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Editora financiada por leitores ultrapassa risco de falhar e supera expectativas

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Maria Jo‹ão Gala / Global Imagens
Fotografia: Maria Jo‹ão Gala / Global Imagens

E-Primatur aposta no crowdpublishing. Conta com 2 mil pessoas inscritas no portal e 21 livros publicados

A E-Primatur nasceu para editar livros de referência, financiados pelos leitores, um projeto inovador que apesar de se ter visto perante riscos, num país de pouca leitura, tem conseguido ultrapassar as expectativas, segundo o mentor da iniciativa.

“Imprima-se” é o que significa a palavra latina “Imprimatur”, que era gravada no selo que a Inquisição usava para indicar que um determinado original podia ser impresso e que serviu de inspiração para batizar o projeto editorial de Hugo Xavier, Pedro Bernardo e João Reis.

“E-Primatur é o ‘Imprimatur’ dos leitores, que pela primeira vez têm a palavra final” quanto à impressão de um livro.

Hugo Xavier, que foi cofundador da Cavalo de Ferro e passou pela Ulisseia, do grupo Babel, estava desempregado, Pedro Bernardo estava na Almedina, mas queria outro tipo de desafio, João Reis foi editor da Eucleia e dominava as línguas escandinavas.

Assim se juntaram com a ideia de, “como leitores, procurar o que faz falta no mercado, livros de referência e grandes clássicos”, obras consideradas essenciais que marcaram leitores e foram capazes de mudar mentalidades, explicou à Lusa Hugo Xavier.

Havia contudo um problema: “Não havia dinheiro. Então como poderia avançar?”

Tentaram inspirar-se em modelos usados no estrangeiro, como o de uma editora americana que anuncia o número de livros a publicar ao longo do ano e arranja subscritores.

“Em Portugal nunca acreditei na subscrição. Era preciso comunidades muito unidas de leitores e não há”.

O passo seguinte era então descobrir como poderiam criar essas comunidades de leitores, para que pudessem agir como um todo.

“Foi um bocadinho perceber: se leio um livro de que gosto, recomendo aos meus amigos e a melhor maneira de passar isto é através de redes sociais e depois criar um sistema de interação entre o leitor e editora”, afirmou.

Criado o grupo de leitores que acompanha e interage com a editora, que recomenda, partilha e, assim, chama mais leitores também a participar e a replicar, estava preparado o terreno para fixar um projeto editorial baseado na angariação de fundos, em que os leitores possam contribuir para financiar a publicação de livros.

Trata-se de um projeto de ‘crowdpublishing’ (vertente do ‘crowdfunding’ para a edição de livros) e que consiste em apresentar propostas de livros a editar, calcular a verba necessária para os editar, estipular um valor de ‘doação’ por pessoa e o número de pessoas necessárias para se conseguir, com o total de doações, tornar o livro realidade.

Caso não seja possível produzir o livro, ou o dinheiro é devolvido aos apoiantes ou o projeto E-Primatur cobre a verba em falta e publica-o.

Hugo Xavier sabia que o projeto seria arriscado, tendo em conta que “o número de leitores em Portugal é muito reduzido, muito inferior ao resto da Europa”, disse à Lusa.

“Temos menos de 5% da população a ler. Então, como sobrevivemos? Pelo ‘passa-palavra’, pela recomendação, pela qualidade dos leitores. Ninguém explora isso, nós quisemos fazê-lo”.

Aqui entra, uma vez mais, o papel fundamental das redes sociais, não só para divulgação dos projetos pela editora aos leitores, mas para que estes possam partilhar com amigos, com aquelas pessoas que sabem que gostariam também de ler “aquele livro”.

É desta forma que o projeto vai crescendo, como tem vindo a acontecer: “Começou com cerca de cinco pessoas e neste momento tem uma média de 20 apoiantes por livro, não há semana que não tenhamos duas a três novas inscrições – e a maioria corresponde a compras –, temos quase 2.000 pessoas inscritas no ‘site’, temos 21 livros publicados e 10 projetos em votação”, afirmou Hugo Xavier.

A “evolução é bastante boa” e, comparativamente, a editora está a “crescer mais do que um grande grupo editorial”, mas Hugo Xavier não tem ilusões e sabe que só daqui a três anos é que talvez consiga tirar dinheiro para ordenados.

“O que mais nos onera neste momento é que o dinheiro quando cai na conta tem que ser investido em reimpressões. O que é bom, mas não dá lucro”.

 

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