De um lado sistemas, do outro cerâmica. Em comum, o sucesso

Duas empresas portuguesas que aparentemente nada têm em comum, mas ambas apontadas pela Comissão Europeia como casos de sucesso

A Critical Materials, fundada em 2009, no pico da crise económica, desenvolve sistemas SHM (Structural Health Monitoring) e tem sede em Guimarães. Em português e de forma simples, são sistemas de análise da saúde estrutural dos materiais que verificam, enquanto as estruturas e os materiais estão em serviço, se há defeitos e qual a gravidade desses defeitos. Fazem o prognóstico da evolução e ajudam a tomar decisões de manutenção e de operação. Esta tecnologia é usada, por exemplo, nas torres eólicas e em estruturas aeronáuticas. Mas as aplicações são infindáveis.

A Dominó, da indústria cerâmica, nasceu em Condeixa-a-Nova no final dos anos 80 pela mão de uma família ligada, desde há três gerações, a duas indústrias tradicionais: a do têxtil e a da cerâmica. Enfrentou muitas dificuldades durante a crise, mas deu a volta por cima, sem despedimentos. Produz pavimentos e revestimentos cerâmicos e exporta 65% da produção para 60 países.

Aparentemente, nada têm em comum. Mas são ambas projetos-âncora apontados pela Comissão Europeia como casos de sucesso no recurso ao investimento europeu e demonstram a diversidade de projetos apoiados pelo Plano Juncker.

Ler mais: Aceder ao investimento europeu, passo a passo

João José Xavier era "muito novo" quando assumiu a presidência do Conselho de Administração da Dominó, em 2005. E após uma fase de crescimento, a crise económica instalou-se e afetou fortemente o sector da construção e, consequentemente, a atividade da empresa. "Entre 2009 e 2013, a Dominó abanou, até reunir uma série de novos investidores e recorrer a novos fundos europeus, através do IAPMEI e apoiada pelo Compete. Mantivemos os postos de trabalho, modernizámos o equipamento produtivo e encontrámos novos mercados para exportação. Dessa fase até hoje, a trajetória tem sido crescente", explicou o administrador ao Dinheiro Vivo. E de acordo com a Comissão Europeia, é o facto de se tratar de uma empresa ligada a uma indústria tradicional, com impacto na economia regional e com cerca de 200 funcionários, que faz da Dominó "um exemplo da boa aplicação de fundos".

A Dominó tem aderido a fundos com diferentes objetivos. Um deles foi a "aposta na internacionalização através da abertura de novos mercados e da angariação de novos clientes", bem como "a compra de equipamento produtivo por forma a aumentar a capacidade de produção e a criar produtos de maior valor acrescentado". O "desenvolvimento de produtos tecnologicamente inovadores com características inteligentes", a "aposta na qualificação e formação da mão-de-obra" e a "certificação da qualidade, ambiente, higiene e segurança" são outras das áreas em que o financiamento foi aplicado.

"Entre 2009 e 2013 revimos o tipo de adesão a investimentos europeus e os mais recentes contribuíram grandemente para a nossa consolidação no pós-crise e para um crescimento sustentado", explicou João José Xavier, destacando também o facto de os novos investimentos terem permitido que não fossem necessários cortes salariais nem despedimentos: "E isso, para quem gere uma empresa desta dimensão, é um resultado muito relevante." BCP, Novo Banco e CGD foram as instituições bancárias envolvidas no processo.

No caso da Critical Materials, com uma história mais recente, o recurso ao investimento europeu teve origem na procura de soluções para "alguns problemas crónicos de tesouraria" com que se debatiam, contou Gustavo Rodrigues Dias, diretor-geral, ao Dinheiro Vivo. Depois, perceberam que se tratava de "um apoio muito mais estruturado", com condições "mais interessantes" do que qualquer crédito bancário convencional.

A empresa tem usado várias ferramentas, umas ligadas a questões mais infraestruturais, como os programas de investigação e desenvolvimento H2020 e FP7, que têm permitido a participação em consórcios importantes. É exemplo disto o projeto com a fabricante norte-americana AirBus, no qual a Critical Materials é a fornecedora tecnológica.

Em termos de meios financeiros, o Plano Juncker permitiu à empresa vimaranense aceder "a crédito bancário em condições muito especiais, que seriam sempre muito difíceis de ter". O Millennium BCP foi a entidade intermediária, mas não é conhecido o valor do financiamento. Foi aplicado fundamentalmente em "cofinanciamento do desenvolvimento do produto" e no pagamento de salários, da presença comercial em fóruns e de missões a potenciais clientes. "No fundo, tudo o que é necessário para fazer crescer a empresa", explicou Gustavo Dias.

Em 2016, a Dominó faturou 15 milhões de euros. "Atualmente estamos com um crescimento acumulado de 8% e contamos terminar o ano de 2017 com um volume de negócios próximo dos 16 milhões de euros", contou o responsável. 65% da produção vai para fora: a Dominó está presente em 60 países, nos cinco continentes. Emprega 200 pessoas, além dos "muitos outros" postos de trabalho indiretos que assegura.

Entre os oito clientes da Critical Materials, conhecem-se a Força Aérea Portuguesa e a EDP. Os restantes estão abrangidos por acordos de confidencialidade. Para já, são apenas 20 funcionários, mas o objetivo é duplicar este número nos próximos quatro anos. Em 2016, o turnover foi de um milhão de euros e, para este ano, é esperado um crescimento de 20%.

Uma cria sistemas, a outra produz revestimentos e pavimentos. De um lado, muitos anos de história e 200 funcionários, do outro, uma história ainda curta e uma equipa mais modesta. Em comum, o sucesso e a resiliência.

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