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Depois da crise com conteúdos de ódio, como está o Google?

Foto: D.R.
Foto: D.R.

Google apertou filtros e a máquina está mais inteligente, mas algumas marcas não mais voltaram. Não há 100% de garantias.

Há informações que fazem gelar uma sala. Para Stephan Loerke esse momento aconteceu quando, há ano e meio, anunciantes foram confrontados numa reunião da World Federation of Advertisers (WFA) com imagens de campanhas ao lado de conteúdos de ódio no Google e YouTube. “O que podemos fazer para impedir isto?”, questionaram.

A resposta não chegou a tempo para impedir que o tema explodisse nas primeiras páginas dos jornais: marcas financiam extremistas. “Algumas marcas retiraram-se do YouTube e nunca mais regressaram”, diz o CEO da WFA. Que marcas da WFA – que reúne a Procter & Gamble, Unilever, Coca–Cola, McDonald’s, Adidas ou Nike e representam 90% do investimento publicitário a nível mundial, cerca de 900 mil milhões de dólares anuais – tomaram essa decisão, Stephan Loerke não revela. Mas a razão é simples. “Há empresas que simplesmente não aceitam estar num ecossistema com o risco de que isso possa acontecer.”

Oito meses depois estará o sistema do Google mais seguro? “Não podemos dar 100% de garantias, mas podemos implementar políticas, regras e princípios que fazem o risco diminuir consideravelmente”, diz Matt Brittin, presidente do Google para o mercado europeu, médio oriente e África (EMEA), fazendo um balanço das medidas implementadas. “O grande foco dos esforços tem sido tornar mais seguro” o ecossistema, diz Dyna Nadja, diretora para o mercado EMEA do YouTube & Video Solutions. Um sistema que, no caso do YouTube, implica lidar com o carregamento diário de 400 horas de vídeo… por minuto.

Apertaram políticas para a publicação de conteúdos; alargaram a definição de “conteúdo de ódio”, permitindo às máquinas detetar conteúdos inapropriados e procuraram remover mais rapidamente conteúdo extremista. As máquinas Google ficaram mais inteligentes: “83% do conteúdo extremista retirado do ecossistema foi através de machine learning, mais oito pontos percentuais que em relação a agosto”, diz Dyna Nadja. Quanto isso representa em números, não revelou.

A ameaça russa
Andres Ferrate, chief AdSpam Advocate, descreve a sua equipa, que combate spam e fraude nos anúncios, como “cientistas guerreiros. “É como jogar xadrez contra um adversário que está sempre a mudar as regras”, diz. Em outubro, quando o pior da crise de março parecia já ultrapassado, o adversário surgiu de uma geografia inesperada: grupos ligados a interesses russos compraram anúncios no Google e YouTube para influenciar resultados das presidenciais americanas de 2016.
O tema chegou nesta quinta-feira ao Senado norte-americano, que teve audições a Google, Facebook e Twitter.

As presidenciais de 2016 nos Estados Unidos foram as primeiras eleições em que o Google ofereceu a possibilidade de chegar aos utilizadores com base em interesses políticos. Em setembro, a empresa ainda acreditava não ter sido alvo de ataques russos, como aconteceu com as redes sociais como o Facebook (que já admitiu que 126 milhões de americanos foram impactados por estes anúncios), mas em outubro tudo mudou. Uma investigação interna concluiu que a Internet Research Agency, grupo ligado a interesses russos, tinha, durante as eleições americanas, gasto 4700 dólares para colocar anúncios e criado canais no YouTube para carregar pequenos vídeos sobre questões raciais, a Síria ou a atuação das forças de segurança. Foram encontrados 18 canais – já suspensos – que carregaram 1,108 vídeos, com 43 horas de conteúdos e que geraram 309 mil visualizações. Apenas 3% obtiveram mais de 5 mil visualizações.

Os “filtros” não foram 100% eficazes, mas a companhia está a apertar: vão exigir que os anunciantes se identifiquem e onde estão localizados antes de poderem fazer campanhas políticas. Os utilizadores também vão perceber quem são os anunciantes no Search, YouTube ou na rede Google Display pelo ícone “Porquê este anúncio”. E, em 2018, o Google vai publicar um relatório de transparência sobre os anúncios de eleições, revelando quem está a comprar anúncios e quanto gastou.

Nas marcas, março de 2017 ainda está presente. Há um antes e um depois. “Até à onda de choque, as marcas delegavam muito das decisões de investimento nas agências de media, mas os CEO agora olham para o assunto da segurança”, diz Stephan Loerke, da FWA. “Há um interesse crescente das marcas em considerar o contexto [em que surgem as campanhas] e não apenas o custo por impressão”, ou seja, quanto tem de pagar para que a sua campanha chegue aos consumidores, frisa. Qual o impacto desta onda de choque no investimento das marcas no Google? A avaliar pelas contas da empresa, muito pouco: 27,772 mil milhões de dólares foram as receitas da Alphabet até setembro, mais 24% do que em relação ao ano passado. A publicidade é a grande fatia deste bolo: 24 mil milhões de dólares. Um ano antes eram 19,8 mil milhões de dólares.

A jornalista esteve em Dublin a Google

 

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