Tecnologia

Amazon pressionada por conduta com startup portuguesa DefinedCrowd

CEO of Facebook Mark Zuckerberg testifies before the Senate
EPA/MICHAEL REYNOLDS

Tim Cook, Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Sundar Pichai são hoje questionados pelo Comité Judiciário por práticas anti-concorrenciais

A conduta do braço de investimentos da Amazon, Alexa Fund, com a startup portuguesa DefinedCrowd foi uma das questões levantadas pelo congressista Joe Neguse ao CEO de gigante, Jeff Bezos, durante a histórica audiência que decorre no congresso norte-americano.

Em causa o relato da fundadora da DefinedCrowd, Daniela Braga, que falou ao Wall Street Journal sobre como o Alexa Fund investiu na startup e quatro anos mais tarde a Amazon Web Services lançou um produto de inteligência artificial que faz quase o mesmo que a inovação da empresa portuguesa. Jeff Bezos disse ao congressista norte-americano que não tinha memória de investir na DefinedCrowd.

“Não conheço as especificidades desse caso mas poderei retornar com mais informação para o seu gabinete”, disse Bezos. O congressista retorquiu. “Estamos muito preocupados com esta zona de morte da inovação que parece estar a emergir”, disse Neguse, mencionando diversos testemunhos de empreendedores que “vivem em medo constante de que as plataformas roubem as suas tecnologias centrais ou ideias”, porque estão tão dependentes das gigantes para conseguirem financiamento e mercado. Isso torna “quase impossível competir” por causa das vantagens existentes de empresas como a Amazon.

Antes deste momento, Jeff Bezos teve de se defender repetidamente, muitas vezes de forma titubeante, de outras acusações sérias feitas pelos congressistas com base em documentos e testemunhos adquiridos durante um ano de investigação. Numa ocasião, ouviu-se o testemunho de uma pequena empresa que vendia livros na Amazon e cujo negócio foi esmagado pela gigante.

Segundo os congressistas, as pequenas empresas que vendem através da plataforma da Amazon reportam uma grande agressividade por parte da empresa, táticas de pressão e dumping. A loja de Bezos é considerada a única forma de chegar ao grande público e essa posição de domínio, disseram os congressistas, está a ser abusada pela Amazon.

“Discordo”, disse Bezos. “Acredito que há muitas opções para os pequenos vendedores”, referiu, sublinhando que, na sua opinião, a Amazon é a melhor opção.

Mas os congressistas apontaram que 800 mil dos 2,2 milhões de vendedores na plataforma dependem exclusivamente da Amazon. E referiram discrepâncias entre o que Bezos diz e o que ex-empregados da empresa disseram sobre o acesso e utilização de dados dos pequenos vendedores para beneficiar o negócio da própria Amazon. Bezos disse que a empresa tem uma política de não utilizar dados obtidos com as vendas de terceiros, mas que não podia garantir que tal política não tinha sido ou estava a ser infringida e que se encontra a investigar o assunto.

Neutralizar concorrência: Mark Zuckerberg via Instagram como uma ameaça

A aquisição multimilionária do Instagram pelo Facebook, em 2012, foi precedida de uma discussão entre Mark Zuckerberg e o diretor financeiro David Ebersman, na qual o CEO da rede social admitiu a ameaça da startup.

“O Instagram pode prejudicar-nos de forma significativa, mesmo que não se torne num negócio muito grande”, escreveu Zuckerberg num email em abril de 2012, numa corrente de correspondências que foi hoje revelada no congresso norte-americano.

As evidências, apontou o chairman do comité judiciário da Câmara dos Representantes, Jerrold Nadler, mostram que “o Facebook via o Instagram como uma ameaça que podia desviar negócio”, e em vez de acirrar a concorrência, a gigante das redes sociais comprou a pequena startup. “Este é exatamente o tipo de aquisição anti-concorrencial que as leis foram desenhadas para evitar” disse Nadler.

Apesar de ter tentado contornar as questões, Zuckerberg, que está a testemunhar remotamente perante o congresso, admitiu isto por outras palavras: “Sempre clarifiquei que o Instagram era um concorrente no espaço da partilha móvel de fotografias”, afirmou. “Havia muitos outros na altura”, disse, explicando que ao comprar o Instagram este deixou de concorrer com o Facebook e passou a ser uma aplicação que a gigante podia ajudar a crescer.

Zuckerberg também defendeu que, na altura, não era claro que o Instagram se fosse tornar numa rede tão vasta e importante quanto é hoje e que as autoridades deram autorização para a aquisição, após a sugestão dos congressistas que tal compra poderá ter sido à margem das leis que previnem comportamentos anti-concorrenciais.

Noutra troca de argumentos, Zuckerberg disse que não se lembrava de escrever um email no qual escreveu que o Facebook podia comprar startups como o Instagram mas teria de esperar até poder comprar a Google. Zuckerberg disse ao congresso que tal expressão teria sido uma piada.

Os comportamentos anti-concorrenciais são o foco da audiência histórica que está a decorrer no congresso, a mais importante investigação de comportamento anti-concorrencial desde o processo contra a Microsoft nos anos noventa. Os CEO das quatro grande tecnológicas de Silicon Valley – Apple, Facebook, Amazon e Google – estão a ser ouvidos pelo comité judiciário da Câmara dos Representantes, após cerca de um ano de investigação.

Google na berlinda

O CEO da Google, Sundar Pichai, mostrou alguma dificuldade em desenrolar o nó que o congressista democrata David Cicilline apertou em torno da empresa. Cicilline questionou porque é que a Google “rouba conteúdo de empresas honestas”, citando inúmeros testemunhos de concorrentes neste sentido. Por exemplo, a Google usurpou críticas do site Yelp e depois ameaçou a empresa de a retirar do seu motor de busca, disse.

Cicilline acusou também a Google de mostrar os resultados que são mais lucrativos para si, não os mais relevantes para os consumidores, e de privilegiar os seus próprios sites. O congressista disse que tais práticas “diminuíram a inovação” e que as empresas que querem aparecer nas listas de resultados “têm de pagar um imposto à Google.”

Apple responde por App Store

O questionamento de Tim Cook centrou-se nas práticas da Apple em relação à App Store, nomeadamente a percentagem que cobra (entre 15% e 30%) e o processo de seleção que determina que aplicações são admitidas e quais são rejeitadas. Tim Cook argumentou que a Apple “trata todos os programadores da mesma forma” e que o processo de seleção é rigoroso.

“Não retaliamos nem fazemos bullying” disse Cook. “Isso vai contra a nossa cultura”, declarou, rejeitando acusações de que a Apple usa o seu tremendo poder com a App Store para pressionar empresas ou beneficiar as suas próprias apps. Cook tinha dito, logo no início, que a Apple não tem uma quota de mercado dominante em nenhum dos mercados onde opera.

Audiência histórica

O comité judiciário da Câmara dos Representantes do congresso dos Estados Unidos está a questionar as práticas concorrenciais da Apple, Facebook, Amazon e Google após cerca de um ano de investigação.

Mais de um milhão de documentos e muitas horas de entrevistas com os concorrentes das empresas depois, chegou o momento de ouvir da boca de Tim Cook, CEO da Apple, Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, Jeff Bezos, CEO da Amazon, e Sundar Pichai, CEO da Google.

David Cicilline, representante da maioria democrata que está a liderar esta investigação, disse na abertura da audiência que estas empresas têm simplesmente demasiado poder e que as pessoas não têm alternativas de qualidade. A concentração de poder digital e económico também se traduz em concentração de poder político, disse o representante, caracterizando o poder destas empresas como um monopólio.

Por causa da pandemia de covid-19, os líderes respondem via videoconferência.

O presidente Donald Trump escreveu hoje na sua conta de Twitter que “se o congresso não trouxer justiça à Big Tech, o que já devia ter feito há anos, vou fazê-lo eu com ordens executivas.” O presidente acusou Washington de falar muito e fazer pouco e que o país estava farto dessa inação.

A audiência deverá durar várias horas, potencialmente noite dentro, hora de Portugal.

(é possível ver ao vivo a audiência no YouTube do Congresso dos EUA)

(em atualização)

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