Compras entregues em 15 minutos já chegaram a Portugal

Faltam ovos, manteiga ou sal para cozinhar o jantar? Agora há plataformas que resolvem o problema com encomendas na aplicação e produtos enviados de armazéns no centro das cidades. Um mercado que está a consolidar-se após crescimento explosivo na pandemia.

É hora do jantar e, de repente, faltam ovos e sal para completar o cozinhado. Sem hipótese de pedir ajuda à vizinhança e sem vontade de procurar a loja mais próxima, como resolver a situação?

Foi a pensar em peripécias como estas que nos últimos anos começaram a surgir plataformas que entregam compras de mercearias em 10 ou 15 minutos. Estados Unidos e Turquia foram os primeiros países, mas o coronavírus trouxe a solução para a Europa e nos próximos meses vai chegar a Portugal.

O segredo para entregas tão rápidas está na instalação de lojas sem acesso ao consumidor (dark stores) no centro das cidades. "Cada loja tem capacidade para entregar 600 pedidos por dia; quando isso é ultrapassado, abrimos um espaço novo, a alguns quarteirões de distância", explica ao Dinheiro Vivo o responsável de operações da Dija, o português José Gramaxo - não perca este nome de vista.

Cada um destes espaços tem pelo menos dois mil itens, como fruta, legumes, farinhas, ovos e manteiga, passando por fraldas e produtos de beleza. Normalmente, não se entrega carne ou peixe frescos.

Os corredores têm tamanho semelhante aos dos supermercados e os artigos estão organizados por prateleiras. Em vez de clientes, no entanto, há estafetas a colocarem as encomendas dentro das mochilas, para depois as entregarem em casa. Para acelerar o processo, cada dark store tem locais próprios para colocar motas e bicicletas.

"Há três ou quatro minutos para recolher os produtos nas lojas. Depois, sobram seis ou sete minutos para as entregas", detalha ao Dinheiro Vivo o especialista na área das entregas Pedro Vasconcelos.

Todo o processo - da encomenda à entrega - pode ser acompanhado através de uma aplicação móvel, que mostra todos os passos aos utilizadores.

As plataformas conseguem controlar toda a cadeia de valor e as margens de lucro: arrendam as lojas, compram diretamente aos fornecedores (alguns deles locais) e, em alguns casos, proporcionam os meios de transporte aos estafetas, que são contratados.

Habitualmente, não há montante mínimo para o pedido mas é cobrada taxa de entrega fixa.

O modelo difere das encomendas dos supermercados entregues em casa. Aí, os estafetas têm de deslocar-se ao supermercado - exemplo das plataformas Uber Eats e Glovo, com entregas em 30 minutos, pelo menos - ou os cabazes são enviados através de armazéns centrais, longe do centro das cidades (podendo demorar várias horas).

Também há diferenças para empresas como Mercadão e 360hyper, cujos estafetas deslocam-se às lojas parceiras e fazem as entregas de compras mais volumosas no período de duas a quatro horas.

Arranque tímido em Portugal

Embora com pouca divulgação, o negócio das entregas em 15 minutos já começou em Portugal. Exemplo disso é a Bairro.shop: tem um armazém no Marquês de Pombal, em Lisboa, e consegue entregar os produtos, em média, no espaço de 15 minutos se os pedidos forem feitos no raio de um quilómetro. Para já, não cobra taxa de entrega.

A Glovo entrou neste mercado em maio do ano passado, com a abertura do primeiro centro, em Lisboa. Atualmente, tem quatro espaços do género na região da capital e a primeira loja foi inaugurada neste mês no Porto. "Prevemos ter mais 12 espaços até ao final do ano", respondeu fonte oficial da empresa espanhola. Consegue entregar as encomendas em menos de 20 minutos e cobra a taxa de 1,79 euros.

No mercado das entregas, a tecnológica espanhola tem a norte-americana Uber Eats e a estónia Bolt como principais rivais. A Uber, para já, não vai apostar em armazéns próprios para entregas; pelo contrário, a Bolt já anunciou que Portugal será um dos dez primeiros mercados europeus que vão receber, até ao final deste ano, o serviço Bolt Market, para entregas em 15 minutos.

Fusões rápidas

A alemã Gorillas é uma das plataformas mais conhecidas a nível mundial e mantém há alguns meses dezenas de posições abertas para Lisboa. Contactada, a empresa recusou esclarecer se e quando vai explorar o mercado português.

A Gorillas nasceu há menos de dois anos mas rivaliza com concorrentes mais experientes: a norte-americana GoPuff e a turca Getir, fundadas em 2013 e 2015, respetivamente.

"A covid-19 acelerou este tipo de empresas, que começaram a nascer como cogumelos. Perante a concorrência e com a tecnologia montada tentam levantar capital para conseguirem entrar no mercado", nota Pedro Vasconcelos.

Assim como nasceram, as novas tecnológicas têm sido rapidamente fundidas ou compradas. Exemplo disso é a Dija - referida alguns parágrafos antes. A empresa foi comprada pela GoPuff poucos dias depois de o Dinheiro Vivo ter entrevistado José Gramaxo para este trabalho. Em maio, os norte-americanos já tinham comprado a britânica Fancy, também especialista em entregas de proximidade.

Tal como em outras áreas tecnológicas, há pouco espaço para concorrentes. "O mercado apenas acomoda uma ou duas empresas. As grandes plataformas têm uma abordagem muito agressiva no mercado para tentarem captar clientes. A competição será feita pelo preço, o que obriga a constantes injeções de capital", acrescenta o especialista.

Do lado do investimento, Stephan Morais sinaliza as dificuldades de rentabilizar os negócios. "Esta categoria não tem provado ser rentável, exceto para itens como álcool e cigarros, pelo que tem menos interesse por ser mais limitada. Como existe a necessidade de muito investimento no aluguer dos espaços, isso leva a custos enormes. Veremos se essas empresas conseguirão justificar todo o capital investido", atenta o líder da sociedade de capital de risco Indico (investidor na 360Hyper).

Mais confiante, José Gramaxo destaca: "Temos uma procura constante e não há apenas os "picos" de entregas ao almoço e ao jantar".

Mercearias em risco

Ainda não se percebeu se os novos negócios de entrega ultrarrápida serão um complemento à oferta que existe no mercado ou se poderão retirar alguns consumidores de outras áreas do retalho. As plataformas parecem ser acolhidas pacificamente em Portugal.

O diretor-geral da associação que representa as empresas de distribuição (APED) recorda que "a maioria das marcas tem serviços de entrega que foram particularmente importantes no período de confinamento". Gonçalo Lobo Xavier entende que "a capilaridade do retalho alimentar e os novos modelos de lojas de proximidade, são uma realidade que está presente", indicando a capacidade do setor de se "adaptar às necessidades do consumidor".

A Sonae MC, dona do Continente, "acredita na proposta diferenciadora ímpar" das suas marcas e recorda que "está no mercado das entregas de produtos, "através de parcerias com a Glovo, Uber Eats e Bolt Food, em várias cidades do país, com o objetivo de reforçar a proposta de valor de conveniência aos clientes".

Stephan Morais considera que "ninguém precisa de compras em 10 minutos que não sejam urgentes" e que as novas plataformas "não servem para uma semana inteira" e, assim, encher a dispensa.

Pedro Vasconcelos teme que as lojas de bairro e as pequenas mercearias sejam as mais penalizadas. "As pessoas, em vez de comprarem um pacote de batatas fritas recebem o artigo em casa em 10 minutos a preços bastante competitivos. Este negócio vai acabar por fazer parte das nossas vidas."

Resta saber se Portugal vai ser um mercado com escala suficiente para receber este tipo de plataformas ou se os serviços ficarão restringidos às principais regiões, de Lisboa e do Porto.

Também é expectável que dentro das lojas, daqui a alguns anos, em vez de estafetas, os cabazes sejam totalmente montados por sistemas autónomos, reduzindo custos e ainda mais o tempo de entrega.

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