Como o Banif e a Madeira se confundem

A instituição Banif - Banco Internacional do Funchal confunde-se

com a Madeira, não só por ser o seu primeiro e único banco mas

pelas relações próximas com o poder político e a governação de

Alberto João Jardim ao longo de três décadas. O comendador Horácio

Roque "fazia tudo pela ilha. Tinha um carinho especial e uma

veneração pelo presidente do governo regional. Ajudou-o muito,

sobretudo em alturas de aperto", explica quem viveu por dentro o

nascimento e crescimento do banco mas exige anonimato.

Leia aqui a entrevista a Jorge Tomé

"Houve muitos salários da função pública regional pagos

pelo Banif, adiantamentos que depois se converteram em créditos. A

tesouraria do governo esteve várias vezes sem dinheiro e era preciso

resolver as situações. Horácio Roque foi muito importante para a

Madeira singrar os caminhos da autonomia, continuando essa ligação

privilegiada ao longo dos tempos e até à sua morte. Uma grande

perda para a região", referiu ao Dinheiro Vivo outra fonte

contactada.

Neste momento, o Banif continua a ocupar posições de liderança

nas ilhas, Madeira ( 26%) e Açores (34%), com a quota de mercado

média em Portugal a rondar 4%. Esta relação próxima com as

autonomias é antiga e estendeu-se aos Açores, sobretudo a partir de

1996, quando o futuro da Açoreana Seguros passa pela integração no

grupo Banif. Mas o caso da Madeira é especial. Foi o ponto de

partida, não sendo por acaso que ainda hoje se mantêm figuras

gradas do PSD/M nos corpos sociais do grupo, caso do deputado

regional social-democrata e vice-presidente da Assembleia Legislativa

regional Miguel de Sousa, atual presidente da mesa da assembleia

geral do Banif, e que durante anos ocupou vários cargos no executivo

regional. O mesmo acontece com Paulo Fontes, deputado do PSD/M, vogal

do conselho estratégico do banco e o homem forte do Banif -

Investimentos na Madeira. Paulo Fontes foi também, durante muitos

anos, secretário regional das Finanças do executivo de Jardim. Mas

se o governo regional tinha por parceiro o grupo, o mesmo aconteceu

com os empresários madeirenses, que viram os seus projetos

financiados pelo banco.

Em 2005, aquando da inauguração do Banif em Londres - Cavaco

Silva foi convidado de honra do jantar -, integraram a comitiva de

notáveis nomes como o empresário madeirense Jorge Sá, proprietário

de uma cadeia de supermercados que faliu, uma realidade cada vez mais

recorrente num cenário de crise profunda da economia madeirense.

Nesta saga nascida a 15 de janeiro de 1988 (comemora este mês 25

anos), data que assinala a constituição do Banif, esta instituição

arrasta consigo raízes bem mais regionalistas, confundindo-se com a

vida dos madeirenses em geral e com os emigrantes, em particular da

Venezuela e da África do Sul. O Banif tem o seu berço na Associação

Mutualista 4 de Setembro de 1862, que ainda hoje existe com sede

frente ao Banif no Funchal, no quarteirão da Rua João Tavira. Ainda

hoje paga uma renda generosa a esta associação.

No início, e para conseguir viabilizar a sua missão, a

associação criou, ainda no tempo do Estado Novo, a Caixa Económica

do Funchal, instituição limitada ao exercício da banca comercial.

No pós-25 de Abril, a nacionalização da banca não englobou as

caixas económicas. "Na Madeira, alguma elite ligada ao

movimento separatista FLAMA começa a acarinhar a Caixa Económica do

Funchal, a ela acorrendo com os seus depósitos e poupanças, tendo a

sua atividade sido alargada a outras modalidades de prestação de

serviços bancários, nomeadamente a emissão de cheques. Manteve-se,

porém, vedada ao desconto de letras bancárias e à atividade

transnacional, como câmbios", explica um dos homens que

acompanharam esta fase da instituição. Devido à situação

política e "havendo desconfiança relativamente à banca

nacional", a Caixa expande-se e começa a abrir agências em

toda a ilha ganhando grande popularidade na emigração. Os depósitos

sobem exponencialmente. "A Caixa Económica foi o braço armado

da autonomia, a que Alberto João Jardim se socorria com frequência,

muitas vezes trabalhando a descoberto. Com o avançar dos anos,

sucedem-se os erros com o crédito malparado. Devido a um passivo

avultado, entretanto acumulado, e à impossibilidade de ter acesso a

toda uma panóplia de serviços bancários, decidiu-se desanexar a

Caixa da Associação 4 de Setembro", recorda. Foi necessário

ter a concordância de 76% dos associados, na maior parte de

funcionários da Caixa. Abdool Karim Vakil, um gestor e economista

português nascido em Moçambique e que mais tarde criaria o banco

Efisa, era quem os representava nas assembleias gerais.

É por esta altura que surge o empresário madeirense Joe Berardo,

que traz consigo o seu amigo e sócio na África do Sul Horácio

Roque. É desta forma que surge o Banif, inicialmente ostentando a

sigla BIF (Banco Internacional do Funchal). A Associação Mutualista

4 de Setembro ganha uma posição de 30% no grupo de acionistas,

ficando os restantes 70% entregues a acionistas continentais e

locais.

O controlo era de Horácio Roque e Joe Berardo. Aliás, o que hoje

é conhecida por Quinta Berardo, no Monte (Funchal), era uma

propriedade hipotecada à Caixa Económica, pertencente à família

Góis Ferreira. Entretanto, Joe Berardo sai do leque de acionistas e,

após os sucessivos aumentos de capital, Horácio Roque acaba por

assumir a liderança. Depois da morte do comendador, em 2010, o banco

ficou entregue às filhas de Horácio Roque, que convidaram Jorge

Tomé (leia a entrevista aqui) para assumir a gestão.

*No Funchal

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