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Dar a conhecer Portugal, um pastel de nata de cada vez

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AHRESP quer fortalecer a rede Taste Portugal para dar a conhecer o País. A Canelas, de Paris, é uma embaixadora

São mais de 1700 quilómetros, mas nunca a distância pareceu tão curta. Todas as semanas, Carlos e Antónia Gonçalves recebem milhares de produtos portugueses nas modernas instalações que construíram para a Canelas – Le Portugal à Paris, em Pierrefite-sur-Seine, às portas da capital francesa. São orgulhosos importadores de leitão, presunto, bacalhau, enchidos, queijos, azeites, sumos e águas nacionais, que comercializam na boutique – a pastelaria de venda ao público -, e que utilizam na confeção de refeições que servem ao meio-dia, tal como nos serviços de catering que fornecem.

Só a D’ovo faz-lhes chegar mais de 800 litros de gemas portuguesas a cada cinco dias. É o ingrediente chave para fazer os pastéis de nata em que a empresa é rainha há mais de 30 anos e que Antónia Gonçalves [a D. Antónia como é conhecida] não se cansa de comparar aos que se fazem por cá, num teste à qualidade do que vende. “Não perco uma oportunidade para provar o que se anda a fazer em Portugal. Vou a Belém, vou a várias pastelarias de Lisboa, e no regresso venho sempre carregada”, conta ao Dinheiro Vivo, enquanto bebe um café Delta acabado de tirar. Em Lisboa é na Rua do Loreto que encontrou o seu novo preferido, um pastel de nata “com uma massinha fina e um creme suave”, que lhe sabe a tradição. Em Paris, orgulha-se de fazer os melhores, mas lamenta a proliferação da iguaria portuguesa que “agora todos vendem por todo o lado, sem preocupação com a qualidade ou com as receitas”.

É uma espécie de moda nova num país conhecido internacionalmente pela sua pâtisserie e que apesar de dar casa a um milhão e meio de portugueses e luso-descendentes, “ainda conhece muito pouco do que é a cultura gastronómica portuguesa”, lembra Jorge Torres Pereira, embaixador português recém chegado a Paris.

É para amplificar a gastronomia portuguesa no estrangeiro, que a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) criou a rede Taste Portugal. Foram identificados mais de 520 restaurantes ao longo dos últimos meses e certificados os primeiros 100 que cumprem as receitas e compram os produtos apesar da distância. Só em França houve 17 certificados, um deles a pastelaria-fábrica de Antónia e Carlos Gonçalves.

“Na Canelas fazemos uma média de 90 a 100 mil natas por semana – nunca imaginámos crescer tanto -, mas a minha grande ambição é poder dar a conhecê-las aos franceses para que tenham ainda mais vontade de visitar Portugal”, assume Antónia Gonçalves.

Agarrou a empresa em 1996, com o marido, depois de uma vida a trabalhar para os outros. Foi operária numa fábrica de borrachas, na indústria do calçado e têxtil e, no início dos anos 90, esteve na venda ao público. Chegou a ter dois empregos ao mesmo tempo para ajudar a família, numa época onde os emigrantes portugueses em França eram mão-de-obra barata e para todos os ofícios.

Mais de 40 anos depois, ainda bebe da fonte que a maior vaga de emigração do século XX originou. São os portugueses os principais clientes da pastelaria. Mas o fornecimento de bolos e pães made in França com sabor a Portugal vai bem mais longe. Todos os dias, quando a cidade da luz dorme, cinco motoristas pegam nos seus camiões e deixam as instalações da fábrica às 02h00. Percorrem até 50 quilómetros à volta da capital francesa e, cada um, visita 20 empresas a quem deixam pão e bolos frescos.

Entre os clientes há vários restaurantes portugueses, supermercados geridos por emigrantes portugueses, mas aos poucos vão-se juntando cadeias e armazéns franceses, como o Carrefour ou o Monoprix, onde em apenas uma tarde de demonstração foram vendidos 1200 pastéis de nata.

A ambição é continuar a crescer. Atualmente Antónia e Carlos empregam 40 pessoas – a grande maioria portugueses – e já contam com a ajuda dos filhos, Sandra e Gil. Em 2011, abriram o capital da empresa a um sócio que assegura o funcionamento da fábrica durante a noite e, nesse ano, também inauguraram as novas instalações da Canelas. Passaram de 200 m2 para mais de 1300. Mas até o espaço está a ficar curto para tanta produção. “Nunca pensámos que ao fim de tão pouco tempo começássemos a ter falta de espaço, mas nestes anos duplicámos a produção só dos pastéis de nata”, confidencia Carlos Gonçalves.

Com cada vez mais facilidade em atrair produtos portugueses para França “e contribuir para as exportações portuguesas”, o grande desafio, no entanto, é outro: “Continuamos com falta de pessoal qualificado, chefs de pastelaria portugueses que possam fazer coisas bonitas, inovadoras”, diz Antónia Gonçalves.

É um problema nacional que está a assolar todo o setor da hotelaria e da restauração e que o casal tem mais dificuldade em resolver estando em Paris. “Há muitos chefs pasteleiros em França, as nós queremos portugueses que possam respeitar e seguir as receitas portuguesas”.

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