Gostava de muitas coisas”, conta.

Acabou por assentar em psicologia convencida de que iria ser psicóloga clínica. “Depois decidi ser psicóloga das empresas, porque é lá que as pessoas ficam tontas. As pessoas adoecem no trabalho”, relembra. A par com as aulas, Sofia fez voluntariado no SOS Voz Amiga, um serviço de apoio por chamada.

Lisboa, 22/05/2018 - Sofia Calheiros, fotografada esta manhã no seu escritório em Lisboa. ( Pedro Rocha / Global Imagens )

Lisboa, 22/05/2018 – Sofia Calheiros, fotografada esta manhã no seu escritório em Lisboa.
( Pedro Rocha / Global Imagens )

“À noite as pessoas estavam mais sozinhas e quando chegavam a casa precisavam de alguém com quem falar. Percebi que a acessibilidade de quem está sozinho e precisa de alguém para o ajudar é fundamental”, constata. Foi esta experiência que inspirou Sofia a criar o Call Coaching.

“Às vezes não é uma coisa dramática, nem há um grande problema. Pode haver a necessidade de falar com alguém, ou discutir um assunto e dá uma sensação de conforto que nós hoje precisamos. O Call Coaching pode ser utilizado para situações urgentes ou só para conversar. Às vezes só é preciso só discutir ou verbalizar uma ideia. E nós estamos cá para isso”.

A mãe do coaching em Portugal

Enquanto estudava psicologia, Sofia concorreu para um concurso da TAP, com o sonho de construir uma carreira como hospedeira de bordo. A vida trocou-lhe as voltas, mais uma vez, e foi chamada para uma nova empresa, a Air Atlantis, que pertencia à TAP e operava em voos não regulares.

O telefone tocou e não eram as notícias que a jovem queria ouvir: escolheram-na para a área financeira. Como era difícil encontrar emprego, aceitou. “Queria ser psicóloga e estava num departamento de contabilidade. Errava constantemente ao início e chorava todos os dias na casa de banho às escondidas. Mas pensava que um dia isto me haveria de servir para alguma coisa. Só não sabia ainda para quê”, refere com os olhos assaltados pelas recordações.

Um ano depois, a Air Atlantis abriu um departamento de direção de pessoal e Sofia foi convidada para o chefiar a área de recursos humanos de uma empresa com 500 pessoas. “Até que o Governo mandou fechar a empresa para viabilizar outra que tinha aparecido (a AirZarco, atual EuroAtlantic Airways). Disseram que aquilo estava na falência. É impossível. Os aviões só saiam quando as viagens eram vendidas. Este negócio não podia ter maus resultados”, lamenta.

“Aos 30 anos abri e fechei uma empresa. Nesse dia decidi que nunca mais iria trabalhar para ninguém. Estive oito anos a trabalhar de corpo e alma para depois o governo decidir fechar a empresa e a impotência que sentimos é horrível.” Sofia estava sem dinheiro, grávida e com o marido desempregado. Apesar dos convites de trabalho aliciantes de grandes empresas, manteve-se firme.

Mais tarde, acabou por trabalhar como consultora e formadora. Numa viagem aos Estados Unidos descobriu o coaching. “Nunca tinha ouvido falar disto. Estávamos em 2001 e em Portugal não se falava disso. Mas percebi que era o que eu já fazia. Depois das formações que dava, as pessoas queriam sempre falar comigo para pedir conselhos e orientações”.

Lisboa, 22/05/2018 - Sofia Calheiros, fotografada esta manhã no seu escritório em Lisboa. ( Pedro Rocha / Global Imagens )

Lisboa, 22/05/2018 – Sofia Calheiros, fotografada esta manhã no seu escritório em Lisboa.
( Pedro Rocha / Global Imagens )

Sofia trouxe o coaching para Portugal, através da International Coach Federation, e abriu uma escola de coaching. Mais tarde criou uma empresa focada no desenvolvimento do capital humano das organizações com soluções de formação e executive coaching.

“A empresa estava muito bem lançada, tínhamos uma faturação incrível e decidi fechá-la. Devia tê-la vendido, mas na altura pensei que não se deveria vender um filho”. Com o intuito de começar de novo com outro foco, nasceu a Sofia Calheiros & Associates.

Hoje, depois de 30 anos, Sofia é psicoterapeuta, coach e empresária de sucesso. As voltas todas que deu trouxeram-na aqui. E, ao fim de três décadas, nasceu o Call Coaching, ideia vinda de uma mulher com o pensamento à frente da sua geração. “Às vezes, quando temos uma boa ideia é preciso esperar pela altura certa”, conclui.

 

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