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Dreamliner já não voa. Autoridades dos EUA e Europa investigam

787 Dreamliner: o pesadelo da Boeing
787 Dreamliner: o pesadelo da Boeing

A Agência Europeia para a Segurança Aérea juntou-se ontem à Agência Federal de Aviação americana para proibir todos os voos do Boeing 787 Dreamliner. Japão, Chile e Índia já tinham anunciado, esta semana, que o novo modelo da construtora americana não sairia do chão até estarem identificados e resolvidos os problemas técnicos que resultaram, desde dezembro, em dez incidentes – forçando aterragens de emergência ou impedindo o avião de levantar (ver infografia). O último caso aconteceu ontem, quando um 787 da polaca LOT (única companhia europeia que tem este modelo) revelou problemas na bateria que obrigaram a cancelar a inauguração da rota Varsóvia-Chicago.

A maioria dos problemas do Dreamliner está relacionada com o sobreaquecimento das baterias de iões de lítio – que se estreiam nos aviões mas já tinham revelado riscos de incêndio em computadores portáteis. Mas também entram no rol de falhas fugas de combustível, instalações defeituosas, problemas elétricos, nomeadamente no sistema de travagem e rachas no cockpit. Razões suficientes para que as palavras do chefe do projeto de engenharia do 787, Mike Sinnett – garantindo que “o avião é 100% seguro” – não cheguem para pacificar as autoridades.

Depois de o National Transportation Safety Board, regulador americano, anunciar “uma ampla revisão aos sistemas críticos do Boeing 787 Dreamliner”, incluindo design, mão-de-obra e montagem, agora a FAA e a AESA vêm mesmo proibi-lo de voar no espaço aéreo europeu e americano – arrastando o resto do mundo para a proibição. Uma decisão que a própria agência europeia considera “dura e pouco frequente”, mas que justifica com preocupação com a segurança dos passageiros.

O presidente da Airbus, grande concorrente da Boeing, considerou “prematura” a decisão de proibir os 787 de voar. A companhia francesa, que já foi vítima de uma resolução semelhante – há um ano, toda a frota foi inspecionada depois de o superjumbo A380 ter presentado rachas nas asas -, também usa baterias de iões de lítio no A350. Até agora, sem problemas. “Se a FAA emitir diretivas e recomendações, vamos estudá-las a fundo e veremos se podem ser aplicadas ao A350”, admitiu Fabrice Brégier, em conferência de imprensa.

O que a Boeing tem a perder

A Boeing já anunciou que está a “trabalhar com os clientes e as autoridades competentes para investigar a fundo” as ocorrências. Mas a paragem obrigatória de todos os Dreamliners pode ter sérios efeitos na saúde financeira da companhia, já que as investigações podem durar semanas. A Boeing já entregou 50 Dreamliners – e tem outros 847 encomendados -, a um custo unitário de 155 milhões de euros. Todos terão de ser recolhidos e reparados pela construtora para poderem voltar a voar.

Ray Conner, presidente da Boeing, desvaloriza a questão: “O Dreamliner passou todos os testes de segurança. Temos total confiança no 787. Todos os novos modelos dão problemas quando entram em funcionamento.” Mas os investidores estão a ficar nervosos. Desde o início de dezembro, a empresa caiu mais de 3% em Bolsa (para cerca de 75 dólares), desaparecendo 2,07 mil milhões de dólares do valor da companhia (1,55 mil milhões de euros). “Estes problemas estão definitivamente a afetar a confiança do mercado e dos clientes”, disse ao FT Jason Gursky, analista do Citi.

A Boeing apostou tudo no êxito do Dreamliner, cujo desenvolvimento demorou mais de seis anos e custou 32 mil milhões de dólares à empresa. Além da inovação tecnológica, a estrutura de fibra de carbono torna o avião mais leve, permitindo poupar 20% de combustível. Segundo Nick Cunningham, analista da Agency Partners, a construtora americana teria de vender dois mil destes aviões – marca que deverá atingir no final da década de 2020 – para começar a ganhar dinheiro com o 787. Se o avião ficar no chão muito tempo, não só o break even será adiado como de pouco servirá a conquista do primeiro lugar na produção, roubado à Airbus em 2012 (64% de quota de mercado contra 41% da europeia) – dez anos depois de perder a liderança.

Há ainda que contar com as perdas das companhias que têm Dreamliners nas suas frotas e que já admitem pedir compensações à Boeing – caso da polaca LOT. Só a All Nippon Airways, que tem 17 aviões deste modelo, estima perdas de 1,1 milhões de dólares (cerca de 820 mil euros) por cada dia que os 787 ficam em terra.

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