Imobiliário

Casas a preços de Paris já afastam estrangeiros de Lisboa

O preço por metro quadrado das casas na Avenida da Liberdade. em pleno coração de Lisboa, é o mais caro do país. (Orlando Almeida /Global Imagens)
O preço por metro quadrado das casas na Avenida da Liberdade. em pleno coração de Lisboa, é o mais caro do país. (Orlando Almeida /Global Imagens)

Trunfos da capital já não chegam para compensar subida de preços. Ritmo de venda está mais lento, dizem profissionais.

Comprar casa em Portugal está cada vez mais caro e a escalada dos preços já nem sequer passa ao lado dos estrangeiros. A procura é ainda elevada, mas os investidores começam a pensar duas vezes antes de fazer as malas e rumar a Portugal. “Temos tido casos de clientes estrangeiros que depois de uma semana de visitas dizem: lamento mas, neste momento, em Portugal, já não vamos investir”, conta ao Dinheiro Vivo Miguel Tilli, fundador da Home Lovers, a imobiliária que nasceu no Facebook e, orgulhosamente, não tem nem planeia abrir lojas físicas.

No ano passado, uma em cada cinco casas vendidas em Portugal foi parar a mãos estrangeiras. Brasileiros, mas sobretudo franceses, foram os que mais procuraram Portugal para viver. Têm chegado atraídos pelo sol e, sobretudo, pela segurança, e encontravam no preço dos imóveis um trunfo que convencia a ficar. Agora, o preço deixou de ser argumento, até porque já se equipara em algumas zonas de Lisboa e do Porto aos das grandes capitais europeias conhecidas pelas casas a preço de luxo.

“Muito recentemente um cliente disse-me que já não queria investir em Lisboa e que ia antes comprar casa em Paris”, acrescenta Tilli, assumindo que “temos zonas de Lisboa que começam a ser equiparadas aos 11 mil, 12 mil euros por metro quadrado das zonas mais chiques de Paris, onde o preço médio no primeiro trimestre se fixou nos 10 500 euros. Estamos a atingir valores que nunca pensámos há ano e meio”, confessa.

E as casas começam também a demorar mais tempo a vender. Nuno Gomes, da Remax Prestige, admite que a subida dos preços já se está a refletir no tempo que os imóveis demoram a sair. “Anteriormente eram precisos apenas dois dias para vender um imóvel, mas atualmente o tempo já varia entre um a dois meses”, refere, admitindo algum arrefecimento da procura depois de uma fase inicial de saciação de “quem tinha dinheiro para investir e não encontrava nos investimentos financeiros a solução ideal”.

Ainda assim, os tempos para venda de um imóvel mantêm-se longe dos registados no pico da crise. Com a reabilitação de imóveis em alta, o tempo médio de venda de um imóvel foi, no ano passado, de seis meses, enquanto em 2014 era preciso o dobro do tempo.

Miguel Tilli rejeita a existência de uma bolha imobiliária, mas lembra que a escassez da oferta e contínua escalada de preços possa trazer a temida crise “dentro de um ano e meio”. Porquê? “Quem comprar agora e não fizer os seus cálculos com a devida precaução poderá daqui a um ou dois anos ter problemas.”

A APEMIP, associação que representa os profissionais da mediação imobiliária, estima que o mercado possa continuar a crescer durante os próximos dois anos. Mas Luís Lima, o presidente, entende que o ritmo de crescimento das vendas terá de abrandar – no ano passado o número de vendas cresceu mais de 20%; neste ano a meta está fixada nos 30% – para que a sustentabilidade do mercado não seja ameaçada.

“A história demonstra que cada vez que existe um período de maior euforia vai também existir um momento em que isto vai mudar”, lembra, por sua vez, Eduardo Garcia Costa, diretor-geral da KW Portugal, que no ano passado viu duplicar o número de casas vendidas, obtendo 1200 milhões de euros em transações. “Sabemos que os mercados são cíclicos e as competências que se têm de passar aos colaboradores e clientes proprietários vão depender desta fase.”

Afasta, ainda assim, um travão completo no mercado. “A procura nunca desaparece. Estamos num país onde o crédito à habitação praticamente desapareceu e ainda assim não deixaram de se fazer transações imobiliárias”, recorda. E agora o crédito até tem estado a crescer à boleia das taxas de juro historicamente baixas e da guerra de spreads entre os bancos.

Miguel Tilli estima que neste ano a procura se mantenha em níveis idênticos aos do ano passado, apesar de “uma forte aposta em motores de busca internacionais” para aproveitar o recente interesse no país. Na Home Lovers, as vendas a não residentes valem 30%. Mas os portugueses são a aposta segura. “Há imobiliárias que estão a especializar-se apenas em clientes estrangeiros e eu diria que são mercenários, porque no dia em que a agulha virar…”

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