Imobiliário

Casafari. O Google das casas quer conquistar o mundo a partir de Lisboa

(Jorge Firmino / Global Imagens)
(Jorge Firmino / Global Imagens)

Um casal de alemães escolheu Portugal para ser a sede de uma empresa que está a revolucionar o mercado imobiliário

Mila Sukhareva abre o portal de classificados e procura um T2 na Estrela. Os resultados são às centenas, mas há um que chama à atenção. É um tríplex e custa 225 mil euros mas, segundo a descrição, fica afinal na Madragoa “a 3 minutos a pé” do Cais do Sodré. Pelo mesmo preço há em Santos um T2 com 85 metros quadrados e outro com 50 m2 na Estrela. Só olhando bem para as fotografias dos anúncios é que Mila percebe que as três casas são, afinal, a mesma.

Foi quando procurava propriedades para investir em Espanha que Mila e o marido, Nils Henning, perceberam que o mercado imobiliário era “caótico”. Por não existir um regime de exclusividade, a mesma casa acaba por estar à venda em mais do que uma agência, com características diferentes. “Os sites de classificados são depósitos de duplicados do mesmo anúncio. Mas como as agências não seguem os mesmos critérios, é comum ver-se a mesma casa à venda com números de divisões diferentes, porque alguns contam a varanda e outros não, por exemplo”, explica o casal de alemães radicado em Portugal há menos de dois anos.

A experiência “péssima” em Espanha fez clique no espírito empreendedor do casal. Mila e Nils abdicaram da pausa sabática que tinham planeado, depois de terem colhido os lucros das startups que ajudaram a fundar na Alemanha: a BigPont, de jogos online, e a KrediTech, uma das maiores fintechs germânicas. Investiram mais de um milhão de euros e traçaram uma meta clara: ser a base de dados de imóveis mais completa do mundo.

“Não tínhamos qualquer experiência no ramo imobiliário. Mas tínhamos muito conhecimento tecnológico adquirido e acreditámos que era possível resolver este problema no mercado através de machine learning e inteligência artificial. Não é aceitável que em 2018 este negócio ainda funcione como nos anos 1990.”

A Trivago das casas

Em 2016, a Casafari deu os primeiros passos em Maiorca, Espanha. O desafio inicial foi explicar às pessoas o conceito da empresa. “Não somos uma agência imobiliária. Somos um marketplace, um motor de busca para profissionais do setor. Uma espécie de Trivago ou de Google do imobiliário”, explica Nils Henning. Ao fim de dois anos em Maiorca, as receitas do setor na ilha balear quase duplicaram. “Seria impossível sem a nossa intervenção.”

O objetivo da Casafari, acrescenta, é “tornar o mercado mais transparente, uniformizado e poupar tempo aos profissionais do setor, que perdem horas por dia em pesquisas porque os dados disponíveis são confusos, para não dizer errados”. E dá exemplos. “Quando procuramos um apartamento em Lisboa num site de classificados, surgem mais de 14 mil resultados. Mas isto são registos, não são casas únicas. Na melhor das hipóteses, esses registos equivalem a duas ou três mil casas.”

Na Casafari há 24 mil imóveis únicos registados. Mesmo que uma casa esteja à venda em várias agências, só surge uma vez no motor de busca. “O nosso modelo é baseado na soma de todas as características do imóvel, como a localização e o tipo de casa. O problema é que muitas vezes, por questões de marketing, a localização que consta no anúncio não é a verdadeira, é a que vende melhor. Há casas que ficam em Algés, mas o anúncio diz que ficam no Restelo”, conta Mila Sukhareva.

Para entrar no portal da Casafari é preciso estar registado. Os clientes da empresa são sobretudo mediadoras de imóveis, fundos de investimento e consultoras. “Temos gráficos atualizados em tempo real que mostram a distribuição geográfica das propriedades. Se uma agência tem um cliente que procura uma casa na Avenida da Liberdade por um milhão de euros, a Casafari apresenta todas as ofertas disponíveis em tempo real. Isto acelera muito os negócios e faz que os compradores tenham uma experiência melhor.”

A empresa tem ferramentas que permitem analisar os preços das casas, “para que o cliente saiba se está a comprar barato ou caro, mas também para que o vendedor perceba se está a ser realista com o preço que pede. Os números dizem, por exemplo, que um T1 de 995 mil euros vai demorar mais de 12 meses a ser vendido”.

Tal como o Google, o motor de busca da Casafari agrega os dados que são de domínio público e não têm direitos de autor. “Só assim conseguimos cobrir todo o mercado. O que fazemos é indexar a informação ao link para o anúncio original.”

As receitas vêm das subscrições. Para já só existe um pacote, de cem euros mensais. Estão a ser criados mais dois. Um de 250 euros para as mediadoras e outro “com análises mais completas e personalizadas que pode variar entre as centenas e os milhares de euros mensais”, destinado a investidores e grandes fundos.

Em sete meses, a Casafari conquistou mais de mil clientes em Portugal. “Não gastámos um cêntimo em marketing, foi tudo boca a boca. Foi inesperado porque quando decidimos estabelecer a empresa em Portugal a ideia era só desenvolver o negócio a partir daqui para outros países, como Espanha”, afirma Mila.

O casal alemão aterrou de malas de bagagens em Lisboa no início de 2017, atraído pela “comunidade tech, que nos recebeu muito bem”. Desistiram de ter sede em Espanha por causa do fraco nível de inglês da mão-de-obra qualificada do país vizinho.

O escritório da Lx Factory já começa a ser pequeno para a equipa, que para já tem 18 pessoas, mas está à procura de mais. Mila e Nils querem recrutar especialistas em data science e business development. Além de Portugal, a empresa tem motores de busca em Espanha e no Brasil. A curto prazo quer expandir para, pelo menos, mais três destinos.

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