Web Summit 2019

Da Maurícia ao Irão. As Nações Unidas das startups

REUTERS/Pedro Nunes
REUTERS/Pedro Nunes

A cada dia, nos pequenos stands, novas ideias. Contaram-se 2150 startups. Fomos conhecer exemplos do que se faz do outro lado do mundo.

Há quatro anos em Portugal, a Web Summit é caracterizada não só pela diversidade de empresas e de tecnologias mas também pela variedade de nacionalidades. Em três dias de cimeira tecnológica, a capital portuguesa acolheu mais de 150 nacionalidades. Fomos conhecer algumas das mais distantes.

Toka Samir ao lado de Soliman, da Botme (Filipe Amorim / Global Imagens)

Toka Samir ao lado de Soliman, da Botme (Filipe Amorim / Global Imagens)

1. Botme – Bots que falam com clientes
Durante um ano respiraram código, focados em criar uma plataforma de criação de bots robusta para ajudar as empresas a falar com os seus clientes e a vender os produtos através do Messenger ou do WhatsApp. Toka Samir, gestora de desenvolvimento de negócio, faz parte da equipa fundadora da Botme e conta com orgulho o percurso da startup, uma das sete do pavilhão egípcio na Web Summit. “Tivemos muitos encontros com investidores para podermos aumentar as oportunidades de investimento.”

Começaram há menos de um ano com um investimento inicial de cem mil dólares, mas mais de 1900 clientes depois – entre os mais recentes estão a empresa de restauração Cinnabon Egypt e a seguradora Allianz Egypt – estão a avançar para uma segunda ronda. “Estamos à procura de candidatos. Procuramos algo na ordem dos seis dígitos”, diz. “O ecossistema de startups no Egito está cada vez mais forte. Temos mentes brilhantes e pessoas que percebem dos problemas da comunidade e estão a criar soluções reais”, garante. Em breve um clube de futebol egípcio vai usar os chatbots da Botme. Qual? Não diz.

Julien Faliu, da Expat.com (Filipe Amorim / Global Imagens)

Julien Faliu, da Expat.com (Filipe Amorim / Global Imagens)

2. Expat.com – Apoiar expatriados a partir do Índico
Julien Faliu nasceu no sul de França e há 15 anos tornou-se nómada. Viveu em Londres, Paris, Barcelona e Madrid, grandes capitais onde, “apesar de estar rodeado de milhões de pessoas, era como se estivesse sozinho”. Além da falta de companhia, Julian sofria com a falta de informação. “Quando mudas de país não sabes por onde começar, com as burocracias e as formalidades.” Foi quando se mudou para a Maurícia, onde vive atualmente, que Julien Faliu decidiu criar um blogue para ajudar as comunidades de expatriados de todo o mundo. Além de guias das cidades e outros conteúdos práticos, o expat.com tem uma componente de rede social, que funciona como “facilitador de networking”.

O projeto que nasceu como blogue é hoje uma empresa que fatura um milhão de euros por ano, tem 2,6 milhões de utilizadores e emprega 23 pessoas na Maurícia. O fundador e CEO esteve na Web Summit à procura de investidores e parceiros para crescer. A plataforma está disponível em cinco línguas, incluindo o português, que foi acrescentado recentemente. A expat.com procura, aliás, um gestor de comunidades online fluente em português para se juntar à equipa. O principal desafio de gerir uma startup numa ilha do Índico é o recrutamento, confessa. Um obstáculo que acaba por ser compensado pela qualidade de vida. “Trabalhamos muito, mas aos fins de semana aproveitamos as praias paradisíacas.”

Mohamed Khashaba e Mohamed Abdallah, fundadores da Takestep. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Mohamed Khashaba e Mohamed Abdallah, fundadores da Takestep. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

3.Takestep – Combate a dependências
Conhecendo de perto o mundo das dependências, Mohamed Khashaba, engenheiro biomédico, decidiu pôr mãos à obra na sua terra natal, o Egito. Criou a Takestep, uma plataforma que liga todos os envolvidos no ciclo de reabilitação e recuperação de dependências.

Com clientes em vários países do Médio Oriente e de África, o fundador da Takestep veio à cimeira, depois de ter passado já pela Collision – conferência irmã da Web Summit no Canadá. E na mala trouxe uma ideia clara: “Portugal tem já feito um grande esforço para lutar contra as dependências. Os números de pessoas a sofrer de dependências diminuíram nos últimos dez anos. Portugal pode vir a ser um hub para lutar contra o vício na Europa.”

James Kevan, da Swiss Gulf Partners (Carlos Costa/Global Imagens)

James Kevan, da Swiss Gulf Partners (Carlos Costa/Global Imagens)

4. SwissGulf Partners – Nova era de recrutamento
James Kevan é britânico de nascimento, mas há 11 anos que o Dubai é a sua casa. Há seis anos lançou uma empresa naquele país – a SwissGulf Partners – de “recrutamento 2.0. Vamos às empresas e tentamos perceber por que fase estão a passar para podemos aconselhar qual o perfil que devem ter as pessoas que vão recrutar e, depois, construímos as equipas. Não somos uma firma de distribuição de currículos. Ajudamos as companhias a chegar ao próximo nível do seu desenvolvimento tecnológico”.

Com clientes espalhados por vários países do Médio Oriente, Kevan veio à Web Summit para ficar a conhecer melhor a realidade europeia, uma vez que têm recebido pedidos de ajuda de várias firmas do Velho Continente.

Fade Ogunro, Bookings Africa (Carlos Costa/Global Imagens)

Fade Ogunro, Bookings Africa (Carlos Costa/Global Imagens)

5 Bookings Africa – Classificados 2.0
Produtora de televisão durante dez anos, num dia Fade Onguro estava a gravar um documentário na África do Sul e no outro a filmar um anúncio no Quénia. Fazia a ginástica possível para manter os custos baixos. “Nunca pude levar grandes equipas da Nigéria para, por exemplo, a Tanzânia, Mombaça, Madagáscar… era preciso encontrar talento nesses países.” Nem sempre era fácil. “Tornou-se uma tarefa tão complicada, que me mostrou quão fragmentada estava a indústria criativa. Eu só pensava, ‘nunca estive na Tanzânia e posso marcar um hotel’, quão difícil pode isto ser?” As dificuldades levaram-na ao que é hoje a bookingsafrica.com, startup que promete resolver esta questão. A empresa nasceu em abril e tem sede em Lagos, na Nigéria, escritórios na África do Sul e no Quénia.

“Sabemos que África tem uma população muito jovem e que um dos grandes problemas é o desemprego. Mas só porque não tens um emprego formal não significa que não faças dinheiro”, explica a empreendedora ao Dinheiro Vivo. “Se uma empresa precisar de uma modelo para uma sessão fotográfica no Quénia, a Bookings Africa é a solução. Somos uma opção monetizada da gig economy”, acrescenta. O negócio nasceu com capitais próprios e, há dois meses, recebeu investimento pre-seed de um fundo de capital de risco. “Agora estamos em três países, mas no final de 2020 quero estar em 20.”

Ehsan Davoudi da Flightio. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Ehsan Davoudi da Flightio. (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

6. Flightio – A transformar as viagens no Irão
Ehsan Davoudi tem os números bem estudados. “A penetração da internet no Irão é de 70% e os jovens representam cerca de 60% do país, que tem 80 milhões de pessoas.” Com 5% do mercado focado no digital, o potencial é enorme, conta o programador. A Flightio é uma agência de viagens online focada na venda de bilhetes de avião e de comboio, mas também na reserva de hotéis. “A nossa empresa é uma das que crescem mais depressa no Irão. Estamos na Web Summit a representar o ecossistema empreendedor iraniano.”

O negócio começou com cinco pessoas e passados quatro anos já são 150. Mas as dores de crescimento não são as que vêm de dentro – as receitas anuais rondam os cem milhões de euros, tem mais de um milhão de utilizadores e vendem mil bilhetes diariamente. “Por causa das sanções dos EUA não podemos obter financiamento de outros países fora do Irão. É uma pena porque o investimento é crucial”, conta o empreendedor. “Para tornar o ecossistema das startups ainda maior era importante poder obter financiamento fora do Irão. As sanções da Google, da Apple ou da Amazon são muito pesadas, não podemos sequer publicar anúncios nestas plataformas. Para os programadores e startups esta conjuntura é muito difícil”, lamenta.

Haittam Al Haidari, da Modaris (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

Haittam Al Haidari, da Modaris (Reinaldo Rodrigues/Global Imagens)

7. Modaris – Tutor à distância de uma app
Haitham Al-Haidari é o cofundador e CEO de uma startup em que o nome é uma alusão a mudaris, a palavra para tutor, em árabe. “Criámos uma plataforma online que liga estudantes a tutores que estejam disponíveis na sua cidade. Assim, é possível encontrar alguém que ensine qualquer disciplina, para marcar uma sessão de estudo cara a cara.” Se inicialmente era usada para Matemática ou Biologia, já há quem peça aulas de cozinha ou dança. Presente em quatro países (Qatar, Austrália, Turquia e Malásia), a empresa prepara-se para crescer. “Nos próximos seis meses vamos expandir-nos para mais quatro países, dois deles são na Europa”, avança Haidari, sem especificar quais.

Nesta segunda passagem pela Web Summit, a startup chega com o estatuto Alpha e uma base de utilizadores mensal de 22 mil pessoas. “Crescemos cerca de 250% nos últimos meses e isto ajudou-nos a atrair muitos utilizadores e investidores.” Com o crescimento da plataforma, a empresa quer triplicar a atual equipa de oito pessoas, com os investimentos já angariados. Haidari reconhece que é difícil ter investimento a nível local: “O imobiliário é uma área de investimento tradicional no Qatar e é muito difícil para os investidores perceber como é que as empresas tecnológicas podem gerar um maior proveito do que o imobiliário.”

Muhirwa Clement, UPlus (Carlos Costa/Global Imagens)

Muhirwa Clement, UPlus (Carlos Costa/Global Imagens)

8. UPlus Partners – Crowdfunding no Ruanda
Muhirwa Clement teve pouco tempo de descanso na Web Summit. “Andámos aqui a correr, a tentar entrar em contacto com outras pessoas e a reunirmo-nos com investidores”, explica o CEO da UPlus Partners, que se estreou na cimeira. Clement é responsável por uma plataforma de financiamento coletivo para o mercado do Ruanda. “A UPlus permite que as pessoas juntem dinheiro em conjunto, para um objetivo específico, através de uma aplicação para Android e iOS. “Ainda estamos numa fase inicial, mas já fechámos rondas de financiamento e temos cerca de cinco mil utilizadores”, indica o CEO da startup, que anseia por investimento para conseguir “escalar o negócio além do Ruanda”.

Clement explica que “as fintechs e as agrotechs estão em franca expansão no Ruanda”: o país está a investir numa “economia cashless, portanto, tudo aquilo que possa ser digitalizado e eliminar o dinheiro físico recebe apoio governamental.” O boom das agrotechs, tecnológicas dedicadas à agricultura, é ainda mais fácil de explicar, afirma Muhirwa Clement: “70% da população do país depende da agricultura, daí o investimento nessa área.”

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