CP saiu da emergência mas precisa de mais recursos

Um ano depois do arranque do plano de recuperação, falta dinheiro, trabalhadores e novo material para a empresa ferroviária retomar normalidade.

“Há uma melhoria da oferta, com muito menos falhas de material.” Luís Bravo lidera o SFRCI, sindicato que representa os revisores e funcionários das bilheteiras da CP e nota, no terreno, a transformação que a empresa ferroviária sofreu nos últimos 12 meses.

Há um ano, o Governo aprovou o plano estratégico para a transportadora e retirou-a do rumo da falta de material para sequer cumprir as viagens programadas de norte a sul do país. Só que ainda falta dinheiro, trabalhadores e novos comboios para a CP retomar a normalidade, reclamam os sindicatos e a comissão de trabalhadores.

Voltar a pôr os comboios na linha foi a principal prioridade do primeiro ano deste plano, executado por Nuno Freitas, nomeado presidente da transportadora em 18 de julho do ano passado. Substituiu Carlos Gomes Nogueira e voltou a pôr um ferroviário à frente da CP, o que já não acontecia há praticamente duas décadas.

A primeira etapa do plano passou sobretudo por recuperar dezenas de unidades que estavam encostadas no Entroncamento nas reabertas oficinas de Guifões (Matosinhos), fechadas na era da troika. A 1 de janeiro, concretizou-se a fusão da EMEF com a CP, garantindo que as oficinas circulam no mesmo carril da operação.

As linhas regionais não eletrificadas são as mais beneficiadas: foi iniciada a recuperação de carruagens Schindler, da década de 1940, que liberta as autotomoras da série 592 (alugadas a Espanha) para evitar supressões nas linhas do Oeste, Alentejo e Algarve. Ao pôr as Schindler de volta aos carris, a Linha do Douro também ganha material circulante que permite contemplar a paisagem do Douro Vinhateiro.

Em Guifões, além de terem sido recuperadas duas carruagens Schindler - que se juntaram às seis intervencionadas em 2017 -; ganharam nova vida 5 locomotivas elétricas da série 2600 - que vão estrear a catenária da Linha do Minho no final deste ano -; e ainda quatro carruagens Sorefame, para o serviço Intercidades.

Até ao final do ano, serão ainda recuperadas mais 11 carruagens Schindler, 10 carruagens Sorefame, 2 locomotivas 2600 e ainda oito automotoras para a Linha de Sintra.

O plano para a CP rompeu com um passado de redução de material. Mas a recuperação “poderia ser mais célere, e até mais económica, tivesse a CP maior orçamento”, defende a comissão de trabalhadores. A empresa dispõe de um ‘envelope’ de 25 milhões de euros para executar as medidas ao longo deste ano.

Com mais de seis meses de atraso, a CP também vai passar a ser compensada pela execução do contrato de serviço público e que deverá ser aprovado durante o mês de julho - só para este ano, estão previstos mais de 88 milhões de euros.

Ainda faltam trabalhadores

A CP também inverteu a marcha de saída de trabalhadores: no último ano, entraram 187 funcionários, para as oficinas, para a área comercial e para as operações. Além disso, foi criado um mecanismo de substituição automática dos membros dos quadros que se reformarem ou saírem.

Só que as entradas são insuficientes para as necessidades da empresa. “Não tem sido acautelada a substituição de trabalhadores. A sua admissão tem de andar à frente das saídas para haver um período de transmissão de conhecimento, que dura entre seis e nove meses”, alerta José Manuel Oliveira, coordenador da federação sindical dos transportes FECTRANS.

As carências afetam as oficinas e a parte comercial. Para a manutenção, “faltam pelo menos 100 pessoas”, segundo José Manuel Oliveira. Na área comercial, “são necessários 30 revisores (para diminuir as horas extraordinárias, que chegaram a atingir as 400 horas em 2019) e ainda 30 pessoas para as bilheteiras, sobretudo no Algarve, Beira Alta e mesmo na região de Lisboa, segundo Luís Bravo.

A CP também precisa de reforçar a equipa de maquinistas, por causa das reformas, avisa António Domingues, do sindicato dos maquinistas SMAQ. “Em 2021, 35 pessoas vão chegar aos 65 anos. O número é ainda maior em 2022.”

Exige-se também uma melhoria dos rendimentos “porque o salário oferecido aos trabalhadores especializados pouco ultrapassa o salário mínimo nacional”, lembra a comissão de trabalhadores. O ordenado de entrada para as oficinas é de 700 euros, o que limita as contratações, sobretudo na região de Lisboa. Valor semelhante é praticado para os revisores.

No último ano, a CP conseguiu ainda fechar, com os sindicatos, um novo acordo de empresa para os maquinistas e outro para as restantes categorias, que já não tinham qualquer alteração desde 2003 e 1999, respetivamente.

Só que as exigências não cessam e os trabalhadores lembram ainda que está parado o processo de aquisição de 22 novos comboios regionais - por causa da impugnação de um dos derrotados. Além disso, exigem um plano de industrialização que permita a Portugal fabricar os próprios comboios.

O plano de investimento conta com um orçamento de 45 milhões de euros até ao final de 2022 para pôr a CP na linha do crescimento e dar-lhe argumentos suficientes para enfrentar eventual concorrência nos próximos anos.

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