Coopérnico. "Próximo desafio é o armazenamento" das renováveis

Associação de energias renováveis aponta os principais do desafio do setor e admite parcerias para aumentar a sua produção energética

A Coopérnico, uma cooperativa de energias renováveis, quer ter 100% de energia renovável e acessível a todos em 2050. É com esta meta que está a trabalhar, garantindo a produção de energia renovável equivalente ao consumo atual dos seus 664 membros, que podem investir em projetos de produção de energias renováveis e adquirir energia verde.

A Coopérnico já investiu quase 500 mil euros em projetos energéticos. O último projeto - e também o de maior dimensão até ao momento - foi anunciado no início de maio e financiado em menos de uma hora. Consiste numa central fotovoltaica de 100KW qu vai produzir energia equivalente ao consumo anual de 71 famílias portuguesas, no concelho de Espinho.

Em entrevista por escrito ao Dinheiro Vivo, a propósito do Dia Mundial da Energia, o presidente da Coopérnico, Nuno Brito Jorge (NBJ) e Susana Fonseca (SF), membro da direção, fazem o balanço das energias renováveis em Portugal e apontam as metas que ainda estão por alcançar.

 

Que balanço fazem do papel da energia renovável em Portugal?

NBJ: É sabido que Portugal é um dos campeões europeus, até mundiais, das energias renováveis. Infelizmente, nos anos da crise, o setor sofreu um abrandamento severo, tanto nos grandes como nos pequenos projetos. Temos sistematicamente mais de 50% da energia consumida nas nossas casas proveniente de fontes renováveis e isso é notável.

Agora parece que estamos numa segunda época dourada das renováveis, mas com duas diferenças essenciais: dominada pelo solar e marcada por projetos que funcionarão sem necessidade de subsídios e incentivos.

O que é que ainda está por fazer?

NBJ: Em primeiro lugar, os restantes 50%. Até termos um sistema 100% renovável teremos sempre trabalho a fazer.

Do nosso ponto de vista, falta também assegurar que temos um sistema energético por e, sobretudo, para os cidadãos. De pouco ou nada servem tantas renováveis, mobilidade elétrica e conversas sobre smart cities se as pessoas não tiverem também acesso aos benefícios tangíveis, acesso aos seus consumos reais e um sistema energético focado nas suas necessidades.

Neste sentido, Portugal, pioneiro em renováveis, está a ficar para trás no apoio aos projetos de energia promovidos por grupos de cidadãos ou comunidades locais. Escócia, França, Alemanha, Inglaterra, Holanda, todos têm medidas específicas para apoiar projetos promovidos por cidadãos (às vezes, só em cooperativas, noutros casos incluindo crowdfunding por empréstimo e outros modelos de negócio). Até a Comissão Europeia, no novo pacote energético, define comunidades de energia locais e renováveis.

Também no aspeto regulatório precisamos de melhorias. A forma como o sistema energético é regulado hoje começa a ser antiquado e desajustado. Por exemplo, na forma como se remunera o transporte e distribuição de energia, como se fazem as leituras e estimativas...

A nível global, diria que o desafio tecnológico da produção já está resolvido. Já temos tecnologia madura para abastecer grande parte das necessidades energéticas mundiais a partir de fontes renováveis e o próximo grande desafio é o do armazenamento. Quando formos capazes de armazenar eletricidade com um bom custo/benefício, o 100% renovável pode tornar-se uma realidade rapidamente.

E há outro setor a precisar de um “empurrão” em Portugal que vai ajudar, a mobilidade elétrica…

A tendência tem sido apostar nas hídricas e eólicas e o solar só está a crescer agora. O que é que é preciso para implementar efetivamente esta forma de energia?

SF: Acreditamos que o aproveitamento da energia solar pode ser fortemente estimulado com um maior apoio ao autoconsumo e a unidades de pequena produção, pois o seu maior potencial acaba por ser para o consumo imediato após produção e perto dos locais onde a energia é produzida, provocando menos perdas.

Dado que a sua produção tende a ocorrer no período do dia, onde a procura tende a ser muito elevada, existe toda a vantagem em aproximar a produção do local de uso, permitindo uma maior eficiência de todo o sistema.

Para tal é importante promover as potencialidades do autoconsumo e providenciar apoio à decisão de investimento por parte de entidades independentes (por exemplo, as agências de energia) e criar condições para que o excedente de energia produzido possa ser depois compensado, por exemplo, nas horas de vazio, estimulando, desta forma, a instalação de painéis solares nas casas das famílias portuguesas.

Já na área das unidades de pequena produção, cujo objetivo é a de venda direta à rede, é importante criar perspetivas de médio prazo e evitar a situação atual de decisão anual da manutenção ou não dos apoios para o ano seguinte, o que impede o planeamento por parte de quem quer investir nesta área.

Para um salto quantitativo é ainda importante que se verifiquem avanços significativos na capacidade de armazenamento.

Como veem as alterações regulatórias e legislativas no setor?

NBJ: Olhamos com bons olhos para quaisquer alterações regulatórias ou legislativas que venham trazer modernidade ao setor.

O potencial disruptivo que tecnologias como a energia solar, o armazenamento, a mobilidade elétrica e até o blockchain trazem ao mundo da energia representa uma enorme oportunidade de empoderamento e, simultaneamente, independência e partilha para os cidadãos.

Mas a máquina regulatória é lenta a mudar e está fortemente condicionada.

Quanto às alterações recentes, por exemplo nos apoios às renováveis, se por um lado foi pena o abrandamento de 2011-2014, foi importante que o apoio aos pequenos projetos (até 250 kW) fosse mantido. É um garante de estabilidade e redução de risco para os pequenos investidores, como os membros da nossa cooperativa.

O grande desafio que aí vem é o da renegociação das concessões das redes de distribuição, atualmente quase na totalidade concessionadas à EDP e que irão a concurso em breve. É um negócio muitíssimo proveitoso e é de esperar que mais atores tentem participar na corrida. Esperemos que a concorrência ganhe aos jogos de bastidores e os cidadãos sejam os maiores beneficiários destes concursos.

 

Quais consideram ser os principais objetivos a cumprir no próximo ano (até ao próximo dia mundial da energia)?

SF: Os objetivos da Coopérnico passam por aumentar a sua capacidade de produção de energia solar, através do estabelecimento de parcerias com entidades do terceiro setor. Até maio de 2018 temos o objetivo de, pelo menos, duplicar a nossa capacidade de produção, sendo que, neste momento, temos uma potência instalada de 391 kW.

Para o país, gostaríamos de ver maior estabilidade no apoio à produção de energia renovável em unidades de pequena produção, visto que a decisão do apoio, ou não, é decidida ano a ano e sempre no final de cada ano civil, o que deixa pouca margem para planeamento de médio prazo.

Qual o papel das cooperativas de energia renovável no desenvolvimento do setor em Portugal?

SF: As cooperativas como a Coopérnico podem contribuir através da facilitação da ligação entre quem quer investir e quem tem as condições para a implementação de projetos de aproveitamento de energias renováveis. No caso da Coopérnico, permitimos que organizações do terceiro setor possam usufruir de uma compensação financeira pelo arrendamento do espaço, passando a ser detentoras de todo o sistema a médio prazo. Sem o apoio dos cidadãos que investem nestes projetos dificilmente estas instituições teriam capacidade para avançar por si.

As cooperativas têm ainda a mais valia de promover o envolvimento dos cidadãos (dos seus cooperadores) no desenho e implementação de um novo modelo energético, onde os cidadãos deixam de ser meros recetores de energia, para poderem passar a estar diretamente envolvidos nas decisões que são tomadas sobre como devemos produzir a nossa energia.

A Coopérnico permite ainda que os seus membros conheçam a forma como as suas poupanças estão a criar valor para a sociedade em geral, para além de eventuais benefícios sociais, pois trata-se de investimentos em soluções que promovem a sustentabilidade da sociedade como um todo.

NBJ: Queremos também dar a possibilidade às pessoas de comprarem energia verde para as suas casas e trabalhamos nesse sentido. Pertencendo a uma cooperativa comercializadora, os cidadãos são donos da sua própria empresa de energia, participando ativamente (se assim o entenderem) na sua gestão. É uma filosofia democrática e de propriedade partilhada diferente daquilo que estamos habituados a ver em Portugal, mas que conta com inúmeros casos de sucesso na Europa.

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