Covid-19. Cinema parado adia vida dos trabalhadores

Estreias canceladas e uma rodagem adiada é o cenário com que se depara Rodrigo Areias, a grande preocupação agora é a vida suspensa dos profissionais.

"Há um adiamento de um ano na nossa vida, como se o riscássemos no calendário. Não há grande perspetiva para que as coisas possam ser respondidas no curto prazo", lamentou.

Rodrigo Areias, realizador e produtor, fundador da produtora Bando À Parte, contava ter estreado esta semana o mais recente filme, "Surdina", não fosse a pandemia da covid-19 obrigar ao encerramento de todas as salas de cinema.

As medidas restritivas levaram, aliás, a uma paralisação do setor cultural, da criação à produção, já lamentada por centenas de profissionais e agentes culturais.

No caso da Bando à Parte, atualmente com mais de duas dezenas de projetos cinematográficos em curso, em diferentes estágios de criação e produção, Rodrigo Areias deu alguns exemplos do impacto da paralisação.

Além do adiamento da estreia de "Surdina", que contava com uma série de cine-concertos com o músico Tó Trips, foi cancelada a rodagem do filme "Não sou nada", de Edgar Pêra, "um 'thriller' psicológico dentro da cabeça de Fernando Pessoa", com um elenco grande e dezenas de técnicos contratados.

O produtor anulou ainda a estreia em sala nos Estados Unidos de outro filme de Edgar Pêra, "Caminhos Magnétykos", de 2018. Estava marcada para maio, mas as salas norte-americanas também estão fechadas.

"É pena. Pela primeira vez um filme do Edgar ia ser distribuído nos Estados Unidos. Decidimos acionar um plano B", que é manter exibição do filme, que já estava prevista em maio, na plataforma de 'streaming' da Amazon.

"De repente estamos a ir contracorrente com toda a nossa linha estratégica e não sabemos sequer quando é que as pessoas voltarão ao cinema", sublinhou Rodrigo Areias.

Há um mês com produções paradas, desde que foram decretadas medidas de contenção da pandemia da covid-19, o produtor esclarece que o que tenta neste momento é gerir as pessoas com quem trabalha direta e indiretamente.

"As pessoas com quem tenho um contrato de trabalho -- cerca de uma dezena - estão a receber por inteiro, porque eu achei que é assim que deve ser", mas há ainda as dezenas de trabalhadores a recibos verdes que ficam sem trabalho.

"Essa falta de proteção aos profissionais da cultura, que sempre existiu, nestes momentos passam a ser absolutamente dramáticos. O que estou a fazer é gerindo pessoa a pessoa, caso a caso, dada a minha proximidade com a maior parte das pessoas com quem trabalho. E garantir que estão bem, em casa, seguras", disse.

Referindo-se a uma "precariedade contínua e histórica" no setor cultural, que se agudiza num cenário como o que se vive hoje, o produtor considera que a responsabilidade da tutela é "garantir que essas pessoas tenham alguma rede".

"Quando retomarmos, é importante que os atores sejam atores e os técnicos sejam técnicos. Se quando sairmos daqui só houver escombros, teremos todos um problema para gerir. Quando uma estrutura de produção espera um bocadinho para fazer um filme, alguém fica sem comer. Isso é que é o drama disso tudo, não é fazermos filmes com menos dez, vinte ou trinta por cento de orçamento", afirmou.

A nível global, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 145 mil mortos e infetou mais de 2,1 milhões de pessoas em 193 países e territórios. Mais de 465 mil doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 629 pessoas das 18.841 registadas como infetadas.

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