I Convenção dos Serviços

Em vez de 40 anos, aeroporto do Montijo pode ser solução durante apenas seis

Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens
Fotografia: Gerardo Santos/Global Imagens

O alerta foi feito por Mário Lopes, professor do Instituto Superior Técnico, na I Convenção Nacional dos Serviços, realizada hoje.

Se o número de movimentos e de passageiros do Aeroporto de Lisboa continuar a aumentar ao ritmo previsto, o reforço do Montijo deverá durar apenas entre seis a oito anos e não 40, como o presidente da ANA – Aeroportos de Portugal, Jorge Ponce de Leão, tem vindo a afirmar. O alerta foi feito por Mário Lopes, professor do Instituto Superior Técnico, durante o painel sobre os transportes e o posicionamento geoeconómico do país, na I Convenção Nacional dos Serviços, realizada hoje.

“Os estudos para fazer um novo aeroporto começaram há mais de 40 anos e, desde então, o aeroporto tem sido ampliado numa série de remendos que só têm resolvido problemas de curto prazo”, disse o professor, que depois lembrou as recentes declarações do presidente da ANA ao Negócios, em que apontou o Montijo como solução para 40 anos: “Fiquei intrigadíssimo. Não há estudos públicos e escrutináveis que sustentem esta afirmação e a opção pelo Montijo. Isto não quer dizer que seja uma opção má, eu próprio acho que é inevitável, mas isto está a ser feito sem transparência.”

“Nos últimos anos a procura tem estado a crescer a mais de 10% ao ano. Se a evolução se vai manter, não se sabe, mas sabe-se que nos últimos anos aumentou muito. E criou um grande problema. Se for preciso construir um novo aeroporto, não há tempo. Ou vamos prejudicar fortemente o turismo de Lisboa.

O professor apresentou vários dados, como o número passageiros e de movimentos e, feitas as contas, o Montijo seria apenas solução para um período entre seis a oito anos: “Se a procura continuar a crescer assim, com o aumento do número de movimentos, dá para seis anos. E se o número de passageiros aumentar 123% para 50 milhões ao ano, como refere o presidente da ANA, dá para oito anos. Além da falta de transparência do processo, os números não batem certo.”

Mário Lopes falou ainda no investimento feito até agora em remodelações na Portela, em estudos e no custo previsto do reforço do Montijo e defendeu que a melhor solução seria um novo aeroporto, porque todo o dinheiro gasto até agora “é essencialmente um desperdício de recursos”, uma vez que nenhuma das soluções resolve o problema a longo prazo.

Os transportes e o posicionamento geoeconómico

Na sua intervenção, o professor falou ainda sobre as outras modalidades de transporte e sobre os planos da União Europeia para transferir 50% do tráfego rodoviário para uma combinação de transporte marítimo e ferroviário até 2050 que, no caso português, pode implicar a perda de investimento.

Isto porque o transporte marítimo “não compete em termos de frequência, fiabilidade e tempo de trânsito” e que, porque nem todos os sectores conseguem conviver com estas condicionantes, a aposta teria que recair na ferrovia. No entanto, para que a transição seja possível, a rede ferroviária tem que ser interoperável. Espanha está a adaptar-se e, caso Portugal não adote a bitola europeia, “passa a ser uma ilha ferroviária”. Sem uma alternativa ferroviária de grande capacidade, Portugal vai ser prejudicado: “Os espanhóis vão trazer a bitola europeia até Salamanca. E é um desincentivo ao investimento em Portugal, porque os empresários vão preferir instalar as fábricas perto das ligações de que precisam.”

Este assunto voltou a ser falado na mesa redonda dedicada ao tema. José Luís Simões, presidente da Luís Simões, e Carlos Vasconcelos, managing director da MSC Portugal referiram não defender a existência de um problema de intermodalidade em Portugal. “Não nos vejo como concorrentes. Somos cooperantes”, disse Carlos Vasconcelos.

Na mesa redonda participaram ainda Mário Lopes, Mário Spínola, diretor executivo da Netjets Portugal, e Sandra Augusto, diretora de logística da Volkswagen Autoeuropa. Lídia Sequeira, presidente da Associação dos Portos de Portugal e presidente da administração dos portos de Setúbal, Sesimbra e Lisboa, também participou na mesa redonda e, antes deste debate, contou com uma intervenção ‘a solo’ sobre o crescimento dos portos portugueses. Entre outros aspetos, defendeu que o transporte marítimo “está mais associado à globalização do que qualquer outro” e que o seu crescimento acompanha a evolução positiva do comércio mundial. A responsável destacou também o elevado crescimento dos portos portugueses na última década: 42% na carga total e de 180% na carga contentorizada.

Os serviços às empresas

Antes da discussão sobre os transportes e o posicionamento geoeconómico do país, foi apresentado um estudo sobre a implementação de business services centers em Portugal, levado a cabo pela EY. Entre outras conclusões, o estudo permitiu apurar que Portugal, comparativamente com os principais concorrentes em matéria de investimento neste setor, é o segundo mais competitivo, antecedido apenas pela Irlanda e seguido pela Polónia, Bulgária, República Chega, Espanha, Roménia e Bulgária.

À apresentação do estudo seguiu-se uma mesa redonda sobre a visão das empresas que atuam a partir de Portugal, que contou com representantes da Altice/PT, Bosch, EDP Valor, Microsoft e da Randstad. Os principais desafios apontados pelos participantes foram a falta de mão-de-obra altamente qualificada, potenciada pela desadaptação do sistema de ensino às necessidades do mercado e a necessidade de adaptar a legislação laboral à realidade atual do mercado português, mantendo o equilíbrio entre a flexibilização e a proteção do trabalhador. A visão geral é positiva e, entre as principais vantagens, destacam-se as soft skills dos portugueses e a capacidade de inovação.

A estratégia de inserção na globalização e o papel dos serviços

Este foi o tema abordado ainda durante a manhã, num painel que contou com as apresentações dos economistas José Félix Ribeiro e Augusto Mateus e de Francisco Veloso, diretor da Católica Business School.

A intervenção de José Félix Ribeiro frisou as vagas de internacionalização da economia portuguesa e os desafios que agora se colocam para o crescimento, que deve assentar numa nova vaga da exportação de serviços. O economista destacou a importância dos serviços de engenharia, dos serviços no ciberespaço e das atividades de investigação e desenvolvimento e de serviços no espaço e na exploração do oceano, como forma de valorizar o território nacional.

Augusto Mateus focou duas questões que considera fundamentais: a terciarização do consumo e a servitização da produção. O economista sublinhou o papel fundamental dos serviços como elo de ligação entre a geografia, a tecnologia e a organização empresarial e referiu que, para um crescimento sustentado, é preciso apostar na capacidade inovativa.

Francisco Veloso abordou as transformações trazidas pela economia digital, que permitiu um “conhecimento mais significativo de clientes, produtos, soluções e serviços” e que alterou o paradigma da oferta de produtos e serviços. De acordo com o professor, os consumidores podem ter uma participação ativa no desenvolvimento, tendência que ilustrou com exemplos de soluções e serviços que existem “apenas porque há pessoais disponíveis para contribuir”, como o Airbnb, a Uber ou a portuguesa Unbabel.

Nicolas Colin, professor e investigador da Universidade Paris-Dauphine foi o primeiro interveniente na convenção, logo após a sessão de abertura, assegurada por João Vieira Lopes, presidente da direção da CCP e pelo primeiro-ministro. Colin destacou as grandes tendências da economia global, com enfoque nos efeitos da quinta revolução tecnológica, que permitiu o aparecimento de novos negócios: “Hoje as maiores empresas são as que operam através de apps para o público em geral, em todo o mundo, ligado entre si. Já não são as grandes fábricas”. O investigador frisou ainda a “nova relação entre as empresas e os clientes” e o facto de os consumidores já não serem passivos, tomarem melhores decisões de compra e fazerem parte da cadeia de valor.

Sobre Portugal, Nicolas Colin referiu que, apesar de antigamente os países pequenos serem considerados mais fracos, na economia digital a dimensão reduzida pode ser uma vantagem: “Porque tudo tem que mudar, os interesses de todos os players têm que estar alinhados. E isto é mais fácil nos países pequenos, há mais discussão”. A outra vantagem do mercado português é o incentivo da própria história para olhar além do mercado doméstico: “É preciso descobrir novos modelos em casa, mas levá-los a todo o mundo.”

A I Convenção Nacional dos Serviços, promovida pelo Fórum dos Serviços, em colaboração com a Confederação do Comércio e Serviços de Portugal (CCP), teve hoje lugar na Fundação Oriente, em Lisboa. Os trabalhos prosseguem amanhã.

Ler mais: António Costa: “Devemos transformar o Brexit numa oportunidade”

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Inspeção Geral das Finanças tem inquérito a decorrer.

IGF detetou ilegalidades de 1900 milhões de euros em 2016

Patrick Drahi lidera grupo Altice. Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens

Acionistas da dona do Meo apresentam queixa por “informação falsa ou enganosa”

Fotografia: JOSÉ COELHO/LUSA

OE2018: Aprovado aumento extraordinário de 6 ou 10 euros nas pensões

Outros conteúdos GMG
Conteúdo Patrocinado
Conteúdo TUI
Em vez de 40 anos, aeroporto do Montijo pode ser solução durante apenas seis