Coronavírus

Chefs pedem flexibilidade nas taxas cobradas por Uber e Glovo

comida

Comissão de 30% cobrada pelas plataformas de entregas está "fazer mossa" nos restaurantes. Apps lembram que fatia importante vai para estafetas.

De um momento para o outro, Chakall e Vítor Sobral viram os restaurantes fechar e quase 100% das suas receitas dependentes das plataformas de entregas ao domicílio. Cerca de 30% ficam em comissões nas mãos de plataformas como a Glovo ou a Uber Eats. “Um roubo”, diz o chef Chakall. “Faz mossa”, admite também o chef Vítor Sobral, pedindo maior flexibilidade das plataformas de entregas nos valores cobrados.

A verdade é que sem essas plataformas, seriam obrigados a ficar limitados ao take away, fechar portas ou encontrar meios próprios de levar a comida aos seus cientes. “Nós continuamos comprometidos em oferecer aos restaurantes um apoio sustentável durante esta crise de saúde”, sublinha a Uber Eats, enquanto a Glovo lembra que “a principal fatia desse valor vai para os estafetas que fazem as entregas, que têm sido também heróis nacionais”.

Com a pandemia de Covid-19 a levar ao encerramento dos restaurantes, Chakall virou-se para o take away e para as entregas ao domicílio. Havia que tentar manter alguma receita a entrar. “Manter os restaurantes abertos não é para ganhar dinheiro é para segurar o emprego das pessoas e para termos o menor prejuízo possível com o nosso negócio”, justifica o dono do El Bulo e do Refeitório do Senhor Abel, em Marvila.

“Estamos a vender em take away mas o que melhor funciona são as plataformas”, reconhece o chef. Antes de a Covid-19 deixar o setor da restauração em estado de emergência, alguns dos restaurantes de Chakall já trabalhavam com plataformas de entrega ao domicílio, e já na época, estas cobravam por cada refeição entregue em casa do cliente cerca de 30% de comissão. “Quando os restaurantes estão abertos (as entregas em casa) são um negócio marginal para nós. Hoje quando 100% passam por pedidos online (esse valor de comissão) é um roubo”, acusa Chakall que já tem cerca dos 100 funcionários dos vários espaços em lay-off total ou parcial.

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“Todo o negócio hoje em dia é feito através das plataformas. O take away não conta porque as pessoas não podem sair de casa”,diz. “A única alternativa que tenho é vender online. Estas plataformas não se adaptaram a esta situação”, continua o dono do Refeitório do Senhor Abel, que trabalha com a Glovo e a Uber Eats.

Com os portugueses em casa e as empresas encerradas, os anúncios de restaurantes a aderir às plataformas é diário. “Faturam cinco a seis vezes mais do que antes”, admite Chakall. “Deve ser o melhor negócio que há hoje.”

As plataformas não revelam o impacto que a pandemia está a ter no negócio. Mas a avaliar pelos anúncios diários de restaurantes que estão a avançar com serviços de entregas através destas, o negócio está em alta.

“Se aumentou o volume de trabalho, podiam ter uma atitude mais flexível em relação aos restaurantes”, defende o chef Vítor Sobral. Com a pandemia, viu-se obrigado a fechar os espaços de sala dos restaurantes do grupo Quina – Tasca da Esquina, Peixaria da Esquina, Talho da Esquina, o corner no Time Out Market, três padarias (Padaria da Esquina de Campo de Ourique, de Alvalade e do Restelo) e a Oficina da Esquina, a fábrica onde se fazem os pães e bolos da Padaria – mantendo apenas o atendimento ao balcão e take away, trabalhando com a Glovo e o NoMenu.

Leia ainda: Chef Vítor Sobral reforça take away para ‘prestar serviços que ajudem sociedade’

Para piorar as coisas, a crise apanhou o setor no momento mais baixo do ano. “Os meses de dezembro, janeiro e fevereiro são os piores na restauração; quando íamos começar a fazer negócio fomos confrontados com esta situação. As contas na restauração fazem-se ao ano e não ao mês, mas a crise apanhou-nos na fase mais baixa”, reconhece Vítor Sobral.

“Tive capacidade para pagar os salários de março, mas é um esforço que não é fácil. As receitas e a faturação caíram, o que temos agora é cerca de 10%”, continua o chef dono do grupo Quina. Neste momento, dos cerca de 120 colaboradores, só 15% estão a trabalhar e os restantes estão em lay-off.

“Não há muita volta a dar, dada a situação. Na atividade normal, cobrar uma comissão de 30% nas entregas até parece aceitável, mas quando estamos numa situação como a nossa em que 90% da receita está nas mãos deles, faz mossa”, reconhece o chef Sobral. “Face ao volume de trabalho que ganhou, a própria Glovo deveria propor outro formato aos restaurantes. Eles foram do zero ao 100% e nós ao contrário.”

O que dizem as plataformas

E terão as plataformas adaptado o seu modelo de negócio, num momento de pico de procura com a pandemia? “O valor dos serviços prestados através da Glovo não sofreram alterações, a não ser em situações muito específicas, como é o caso da colaboração que temos com algumas instituições de solidariedade social, em que o serviço chega a ser gratuito”, diz fonte oficial da Glovo.

“É importante sublinhar que a principal fatia do valor referido vai para os estafetas, que têm sido também heróis nacionais por assegurarem que as pessoas não precisam de sair de casa”, refere a mesma fonte.

“Apoiamos todos os esforços para ajudar o setor da restauração e é, por isso, que concentramos a maior parte do nosso trabalho em aumentar a procura de utilizadores para os restaurantes, incluindo milhares de restaurantes locais e independentes. Sabemos que essa é uma das principais preocupações dos nossos parceiros nestes tempos sem precedentes”, reage fonte oficial da Uber Eats.

A plataforma descreve os esforços já realizados para apoiar o setor.”Lançámos várias iniciativas em Portugal para apoiar restaurantes durante esta situação difícil: removemos a taxa de entrega para todos quando o estado de emergência foi acionado, o pagamento diário em vez de semanal, eliminámos taxas de ativação para novos restaurantes que aderem à aplicação e temos uma equipa dedicada para a rápida integração (média de 48 horas) de novos restaurantes”, descreve. “Todas estas ações foram investimentos suportados integralmente pela Uber para gerar procura e apoiar os mais de 3000 restaurantes parceiros.”

Efetivamente, de março até 3 de abril, os clientes que usavam a aplicação não pagavam a taxa de entrega em casa, mas os restaurantes continuam a pagar a comissão de 30%.

“As comissões dos restaurantes parceiros variam e dependem da negociação comercial”, destaca fonte oficial da Uber Eats. A comissão que dá acesso à plataforma tecnológica, logística e de apoio ao cliente. Ou seja, além de uma rede de parceiros de entrega e gestão das rotas, remunera os rendimentos dos estafetas, paga os seguros e material de entrega; dá acesso a um novo canal de vendas com serviços de marketing associados; gestão e processamento dos pagamentos, bem como de apoio ao cliente final. “Caso aconteça algum problema com a entrega, somos nós que assumimos”.

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