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Cerelac. A dar papa à Europa e África a partir de Avanca

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Cerelac. A dar papa à Europa e África a partir de Avanca

A fábrica de Avanca produz por ano 6 mil toneladas de Cerelac e exporta 54%. A Nestlé já investiu 4,3 milhões para aumentar na unidade fabril.

Uma a uma, as embalagens de papa Cerelac seguem o seu caminho ao longo da linha de montagem na fábrica da Nestlé, em Avanca. O ritmo é acelerado: a uma média de 40 saquetas por minuto, por dia são ali produzidas 50 toneladas de Cerelac (100 mil embalagens de 500 gramas), das quais 54% seguem para exportação, para os chamados “mercados da saudade”, tais como Angola, Moçambique, Espanha, Suíça, entre outros países. É da fábrica portuguesa que sai toda a Cerelac consumida em 15 países da Europa e África.

De um total de 34 mil toneladas de produtos Nestlé produzidos em Avanca anualmente, 6 mil toneladas são Cerelac. E o objetivo é crescer ainda mais, garante Miguel Neto, o novo diretor da unidade fabril fundada em 1923 e que ainda hoje é um dos principais pilares da empresa em Portugal. Muito por causa da antiguidade da fábrica, é “preciso investir imenso em manutenção”, garante o responsável, revelando que o último grande investimento aconteceu em 2016 já a contar com um crescimento futuro e também com o aumento da produção de Cerelac, mas não só.

Ao todo serão 4,3 milhões de euros divididos por três anos para, entre outros fins, comprar um novo “secador” (máquina que coze, seca e tritura a mistura de base que dá origem à papa) e renovar outros equipamentos mais antigos. O investimento tem como objetivo aumentar entre 5% e 10% as vendas e as exportações de farinhas de cereais, onde se inclui a papa Cerelac, que continua a ser uma das marcas bandeira da Nestlé Portugal e que “mantém um crescimento contínuo ao longo dos anos”, garante Miguel Neto.

Exemplo disso é a nova Cerelac para preparar com leite. Uma inovação 100% made in Avanca, esta nova receita desenvolvida a partir da papa original valeu à Nestlé Portugal a maior subida de vendas da Europa Ocidental no primeiro trimestre de 2015, com a angariação de novos clientes na sequência do lançamento de um novo produto.

Jordi Lach, diretor-geral da Nestlé Portugal, confirma o cenário. “O que explica que Portugal seja o segundo melhor país do mundo na reputação da marca? É devido à ligação histórica da marca a Portugal, a anos de trabalho com colaboradores portugueses e ainda graças ao facto de termos muitas marcas locais. Nestum ou Cerelac não estão só em Portugal, mas para os portugueses são marcas nacionais. Aliás, uma pesquisa mostra que um em cada três portugueses acha que a Nestlé é portuguesa”, disse o responsável em entrevista ao Dinheiro Vivo.

Desenvolvida há 81 anos, pelo Prémio Nobel da Medicina Egas Moniz (natural de Avanca, que fundou na localidade a então Sociedade de Produtos Lácteos, para produzir leite em pó), com base na receita original do farmacêutico Henri Nestlé, a papa mais conhecida pelos portugueses está longe de passar de moda. O que não significa que não tenha de se adequar aos tempos modernos, pautados por uma elevada taxa de obesidade infantil, uma guerra na qual o açúcar, o glúten e as gorduras são inimigos a abater na alimentação das crianças.

Há mais de oito décadas o cenário era radicalmente diferente e tanto Henri Nestlé como Egas Moniz idealizaram uma farinha láctea com o objetivo de substituir o leite materno e travar a elevada mortalidade infantil.

Farinha de trigo, leite em pó (dos Açores) e açúcar continuam até hoje a estar na base da papa Cerelac, mas este último ingrediente já em muito menor percentagem face ao passado. Depois de já ter reduzido em cerca de 15% a sacarose adicionada ao produto, a Nestlé prepara-se agora para reduzir outro tanto e chegar à marca ideal de menos 30% de açúcar na Cerelac. Miguel Neto explica que, apesar de fundamental, a redução de açúcar tem de ser gradual, sob pena de comprometer a aceitação do produto por parte dos consumidores.

Da seara ao prato
Com um sabor que se mantém inalterado ao longo dos anos (e que para muitos é uma viagem à primeira infância), a Cerelac tem a sua origem nos campos de trigo do Alentejo, um dos raros locais de Portugal e da Europa onde é possível produzir um cereal mais puro e, acima de tudo, com baixo teor de pesticidas, graças à cultura de sequeiro. Só na Herdade do Monte dos Pobres, perto de Vila Viçosa, são 388 os hectares de trigo mole colhido durante o mês de junho, que depois viaja cerca de 400 quilómetros até à fábrica da moagem Carneiro&Campos, em Matosinhos, para se transformar em farinha.

Em terras alentejanas, o agricultor Adriano Ramalho é o responsável por zelar pelo cumprimento dos rígidos parâmetros que têm se der cumpridos à risca no que toca à produção de cereais para nutrição infantil. O mais importante? Garantir que fertilizantes, adubos, fungicidas, herbicidas, fitossanitários e outros químicos potencialmente nocivos para a saúde, jamais ultrapassam os valores estabelecidos por lei - e pela marca – para a segurança alimentar. No terreno, a empresa tem uma equipa de agrónomos que acompanham e dão formação aos agricultores.

“Aqui no Alentejo as produções são mais baixas, mas o trigo é mais puro. Os cereais produzidos no Centro e no Norte da Europa têm maior produção, mas têm também um a carga maior de químicos”, conta o agricultor, prevendo colher este ano entre mil e 1300 toneladas de trigo, muito abaixo das 3200 toneladas que considera como um requisito mínimo para um bom ano de colheita.

A culpa, garante, é da meteorologia: “O mês de abril não teve chuva e por isso o grão de trigo não encheu tanto”. Apesar das agruras do campo, diz Adriano Ramalho, “é um trabalho interessante, até pela finalidade que tem: a alimentação dos bebés”. De acordo com a Nestlé, 87,4% das matérias-primas para a Cerelac são de origem nacional, mas ressalva: “Não conseguimos suprir as necessidades todas apenas com trigo português”.

O que quase ninguém sabe é que, do campo de trigo até ao prato, a famosa papa Cerelac passa por mais de cem controlos e testes apertados para garantir a máxima segurança alimentar. Desde o cereal, passando pela moagem e pela farinha, até chegar ao preparado final, a Cerelac tal como a conhecemos passa por vários ímanes, crivos, detetores de metais, máquinas de raios X e testes químicos e laboratoriais de última geração, feitos em França e em Itália.

João Monteiro, da moagem Carneiro&Campos, sublinha bem todo este processo. É a esta empresa de Matosinhos, parceira de longa data da Nestlé, que cabe recolher as amostras – primeiro de trigo e depois de farinha – para encaminhar para análise. São raros os casos de lotes chumbados, mas se acontecer a farinha já não segue até ao seu destino final, a fábrica de Avanca, onde ainda é submetida a novos testes e detetores de metais.

Antes disso, na Carneiro &Campos todo o trigo destinado à Nestlé circula apenas por silos de armazenagem e expedição e por máquinas de moagem industriais destinadas exclusivamente a este cereal com baixo teor de pesticidas para evitar, precisamente, contaminações cruzadas. “O nosso dever é garantir que não estragamos nada do que foi feito previamente no campo”, refere João Monteiro. Por mês, a fábrica de moagem fornece à Nestlé cerca de 350 toneladas de farinha, num abastecimento que se mantém constante o ano todo.

O fabrico da Cerelac culmina então na fábrica da Nestlé, onde um intenso cheiro a bolachas acabadas de sair do forno se espalha pelo ar e se entranha na pele. Ali trabalham 300 pessoas, estando 90 dedicadas apenas à linha de fabrico da Cerelac. Explicado de forma simples, como diz Nelson Silva, responsável pela linha de produção, “fazer Cerelac é como fazer um bolo”: misturam-se primeiro os ingredientes secos (a farinha de trigo, o leite em pó e o açúcar), a que se juntam depois a água, o óleo de girassol e os cereais hidrolisados enzimaticamente.

A “sopa”, como é conhecida na fábrica, “coze” a 180 graus e é transformada numa película ultrafina que é depois moída para se obter um grão com 1,5 milímetros. É nesta fase que entram ingredientes que não podem passar pelo tratamento térmico: frutos, leite magro em pó, vitaminas, sais minerais e probióticos.

Desde maio de 2016 que a linha de produção da Cerelac divide o seu espaço com outras 27 receitas de papas desenvolvidas pela Nestlé para os países nórdicos e para o Norte da Europa. A diferença? Não têm leite, nem açúcar, e incluem trigo integral, aveia e centeio. Apesar de mais saudáveis, dificilmente teriam aceitação no mercado português, onde a “gulosa” Cerelac continua a ser a rainha das papas infantis.

 

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